Terça-feira, 12 de maio de 2026 - 08h30

DEBOCHE
A concessionária da
BR-364, responsável por impor ao rondoniense um dos pedágios mais caros do país
por quilômetro rodado, acaba de anunciar sua mais nova “grande obra”: a
instalação de totens de atendimento em redes de supermercados para facilitar a
arrecadação. Na propaganda institucional, a medida é vendida como comodidade ao
usuário. Na prática, porém, soa como deboche para uma população que já sofre
com tarifas consideradas extorsivas e que até agora não viu as prometidas
melhorias estruturais saírem do papel.
REFÉM
Não existe parâmetro
razoável para comparar o preço do pedágio cobrado em Rondônia. A BR-364 não é
uma rodovia opcional, turística ou secundária. Trata-se da única ligação
terrestre entre praticamente todos os municípios do estado. Tudo passa por ela:
famílias, ambulâncias, trabalhadores, produção agrícola, mercadorias e
combustível. O cidadão rondoniense virou refém de uma estrada federal entregue
à exploração privada sem que lhe fosse garantida uma contrapartida minimamente
proporcional.
PRESSÃO
O impacto econômico
já começa a ser sentido. O aumento do custo do frete inevitavelmente chega às
prateleiras, pressiona a inflação local e pode até resultar em cortes de
empregos em setores que dependem diretamente do transporte rodoviário. No fim da
cadeia, quem paga a conta é sempre o consumidor.
ARRECADAÇÃO
O mais revoltante é
que sequer existe a justificativa da geração de empregos robustos para amenizar
a sangria financeira. As praças operam de forma praticamente digital, sem
cabines fixas e com reduzida necessidade de mão de obra. Ou seja: o dinheiro
sai de Rondônia, mas o retorno efetivo para a economia local é mínimo.
BOLETOS
Enquanto isso, as
obras prometidas seguem em ritmo invisível. A tão falada duplicação alcança
menos de 200 quilômetros em uma rodovia que ultrapassa mil quilômetros de
extensão dentro do estado. Venderam desenvolvimento, segurança e modernização,
mas até agora a população recebeu apenas boletos digitais e tarifas abusivas.
DESGASTE
Os políticos
rondonienses também têm sua parcela de responsabilidade. Muitos “levaram bola
nas costas” durante a discussão do contrato e permitiram a instalação dessa
verdadeira drenagem financeira. Agora, com o desgaste popular crescendo, tentam
posar de indignados e prometem pressionar a ANTT pela redução das tarifas.
MODELO
O detalhe que evitam
contar à população é que existe um contrato firmado, recheado de cláusulas que
dificultam - e muito - qualquer redução significativa dos valores cobrados.
No fim, Rondônia
corre o risco de viver a pior combinação possível: um pedágio caro, obras
lentas e uma economia sufocada para sustentar um modelo de concessão que, até
aqui, beneficia muito mais a arrecadação da empresa do que o direito de ir e
vir da população.
LITIGANDO
Entre a política e o
foro, o vice-governador de Rondônia, Sérgio Gonçalves, parece ter escolhido o
segundo como extensão do primeiro. Depois de abortar a pré-candidatura ao
Palácio Rio Madeira - movimento inevitável quando Marcos Rocha decidiu
permanecer no cargo -, reapareceu não em palanque, mas no Judiciário.
DERROTA
O alvo foi a
exoneração de assessores promovida pelo governador. Sérgio buscou reverter a
dispensa de colaboradores nomeados em cargos comissionados e recolocá-los na
folha estadual. Perdeu em todas as instâncias. A derrota judicial apenas
confirmou o que o episódio já sugeria politicamente: não se tratava de uma
discussão sobre legalidade administrativa essencial, mas de um braço de ferro
interno. O vice-governador sempre tem usado a velha e surrada tática: cutuca e
se esconde. Assim coleciona derrotas.
RISCO
A relação entre
governador e vice já vinha azedada desde o ano passado. Na ocasião, durante a
permanência de Marcos Rocha fora do país, em viagem a Israel, em meio ao
cenário de guerra, Sérgio teria articulado com um deputado estadual a tentativa
de declarar vago o cargo de governador, sob o argumento de ausência de
autorização legislativa e demora no retorno ao estado. Desde então, a
convivência institucional virou uma baita indiferença. Sobra ao vice o consolo
de uma candidatura a deputado estadual e ainda assim correndo o risco de mais
uma derrota.
ESPAÇOS
A nova ofensiva judicial reforça esse ambiente. Afinal, se as exonerações não
comprometeram o funcionamento da máquina pública, a discussão perde densidade
administrativa e ganha contorno estritamente político. Em português menos
cerimonioso: a disputa não era pela engrenagem do Estado, mas pelos espaços em
torno dela.
SINECURA
E aí mora o dado mais
eloquente. Quando a retirada de comissionados não produz qualquer abalo na
administração, a conclusão incômoda aparece quase sozinha: muitos desses cargos
parecem servir mais à acomodação de interesses do que à necessidade objetiva do
serviço público.
VAIDADES
Entreatos, o contribuinte assiste ao velho espetáculo da República tropical:
cargos tratados como patrimônio de grupo, exonerações convertidas em batalhas
de vaidade e a Justiça convocada para arbitrar aquilo que, no fundo, nasceu da
política menor. Não dá razão de Estado - mas da conhecida sinecura dos
apaniguados. Sérgio Gonçalves entrará para a história com um vice visceral e um
aprendiz de político de uma ingenuidade incomum.
LOROTA
É prematuro cravar qualquer cenário eleitoral para o Governo de Rondônia com
base nos dados hoje disponíveis. Os números ocultos das pesquisas dizem muito
mais do que os percentuais divulgados semanalmente. O que se pode afirmar, até
aqui, é que a disputa de 2026 segue completamente aberta, sem favorito
consolidado. É pura lorota quem se aventura a prever, com tanta antecedência, o
desfecho da corrida sucessória. Política muda como o vento: o que hoje parece
sólido, amanhã pode virar poeira. Essa é uma verdade tão elementar quanto dois
e dois serem quatro.
TRIUNVIRATO
Três pré-candidatos despontam, neste momento, como os nomes mais competitivos
da disputa. Quando a campanha começar efetivamente e o eleitor decidir comparar
perfis, trajetórias e propostas, será possível fazer uma leitura mais precisa
do cenário. Até lá, Marcos Rogério, Adailton Fúria e Hildon Chaves aparecem
como os nomes de maior densidade eleitoral e capilaridade política no estado.
São três pré-candidaturas robustas, com potencial para travar uma disputa
acirrada até o último dia de campanha pelas duas vagas no segundo turno.
ESQUERDA
No campo da esquerda, Expedito Neto tentará atrelar sua candidatura ao
tradicional voto “13”, apostando na vinculação entre presidente e governador.
Ainda que consiga consolidar essa estratégia, suas chances de vitória parecem
reduzidas diante do perfil majoritariamente conservador - e, em muitos
segmentos, francamente antipetista - do eleitorado rondoniense. Já Samuel Costa
entra na disputa praticamente isolado no espectro da esquerda e tende a cumprir
um papel mais simbólico no processo eleitoral.
BOLHAS
Outra incógnita é a
recente pré-candidatura do emedebista Pedro Adib. Por ainda estar em fase
embrionária, é cedo para medir sua viabilidade. Contudo, se o MDB permanecer
sob a orientação política de Confúcio Moura, o partido tende a enfrentar as
mesmas dificuldades de penetração eleitoral observadas nos demais projetos
ligados ao campo progressista. Pedro Adib, porém, surge como um intelectual
refinado e pode oferecer ao debate uma agenda distinta da polarização
predominante. O problema é que o eleitorado parece cada vez mais aprisionado
nas bolhas ideológicas e, até aqui, não deu sinais consistentes de buscar uma
alternativa fora dos extremos.
IMPEACHMENT
O arquivamento do
pedido de impeachment contra o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, apresentado
à Câmara Municipal pelo vereador Marcos Combate, já era esperado nos bastidores
políticos. Faltavam ao requerimento elementos mínimos capazes de sustentar uma
medida extrema como a cassação de um chefe do Executivo. Sem lastro probatório
consistente e sem adequada tipificação jurídica das supostas infrações
político-administrativas, o pedido acabou sendo remetido às calendas antes
mesmo de ganhar musculatura dentro do Parlamento municipal.
IMPORTÂNCIA
Marcos Combate, hoje
um dos opositores mais aguerridos da gestão de Léo Moraes, construiu sua
atuação parlamentar em torno do enfrentamento direto ao prefeito. Faz isso de
maneira estridente, quase sempre adotando o tom mais agressivo do debate
político local. E há, nesse ponto, um aspecto positivo: é saudável para
qualquer democracia que o Legislativo tenha vozes dissonantes e mandatos
dispostos a exercer fiscalização rigorosa sobre os atos administrativos da
prefeitura.
ESPETÁCULO
A existência de uma
oposição firme evita a acomodação política e fortalece os mecanismos de
controle institucional. Como já consagrou o velho brocardo, “toda unanimidade é
burra”. O problema surge quando o exercício legítimo da fiscalização ultrapassa
os limites da racionalidade política e passa a flertar com o espetáculo.
CARICATO
É justamente essa a
crítica recorrente feita ao comportamento de Marcos Combate. Em diversas
ocasiões, o vereador adotou posturas vistas como caricatas, transformando
embates políticos em episódios de tensão performática.
VIOLÂNCIA
Não são raros relatos
de abordagens ríspidas a servidores municipais e recentemente o parlamentar
chegou a ameaçar, da tribuna da Câmara, “dar um soco” no prefeito caso
recebesse tratamento semelhante ao que, segundo ele, teria sido dispensado ao
vereador Dr. Santana. Declarações dessa natureza ajudam a esvaziar a seriedade
de iniciativas que, em tese, deveriam ter densidade política e jurídica.
FOLCLÓRICO
O pedido de
impeachment acabou não sendo levado a sério nem mesmo por boa parte dos
próprios vereadores. Na imprensa, o requerimento ganhou mais espaço como
episódio folclórico do que como fato político relevante, tornando-se
praticamente nota de rodapé diante da ausência de fundamentos robustos.
CORREÇÃO
Ainda assim, reduzir
a atuação de Marcos Combate apenas ao excentrismo seria simplificar
excessivamente sua presença no Legislativo. O vereador também protagoniza
fiscalizações importantes relacionadas à aplicação dos recursos públicos e
frequentemente levanta questionamentos pertinentes sobre contratos e ações da
administração municipal. Em democracias maduras, fiscalizações duras e
independentes não apenas são legítimas, como ajudam o próprio Executivo a
corrigir falhas, rever excessos e aprimorar a gestão.
EXAGERADO
O desafio para a
oposição, porém, é encontrar o equilíbrio entre firmeza e responsabilidade.
Quando a crítica abandona o campo técnico e mergulha no exagero permanente,
corre o risco de perder credibilidade - e transformar o que deveria ser
controle institucional em mero espetáculo político.
PODCAST
Hoje, no podcast Resenha Política, entrevistamos o ex-juiz Robson
José Santos, desligado da magistratura do Tribunal de Justiça de Rondônia por
não preencher os requisitos da vitaliciedade. Ele sustenta ter sido vítima de
racismo estrutural justamente dentro de uma instituição cuja missão
constitucional é garantir direitos fundamentais e combater toda forma de
discriminação racial.
PÁREA
A entrevista é
esclarecedora. Este cabeça-chata não deixa perguntas pela metade e aborda, sem
rodeios, cada uma das imputações que culminaram em sua exoneração. Robson José
Santos responde ponto a ponto, sem tergiversar, e tenta reverter sua saída no
CNJ sob a tese de perseguição racial. Vale assistir. Parte da cobertura feita
até aqui apresentou o único juiz negro da primeira instância de Rondônia como
um personagem incompatível com a liturgia do cargo e um verdadeiro pária da
magistratura. A entrevista oferece ao público a oportunidade de ouvir o outro
lado dessa história. Sem meias palavras e sem receios de sacudir o cheiro
de naftalina que geralmente impregnam os trajes pretos, longos e medievais que
ornam o poder.
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