Quinta-feira, 26 de março de 2026 - 12h55

PESQUISA
Entre uma eleição e
outra ocorre debates apaixonados em razão das pesquisas que costumam aparecer
na mídia. Quem sai bem na foto replica, aquele que não se ver na boa imagem
critica. É algo normal em período eleitoral. O que importa registrar é que
todos dão importância aos números e, portanto, causam os debate acalorados.
Cabe ao profissional de mídia analisar os cenários postos. Embora alguns
colegas confundem o ofício.
ATALHO
Há um vício recorrente no debate político: quando o dado desagrada,
mata-se o mensageiro. Pesquisa virou alvo preferencial de quem prefere o
conforto da opinião à dureza dos números. É um atalho retórico, ruidoso e,
quase sempre, vazio.
RETRATO
O papel de quem analisa cenário não é gostar ou desgostar da fotografia,
mas entender o que ela mostra - e, sobretudo, o que não mostra. Percentuais,
amostra, recortes regionais, margem de erro: tudo isso compõe um retrato
provisório, datado, condicionado ao momento da coleta. Não é profecia, tampouco
sentença. É leitura de um instante.
PALPITE
Desqualificar o levantamento porque ele contraria expectativas não é
análise, é torcida. Questionamentos metodológicos são legítimos - desde que
venham acompanhados de argumento técnico. Criticar tamanho de amostra,
estratificação ou método de coleta exige domínio mínimo do assunto. Do
contrário, vira palpite com verniz.
OPINIÃO
No caso de pesquisas registradas, o cuidado deveria ser ainda maior. Há
regras, parâmetros e transparência exigidos por lei. Se há suspeita de fraude,
o caminho não é o grito nas redes, mas a demonstração concreta: inconsistências
verificáveis, dados conflitantes, indícios objetivos. Sem isso, sobra apenas
opinião - e opinião, por definição, não invalida dado.
VOLATIVIDADE
Há também um equívoco conveniente: confundir discordância política com
erro estatístico. O eleitorado é mais volátil do que o desejo de quem comenta.
Um nome que hoje pontua pouco pode crescer; outro, que lidera, pode murchar. A
pesquisa não erra por captar esse movimento - ela registra o que existe naquele
recorte de tempo.
OBSERVADOR
O analista sério trabalha com cenários, não com certezas absolutas.
Cruza números, observa tendências, considera variáveis externas. Não transforma
levantamento em bandeira, nem em inimigo. Sabe que a política é dinâmica e que
os dados são ferramentas, não dogmas.
DESQUALIFICANDO
No fim, a histeria contra pesquisas diz mais sobre quem fala do que
sobre o que foi medido. É o velho desconforto com a realidade quando ela
insiste em não caber na narrativa. Há um ritual previsível na política
rondoniense: sai pesquisa, entra a gritaria. Uns juram que é fajuta. Outros
desqualificaram a última divulgada porque Léo Moraes aparece bem colocado
sem nunca ter se colocado como candidato. No fundo, cada lado lê números como
quem lê espelho - procurando confirmação, não informação.
PARÂMETROS
Do ponto de vista formal, o levantamento do Instituto Veritá segue
parâmetros conhecidos: amostra definida, margem de erro declarada, metodologia
descrita. Pode-se discutir abordagem, questionário, timing - tudo legítimo. O
que não se sustenta é a tentativa de anular o dado por desconforto político.
CENÁRIO
Pesquisa, especialmente a esta distância da eleição, não é previsão. É
fotografia. E fotografia depende de luz, ângulo e, sobretudo, momento. Neste
caso, o momento revela mais sobre o eleitor do que sobre os candidatos.
DADO
O dado central continua sendo o vazio: 81,2% não têm candidato .
Isso, por si só, relativiza qualquer ranking. Quem lidera hoje lidera um
terreno ainda não ocupado. Quem aparece mal pode simplesmente não ter sido
lembrado - o que, em política, já é um problema, mas não é sentença.
RECALL
A presença de Léo Moraes ilustra bem o ruído. Seus números não são
“erro” da pesquisa; são reflexo de recall e avaliação administrativa. O eleitor
responde com o que conhece. Se o nome é lembrado e bem avaliado, ele entra — mesmo
fora da disputa. A pesquisa não inventa candidatos; ela capta memória.
PADRÃO
Outro ponto relevante é a consistência de Marcos Rogério na
liderança. Pode-se discordar do percentual, mas ignorar a recorrência é negar
padrão. E padrão, em análise eleitoral, vale mais que um número isolado.
NEGACIONISMO
As críticas podem ser justas. Questionar método é parte do jogo. O
problema é transformar crítica em negação automática. Isso não é análise - é
torcida. Para quem observa com alguma disciplina, há percentuais que merecem
atenção: a baixa rejeição de certos nomes, o peso da capital, a fragmentação
inicial e, sobretudo, o tamanho do eleitor ainda disponível. Esses são os
indicadores que, de fato, antecipam movimento. O restante é barulho.
ANSIEDADE
No fim, não faz sentido brigar com números. Faz sentido confrontá-los com
outros números. Enquanto não surgem novas pesquisas, esta é a realidade
disponível; imperfeita, provisória e, ainda assim, a única mensurável. O resto
é ansiedade travestida de crítica.
MEMÓRIA
A fotografia atual da disputa pelo governo de Rondônia tem assinatura: o
levantamento é do Instituto Veritá, realizado entre 13 e 19 de março, com 1.220
entrevistas e margem de erro de 3 pontos . É uma pesquisa tecnicamente
estruturada - mas, como toda fotografia, exige memória. Embora alguns
desdenhe da lisura o instituto que erra nas previsões como os demais, mas nas
últimas eleições da capital foi único que cravou a eleição de Leo Moraes (basta
pesquisar).
E memória, neste caso, pesa.
ACERTO
Ademais, não é a primeira vez que o Veritá mede Rondônia em um momento decisivo
- e tampouco é a primeira vez que Marcos Rogério aparece liderando. Em
2022, o instituto apontava um empate técnico: Rogério com 36,9% e Marcos
Rocha com 36,4%. O resultado final das urnas? 37,05% a 38,88% — ambos
dentro da margem de erro . Ou seja, não cravou o vencedor, mas captou com
precisão o cenário de equilíbrio.
AMBIENTE
Agora, em 2026, a história começa com roteiro semelhante: Marcos Rogério
lidera com 38,9% dos votos válidos . Mais uma vez, não há maioria - mas
há consistência. Ele não apenas aparece na frente; reaparece. E reaparecer, em
política, é sinal de base consolidada. O que mudou não é o líder. É o ambiente.
VAZIO
Hoje, o dado mais brutal da pesquisa não está na liderança, mas no
vazio: 81,2% ainda não têm candidato . Em 2022, havia disputa. Em 2026,
há suspensão. E nesse cenário, um erro comum seria superestimar o segundo
colocado.
VISÃO
Léo Moraes aparece com 20,2% dos votos válidos . Mas não será
candidato. Isso desloca completamente a leitura: seus números não são
eleitorais, são administrativos. Revelam uma gestão bem avaliada na capital e
uma liderança local consolidada.
OUTSIDER
Na prática, Léo não disputa - influencia. E, em uma eleição aberta, pode
ser mais útil como cabo eleitoral do que como candidato. Logo atrás, Adailton
Fúria ocupa o espaço real da disputa, com 18,8%. É ele, e não Léo, quem de
fato briga pela vaga no segundo turno. E briga em um terreno onde o eleitor
ainda não decidiu sequer participar. É aqui que entra o risco - ou a
oportunidade - do outsider.
INÉRCIA
Com mais de 80% do eleitorado em aberto, há espaço para candidaturas que
não estavam no script. Nomes como Delegado Rodrigo Camargo ainda são
marginais nos números, mas esse tipo de candidatura não cresce linearmente.
Cresce quando o sistema falha - e o sistema, até agora, não mobilizou o
eleitor.
DIREITA
Mas há um limite estrutural que trava qualquer ruptura mais radical:
Rondônia tem lado. A pesquisa mostra um eleitorado amplamente alinhado à
direita, beirando 70%. Isso não é detalhe ideológico - é eixo organizador da
eleição.
POSIÇÃO
Traduzindo: não há espaço competitivo para uma vitória pela esquerda. O
campo progressista entra na disputa não para vencer, mas para marcar posição.
Por fim, há a variável que a pesquisa simplesmente não captou: Hildon
Chaves. Confirmado há poucos dias pelo União Brasil, ele não aparece ainda bem
porque não existia partidariamente e andou piscando com uma candidatura
proporcional, no momento do levantamento.
PROTAGONISMO
Isso coloca Chaves em uma posição curiosa: não tem rejeição medida, não
tem teto definido - mas também não tem tempo. Entra como uma candidatura em
estado bruto num cenário que, embora aberto, já tem protagonistas
estabelecidos. Mas é um postulante com capilaridade para surpreender.
ERROS
E há ainda um último ponto, menos confortável: embora o Veritá sustente
alto índice de acerto nacional - acima de 90% no primeiro turno de 2022 -
também enfrenta questionamentos pontuais, como em eleições onde houve
divergências relevantes entre pesquisa e urna. Todos os institutos podem
cometer erros quando finalizam suas coletas por inúmeros equívocos. É do jogo.
Em outras palavras, a pesquisa é um bom mapa - mas não é o território.
MEMÓRIA
No fim, Rondônia repete um velho vício: começa a eleição com um líder
conhecido, um eleitor ausente e uma disputa que, no fundo, ainda não
começou. Quando começar, o favoritismo de hoje será testado. Mas a memória
- essa sim - já está votando. O que sobra neste momento é lorota
pré-eleitoral.
PODCAST
Teremos uma próxima semana movimentada com as entrevistas dos
pré-candidatos a governador Marcos Rogério (PL) e Hildon Chaves (UB). Ambos
abordam sobre os mais variados temas estaduais e indicam quais as primeiras
ações que devem implementar na hipótese de uma vitória na eleição. Estamos
agendando também com os candidatos ao Senador Federal, mas as agendas deles
andam complicadas. O nome que começa a surgir para senador é de Luís Fernando,
ex-secretário estadual de Finanças. Profissional qualificado e uma pessoa
boa no trato pessoal e é uma novidade a ser observada caso defina pela
candidatura.
Quinta-feira, 26 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
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