Terça-feira, 17 de março de 2026 - 14h20

RECONFIGURAÇÕES
A mais recente
pesquisa da Quaest revela um dado que, à primeira vista, pode parecer
contraditório, mas que na verdade expõe com precisão o atual estágio de
volatilidade do eleitorado brasileiro. Enquanto 56% dos entrevistados afirmam
já ter decidido em quem votar para presidente, um contingente expressivo de 43%
admite que ainda pode mudar de candidato. A correlação entre esses dois
percentuais indica que, embora haja uma maioria aparentemente consolidada, o
cenário eleitoral permanece fluido e sujeito a reconfigurações relevantes.
REVISÃO
Esse quadro sugere
que a decisão declarada por parte do eleitorado não necessariamente representa
uma convicção sólida. Em ambientes de alta polarização, como o atual, é comum
que o eleitor manifeste uma escolha antecipada, mas mantenha margem para
revisão diante de novos fatos políticos, econômicos ou mesmo emocionais. Assim,
o índice de 56% deve ser relativizado à luz dos 43% que reconhecem sua própria
instabilidade.
SOLIDEZ
Quando se observa a
base de apoio dos principais candidatos, essa dinâmica se torna ainda mais
evidente. Entre os eleitores de Lula, historicamente, há uma tendência de maior
fidelização, ancorada em ambiente ideológica e memória de governos
anteriores. Esse eleitorado costuma apresentar menor taxa de oscilação, o que
confere ao petista um núcleo mais sólido de sustentação.
PERMEÁVEL
Por outro lado, entre
os apoiadores de Flávio, o comportamento tende a ser mais suscetível a
variações conjunturais, especialmente influenciado por pautas momentâneas, desempenho
de governo e clima político. Isso não significa fragilidade absoluta, mas
aponta para uma base mais permeável a mudanças de humor do eleitorado.
PAPEL
A coexistência desses
dois blocos, um mais consolidado e outro mais volátil, reforça a leitura de que
a eleição ainda está em aberto. A margem de 43% de eleitores dispostos a mudar
o voto funciona como um campo de disputa ativa, onde campanhas, narrativas e
acontecimentos terão papel decisivo.
DÚVIDAS
Em síntese, a
pesquisa não aponta apenas quem está na frente, mas revela, sobretudo, o grau
de incerteza que ainda paira sobre o pleito. Mais do que números estáticos, os
dados expõem um eleitor dividido entre decisão e dúvida, o que transforma cada
movimento político em potencial fator de inflexão no rumo da eleição.
DISTINÇÃO
A correlação entre os
dados da pesquisa nacional, que apontam 56% do eleitorado com voto decidido e
43% ainda suscetível a mudanças, ganha contornos particulares quando
transportada para a realidade eleitoral de Rondônia. No estado, onde a direita
é amplamente majoritária e a esquerda historicamente não alcança 30% dos votos,
a aparente estabilidade do eleitorado assume um significado distinto do cenário
nacional.
EIXO
Nesse contexto, o
percentual de eleitores decididos não reflete uma divisão equilibrada entre
campos ideológicos, mas sim a consolidação de uma hegemonia conservadora. A
maior parte desse contingente está inserida no espectro da direita, o que reduz
significativamente o espaço competitivo para candidaturas de esquerda e desloca
o eixo da disputa para dentro do próprio campo dominante.
IDENTIDADE
Por outro lado, os
43% que admitem poder mudar de voto não indicam, em Rondônia, uma migração
relevante entre direita e esquerda, mas sim uma volatilidade interna, marcada
pela concorrência entre diferentes lideranças conservadoras. Trata-se de uma
disputa por identidade, influência e legitimidade dentro de um mesmo
eleitorado, que se orienta menos por divergências programáticas e mais por
afinidade política e simbólica.
NÚCLEO
Esse fenômeno ajuda a
explicar por que, mesmo com a maioria dos pré-candidatos posicionados à
direita, a eleição estadual permanece aberta. O fator decisivo não será apenas
o alinhamento ideológico, mas a capacidade de cada candidatura de se conectar
com o eleitorado bolsonarista, que ainda representa o núcleo mais consistente e
mobilizado da política local.
BENEFICIÁRIO
Nesse cenário, a
pré-candidatura do senador Marcos Rogério (PL) tende a se beneficiar
diretamente da associação com o bolsonarismo mais orgânico, funcionando como
polo de atração para o eleitor fiel a esse campo. Ainda assim, a existência de
múltiplas candidaturas competitivas dentro da direita mantém o ambiente
eleitoral dinâmico e sujeito a reacomodações.
PERFIL
A síntese que emerge
é clara. Em Rondônia, diferentemente do plano nacional, a volatilidade não
altera o eixo ideológico da disputa, mas define qual liderança conseguirá
hegemonizar o campo conservador. O eleitor já escolheu majoritariamente o lado
em que está, mas ainda não decidiu, de forma definitiva, quem melhor o
representa. É nesse intervalo entre convicção e escolha que a eleição será, de
fato, decidida.
DELIRANTES
A sucessão estadual
em Rondônia caminha para um desfecho previsível, apesar do barulho artificial
que insiste em ocupar bastidores e manchetes. Ao que tudo indica, há mais gente
interessada na renúncia do governador Marcos Rocha do que o próprio
vice-governador Sérgio Gonçalves. A insistência no tema beira o delírio
político, já que, na prática, a questão está resolvida há semanas.
INÓCUO
Marcos Rocha tem
repetido à exaustão que permanece no cargo e não disputará o Senado. Não se
trata de recado cifrado ou ambiguidade calculada, mas de uma decisão direta,
reiterada em entrevistas e reafirmada publicamente. Com o prazo fatal de 4 de
abril se aproximando, intensificam-se as pressões de toda ordem para que o
governador “largue o osso” e abra caminho ao vice. Movimento inócuo. Não há
qualquer indicativo de mudança de rota.
REALIDADE
O próprio governador,
inclusive, solicitou espaço para voltar ao Podcast Resenha Política no fim do
mês, quando deverá reiterar, mais uma vez, sua permanência no cargo. Ou seja,
quem ainda aposta em uma reviravolta trabalha mais com desejo do que com realidade.
FRACO
Nesse cenário, Sérgio
Gonçalves precisa recalibrar sua estratégia. Caso queira sustentar uma
candidatura ao governo, terá de fazê-lo sem contar com a máquina estatal como
combustível. A dependência de um gesto que não virá apenas prolonga uma indefinição
que enfraquece seu posicionamento político.
PREÇO
Sérgio é visto como
alguém de trato fácil, mas a política não perdoa movimentos mal calculados. Ao
flertar com uma articulação considerada temerária - a tentativa de viabilizar,
por meio de iniciativa legislativa, a vacância do cargo de governador - acabou
dando um passo maior que as pernas. O episódio foi interpretado como
precipitação e lhe cobrou um preço alto.
DESLEALDADE
Neste ponto, Marcos Rocha encontra respaldo ao afirmar que foi traído. Mais
do que um ruído institucional, o episódio expôs uma fissura política difícil de
recompor. Em um ambiente onde lealdade e timing são ativos valiosos, erros
dessa magnitude não passam sem consequências. Gonçalves, embora boa pessoa e
com aparência serena, faltou em tese com a lealdade. Isto é fato.
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