Quinta-feira, 21 de maio de 2026 - 15h19

MOFO
O MDB de Rondônia virou uma dessas velhas casas políticas onde o reboco
cai antes mesmo da campanha começar. Houve um tempo em que a sigla ocupava
espaços de poder com a naturalidade de quem respirava o ar do Palácio. Era
máquina, musculatura, capilaridade e mando. O partido que já produziu
governadores, senadores e uma militância inteira de caciques regionais hoje
parece uma fotografia esquecida num álbum mofado da Nova República.
UTI
Sob o comando de Lúcio Mosquini, o MDB foi sendo conduzido lentamente ao
estado vegetativo. Não houve explosão, nem incêndio cinematográfico. Foi pior:
uma erosão silenciosa, dessas que vão levando parede, piso e telhado enquanto
os moradores fingem que a estrutura ainda aguenta mais uma chuva. Mosquini
segurou a legenda até o limite da insolvência eleitoral e, percebendo que no
MDB seus votos não bastariam sequer para salvar o próprio mandato, atravessou a
janela partidária como quem abandona um barco minutos antes do naufrágio.
Migrou para o Partido Liberal levando consigo o pouco oxigênio que restava.
BOIA
O que ficou foi um MDB aos cacos tentando encontrar alguém disposto a
carregar a bandeira de uma candidatura ao governo. E encontrou. Ou quase isso.
O professor Pedro Adib surgiu como espécie de esperança acadêmica num partido
especializado em arqueologia política. Currículo sólido, discurso novo e o
benefício da novidade num ambiente frequentado pelas mesmas figuras de sempre,
repetindo fórmulas eleitorais como se ainda estivéssemos em 1994, quando
santinho de papel e reunião em sindicato decidiam eleição.
GESTO
A nova direção chegou a ensaiar euforia. Finalmente o MDB poderia vender
ao eleitor a ideia de renovação. Uma espécie de banho de tinta fresca sobre as
paredes rachadas do partido. Durou pouco. Segundo apurou a coluna, a
convivência entre o “novo” e o “velho MDB” começou a azedar antes mesmo da
campanha ganhar corpo. Pedro Adib teria decidido tocar a pré-campanha ignorando
os conselhos da velha guarda emedebista - o que, convenhamos, talvez seja o gesto
mais moderno produzido pelo MDB nos últimos anos.
JURÁSSICOS
E aí reside o drama. O partido ainda é habitado por uma geração de
dirigentes que continua tratando eleição como se fosse uma extensão da política
dos anos 1980: reunião fechada, controle interno e veneração hierárquica. Uma
velha guarda que tem experiência, memória e contatos, mas também carrega vícios
políticos envelhecidos como móveis de mogno em repartição pública. Servem para
aconselhar, abrir portas, chamar antigos militantes e lembrar onde os corpos
eleitorais estão enterrados. Mas insistem em querer dirigir campanha digital
com a mesma lógica de quem distribuía santinho em feira livre ao lado de uma
Kombi com alto-falante.
SOBREVIVÊNCIA
O MDB precisa da experiência dos antigos, mas não pode continuar prisioneiro
deles. Renovação partidária não é colocar um rosto novo na vitrine enquanto os
mesmos operadores seguem decidindo o cardápio na cozinha. Se quiser sobreviver,
o partido terá de permitir que os novos militantes ocupem espaços reais, não
apenas decorativos.
CONTAMINAÇÃO
O problema é que o mofo político contamina rápido. E talvez nem mesmo
Confúcio Moura, ainda o melhor quadro que o MDB produziu nas últimas décadas em
Rondônia, consiga impedir que a atmosfera pesada da velha engrenagem sufoque
qualquer tentativa de oxigenação. O MDB, que já foi locomotiva eleitoral, hoje
parece um museu tentando convencer o eleitor de que ainda fabrica futuro. E
museu, na política, raramente ganha eleição.
CAOS
Volta e meia algum
levantamento nacional reaparece decretando Porto Velho como uma das piores
cidades do país para morar. Os indicadores expõem velhas feridas urbanas:
saneamento precário, deficiência no abastecimento de água tratada, crescimento
desordenado, mobilidade irregular e serviços públicos que ainda caminham atrás
das necessidades de uma capital amazônica que cresceu mais rápido que sua
capacidade de planejamento.
PANFLETOS
Nada disso é invenção estatística. Os problemas existem, são antigos e
continuam exigindo vigilância permanente da sociedade e competência real dos
gestores públicos. Porto Velho carrega décadas de improviso administrativo
acumulado, obras interrompidas, expansão periférica sem infraestrutura e
promessas recicladas a cada eleição como panfletos molhados pela chuva.
REAÇÃO
Mas há um detalhe importante que muitos relatórios frios ignoram: a
cidade começou a reagir. Os números recentes do IPS Brasil mostram que Porto
Velho registrou a 8ª maior evolução nominal entre as capitais brasileiras,
saltando de 57,25 em 2025 para 58,59 em 2026. Um avanço concreto de 1,34 ponto.
Continuou na última posição entre as capitais? Sim. Mas já não está parada no
mesmo lugar de antes.
SINAIS
E isso, para uma cidade historicamente atolada em déficits estruturais,
possui significado político e social relevante. Existe certa crueldade em
analisar Porto Velho apenas pelo retrovisor do atraso, ignorando os sinais de
melhora que seus próprios moradores começam a perceber no cotidiano.
AVANÇOS
A autoestima de uma cidade também depende da capacidade de reconhecer
avanços sem fechar os olhos para os problemas. E Porto Velho, apesar das
cicatrizes urbanas expostas, segue avançando lentamente onde durante décadas
quase nada saía do papel.
HERANÇA
O prefeito Léo Moraes herdou uma máquina pública cercada de desafios
históricos que não serão resolvidos num passe de mágica administrativa. O
déficit de saneamento, por exemplo, é daqueles dramas nacionais que atravessam
governos como uma herança maldita. Não depende apenas da prefeitura, mas de
articulação com Estado, União e investimentos bilionários que raramente chegam
na velocidade das necessidades da população.
AUTOESTIMA
Ainda assim, os avanços precisam ser preservados e ampliados. Porque
cidades não se transformam apenas com concreto, tubos e estações de tratamento.
Transformam-se também quando seus moradores conseguem voltar a acreditar que o
lugar onde vivem pode melhorar.
RESILIÊNCIA
Porto Velho ainda convive com problemas severos. Mas também já não é
exatamente a mesma cidade de alguns anos atrás. Entre estatísticas negativas e
pequenas vitórias urbanas, a capital tenta escapar do velho destino amazônico
de sobreviver apenas como promessa adiada.
PLANEJAMENTO
A tragédia do saneamento básico em Porto Velho não nasceu ontem,
tampouco será resolvida na velocidade dos vídeos de redes sociais onde governos
adoram inaugurar centímetros de asfalto como se descobrissem a pólvora
administrativa. Trata-se de uma ferida antiga, aberta ainda nas décadas em que
a capital cresceu sem planejamento, sem estrutura e sem qualquer compromisso
sério de sucessivos governos com aquilo que separa civilização de abandono:
água tratada e esgoto.
RETRATO
Ao longo dos anos, prefeitos passaram pelo relógio do poder municipal,
governadores desfilaram promessas embaladas em campanhas milionárias e a União
distribuiu discursos amazônicos adornados por palavras sofisticadas sobre
sustentabilidade. No entanto, a realidade permaneceu brutalmente simples:
bairros inteiros convivendo com lama, fossas improvisadas e igarapés transformados
em corredores de dejetos humanos. A capital amazônica foi expandida como quem
ergue puxadinhos sobre um terreno já condenado.
IMEDIATISMO
O prefeito Léo Moraes recebeu esse labirinto subterrâneo onde canos
inexistentes contam mais sobre a história política de Rondônia do que muitos
discursos inflamados da Assembleia Legislativa. É um problema estrutural,
bilionário e que não depende exclusivamente da prefeitura. Exige participação
efetiva do Estado e do governo federal, além de planejamento técnico contínuo -
artigo raro numa cultura política acostumada a pensar apenas até a próxima
eleição.
INEFICIÊNCIA
No centro desse colapso repousa a velha e combalida Caerd, estatal que há anos
se tornou mais conhecida pelas dívidas acumuladas do que pela capacidade de
universalizar saneamento. A companhia foi sendo consumida lentamente por
administrações desastrosas, ingerência política, loteamento de cargos e
incapacidade histórica de investimento. Em muitos momentos, parecia existir
apenas para renegociar passivos e sobreviver administrativamente enquanto a
população seguia esperando água encanada e rede de esgoto.
ATRASO
Agora surge a discussão sobre privatização dos serviços. E, como sempre
ocorre quando o assunto ameaça estruturas envelhecidas do poder, aparecem os
guardiões do atraso. Setores políticos ainda presos ao romantismo estatizante
do século passado combatem qualquer mudança como se defendessem patrimônio
sagrado. Parte da própria corporação interna reage olhando para o próprio
umbigo funcional, nunca para a coletividade abandonada entre valas abertas e
doenças evitáveis. O cidadão continua refém de uma guerra ideológica travada
por gente que muitas vezes mora em bairros plenamente saneados.
BOMBA
A matemática do saneamento é cruel porque não produz glamour eleitoral
imediato. Tubulação enterrada não rende selfie. Estação de tratamento não
produz aplauso em carreata. Enterrar bilhões de reais no subsolo nunca
despertou o mesmo entusiasmo político que pintar praça ou inaugurar portal
luminoso. Por isso Porto Velho cresceu décadas acima da capacidade de sua
infraestrutura, empurrando para o futuro uma bomba sanitária que agora explode
no colo de todos os governos simultaneamente.
CORAGEM
O desafio da gestão atual talvez seja exatamente romper essa lógica
histórica de improviso permanente. Se houver coragem política para enfrentar
interesses corporativos e abandonar discursos decorativos, Porto Velho poderá
começar a sair da condição humilhante de capital onde o esgoto corre a céu
aberto enquanto autoridades fazem seminários sobre desenvolvimento sustentável
em auditórios refrigerados. Caso contrário, a cidade continuará assistindo
governos passarem como as águas barrentas do Madeira: volumosos nos discursos e
rasos nas soluções.
FEIRA
A Rondônia Rural Show deixou de ser apenas uma feira agrícola há muito
tempo. Desde os tempos do governo de Confúcio Moura, o evento cresceu como soja
em terra adubada: rápido, volumoso e cercado de cifras. Em Ji-Paraná, ergueu-se
uma espécie de catedral do agronegócio amazônico, onde tratores já parecem
naves espaciais e colheitadeiras exibem mais tecnologia que muito gabinete
público.
PROTAGONISMO
A cada edição, a feira amplia musculatura econômica. Gigantes do agro
desembarcam com máquinas de última geração, drones, inteligência embarcada e
promessas de produtividade quase bíblicas. Rondônia virou parada obrigatória no
calendário nacional do setor. O dinheiro circula com velocidade de pregão
financeiro e o produtor rural, antes tratado como coadjuvante da economia
amazônica, agora desfila como protagonista de exportações, negócios e cifras
bilionárias.
HOLOFOTES
O governo estadual compreendeu cedo que a Rondônia Rural precisava ser
mais do que uma vitrine de máquinas polidas sob sol escaldante. O objetivo
passou a ser transformá-la numa arena permanente de negócios, conectando
produtores, compradores, investidores e bancos. E conseguiu. Hoje, o evento
projeta produtos rondonienses para além das fronteiras regionais, vendendo a
imagem de um estado agrícola moderno, eficiente e competitivo. Mas toda feira
grandiosa também produz sombras proporcionais ao tamanho dos holofotes.
INDÍCIOS
E é exatamente aí que entra o secretário de Agricultura, Luís Paulo. Não
há, até aqui, qualquer fato concreto que aponte irregularidades nos
investimentos da infraestrutura do evento. Nenhum documento explosivo, nenhuma
operação policial cinematográfica, nenhum servidor algemado sob lentes ávidas.
Ainda não.
SUSSUROS
O problema mora naquele território pantanoso da política brasileira
chamado “boca miúda”. O cochicho rasteiro. A conversa de corredor. O comentário
atravessado servido entre cafezinhos e apertos de mão. E política, como se
sabe, costuma transformar sussurros em tempestades com uma facilidade
impressionante.
FUMAÇA
Por isso, talvez seja prudente ao secretário redobrar a vigilância sobre
cada centavo empregado na estrutura da feira. Não apenas para fazer a coisa
certa - obrigação elementar de qualquer gestor público -, mas para impedir que
o burburinho ganhe densidade de fumaça tóxica. Porque existe um velho adágio
que sobrevive intacto na República: onde há fumaça, cedo ou tarde alguém aparece
vendendo fósforo.
COMBUSTÃO
E convenhamos: poucas áreas no Brasil são tão inflamáveis quanto obras,
contratos e dinheiro público circulando em ritmo acelerado. Basta uma fagulha
para transformar a grandiosa vitrine do agro numa fogueira política de proporções
rurais.
CRUZADA
O deputado federal
Lúcio Mosquini transformou o mandato numa cruzada permanente contra os
mecanismos de fiscalização ambiental, como se Ibama, ICMBio e os órgãos
estaduais fossem inimigos da produção rural e não instrumentos mínimos de
contenção da barbárie fundiária na Amazônia. Em Brasília, atua como voz
aguerrida do setor mais conservador do agronegócio. Em Rondônia, virou uma
espécie de patrono político do afrouxamento ambiental.
DESMONTE
Ontem, a Câmara dos Deputados aprovou mais um projeto alinhado à agenda
ruralista que escancara esse desmonte gradual das políticas ambientais. A
proposta fragiliza a fiscalização remota de áreas desmatadas, proíbe embargos
baseados apenas em imagens de satélite e ainda obriga a notificação prévia de
produtores antes da aplicação de sanções. Na prática, o Estado passa a avisar
previamente quem desmatou antes de puni-lo. É quase um convite oficial para
apagar rastros.
RETROCESSO
O texto, celebrado pela bancada ruralista como parte do chamado “Dia do
Agro”, representa um duro golpe nos instrumentos modernos de monitoramento
ambiental. Em tempos de tecnologia avançada, satélites e inteligência
territorial, o Congresso decide caminhar para trás, como se fiscais precisassem
atravessar quilômetros de floresta de jipe e prancheta para comprovar crimes
ambientais já detectados em tempo real por sistemas reconhecidos
internacionalmente.
UMBIGO
Não se trata apenas de divergência ideológica. Há interesse econômico.
Mosquini legisla olhando pela janela da própria porteira. Pecuarista e produtor
rural, faz da Câmara Federal uma extensão das demandas de segmentos que
enxergam a floresta como obstáculo contábil. Sua retórica costuma vestir a
fantasia do “desenvolvimento”, embora frequentemente desemboque na velha tese
segundo a qual preservar seria impedir o progresso - uma visão atrasada até
para os padrões do lucro contemporâneo, onde sustentabilidade virou ativo
econômico e geopolítico.
NEGACIONISTA
O parlamentar consolidou a imagem de negacionista ambiental ao atacar
reiteradamente políticas de fiscalização, questionar mecanismos de controle e
defender flexibilizações que reduzem o alcance do Estado sobre áreas
protegidas. Sob o verniz da defesa do produtor, esconde-se uma política que
beneficia justamente quem opera nas franjas da legalidade ambiental. O pequeno
agricultor vira biombo moral para interesses muito maiores. Ele vota e é o
grosso do eleitorado, mas Mosquini legisla para o grande proprietário e usa o pequeno
como massa de manobra.
DEMAGOGIA
Em Rondônia, estado que convive há décadas com conflitos fundiários,
desmatamento acelerado e ocupações desordenadas, o discurso do “libera geral”
encontra plateia fácil. Afinal, sempre rende votos posar de perseguido pelos
fiscais enquanto tratores avançam sobre reservas e rios agonizam sob o peso da
exploração predatória. A floresta, no roteiro eleitoral de certos políticos,
aparece apenas como estoque de madeira, pasto ou minério.
DELÍRIO
O mais irônico é que os mesmos grupos que demonizam a fiscalização
dependem profundamente dela para manter mercados internacionais abertos. A
Europa endurece regras ambientais, investidores exigem rastreabilidade e
grandes compradores já evitam cadeias ligadas à devastação. Enquanto o mundo
discute economia verde, parte da política amazônica ainda age como se estivesse
presa nos anos 1970, sob o delírio desenvolvimentista de que floresta em pé
seria atraso.
PREDADOR
Mosquini encarna essa contradição. Defende um modelo de expansão rural
que frequentemente colide com a sustentabilidade, mas tenta vender isso como
defesa da soberania nacional. No fundo, é a velha política da motosserra
travestida de patriotismo econômico.
REFLEXOS
O problema é que a conta ambiental não desaparece por decreto
parlamentar. Ela volta em forma de seca severa, rios assoreados, queimadas
incontroláveis, isolamento comercial e crises climáticas cada vez mais
agressivas. A natureza não lê discursos da tribuna nem se curva às
conveniências eleitorais. Na Amazônia, afrouxar a legislação ambiental nunca
foi apenas uma escolha administrativa. É uma aposta de alto risco contra o
futuro. Mosquini é latifundiário, produtor e pecuarista e defende o seu,
enquanto o lavrador da agricultura familiar que se vire.
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