Quinta-feira, 14 de maio de 2026 - 09h15

ARROGÂNCIA
O problema da
política rondoniense não é a falta de líderes. É o excesso de “pais da pátria”
reivindicando autoria sobre carreiras alheias, como se mandatos eletivos fossem
capitanias hereditárias distribuídas em mesa de jantar. A mais recente
investida veio do pré-candidato ao governo pelo PT, Expedito Neto, ao insinuar
que adversários seriam uma espécie de “criação” política da família Expedito
porque, em algum momento, dividiram palanque com ele ou com o pai. Nada mais
arrogante em política e revela que dois mandatos na Câmara Federal o fedelho
não aprendeu nada. Continua o mesmo.
OSMOSE
A declaração não é
apenas arrogante. É politicamente perniciosa. Reduz a vontade popular a um cartório
familiar onde votos seriam transferidos como escritura de imóvel. Em política,
alianças ajudam, abrem portas, pavimentam caminhos. Mas ninguém vira prefeito,
senador ou governador por osmose genética de grupo político. Quem não tem voto,
empatia e capacidade de comunicação vira apenas ex-candidato com discurso
ressentido.
ESCAMOTEIO
É verdade que Hildon
Chaves foi alçado candidato tucano numa articulação conduzida por Expedito
Júnior, num momento em que o então o ex-promotor enfrentava desconfiança
partidária. O detalhe omitido por Neto é que, nos bastidores, o próprio
Expedito Júnior hesitou sobre a viabilidade eleitoral do afilhado político e
chegou a abrir conversas paralelas com outros nomes da disputa, entre eles Léo
Moraes, que acabaria indo ao segundo turno contra Hildon. Convicção absoluta?
Não havia. O convencimento de que Hildon Chaves era viável veio de quem o
próprio Expedito Junior já declarou numa rádio. E não dele. Um detalhe que Neto
escamoteou.
VERSÕES
A insistência na candidatura própria veio muito mais do entorno político do que
de qualquer iluminação estratégica familiar. A política real - essa que
acontece longe dos microfones e das bravatas - raramente cabe nas versões
heroicas contadas depois.
REGOZIJO
No caso de Marcos Rogério, a tese de “cria” beira o delírio retórico. Quando
foi convidado para compor chapa majoritária como candidato ao Senado, já
possuía mandato consolidado de deputado federal e trajetória própria. Aceitou
compor aliança, não assinar adoção política. E a ideia de convidá-lo para chapa
não surgiu da cabeça de Expedito Junior. Foi da assessoria. Isto ele também já
revelou. Neto, mais uma vez, escamoteou para se regozijar o ego superlativo do
DNA.
SÍNDICO
Já Léo Moraes, Hildon Chaves e Fúria possuem algo indispensável que nenhuma
família entrega em cartório: densidade eleitoral. O eleitor pode até errar,
exagerar ou se arrepender depois. Mas não terceiriza sua vontade para
sobrenomes tradicionais como quem escolhe síndico de condomínio.
VENDETA
A entrevista concedida por Expedito Neto ao jornalista Fábio Camilo revela um
personagem que continua o mesmo de outrora: verborrágico, afeito a pantomimas e
incapaz de esconder a compulsão por conflito. Mudou de campo ideológico,
desembarcou no PT mediante articulação nacional e hoje posa de convertido à
esquerda, mas preserva intacto o velho hábito de transformar divergência
política em vendeta pessoal.
HERANÇA
Neto foi eleito, sim, na esteira do capital político do pai. Não há desonra
nisso; quase toda oligarquia regional brasileira opera assim desde os coronéis
do café até os influencers de palanque digital. O problema começa quando o
herdeiro passa a acreditar que o prestígio herdado lhe concede propriedade
intelectual sobre o destino dos outros.
LOROTA
Neto tem o talento de
falar com desenvoltura - até demais -, e fez um primeiro mandato na Cãmara
Federal razoável que culminou com sua reeleição. Mas no segundo, aquele em que
votou pelo impeachment da Dilma e hoje se arrepende , foi um desastre. Razão
pela qual obteve metade da votação da eleição seguinte. Ao invés de anunciar
quais propostas para governador Rondônia optou em contar lorota.
CENTRALIDADE
A entrevista foi
reveladora não pelo conteúdo programático - praticamente inexistente -, mas
pelo retrato psicológico do personagem. Expedito Neto parece menos interessado
em construir um projeto de governo e mais empenhado em reafirmar centralidade
num cenário onde antigos aliados aprenderam a caminhar sem pedir bênção.
‘CRIAS’
No fim, sobra uma
ironia amarga: ao tentar diminuir adversários chamando-os de “crias”, o
neopetista acabou apenas confessando aquilo que mais incomoda velhos caciques
regionais - a dificuldade de aceitar que o eleitor, às vezes, emancipa
politicamente quem um dia apenas esteve no mesmo palanque. Nem Valdir Raupp,
responsável em apresentar Expedito para uma eleição a deputado federal, ousou
dizer que o pai do Neto foi cria sua. Afilhado não se cria caso não tenha
talento. Nem filho...
CONSTRANGIMENTO
As revelações
divulgadas pelo site The Intercept Brasil envolvendo o senador Flávio Bolsonaro
e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, produziram um dos
episódios políticos mais constrangedores do campo bolsonarista nos últimos
meses. Não apenas pelo teor das conversas vazadas, mas principalmente pela
sucessão de versões contraditórias apresentadas pelo filho do ex-presidente
Jair Bolsonaro.
IRONIA
O impacto inicial da
crise decorre menos da existência de uma relação pessoal entre político e
empresário - algo relativamente comum nos bastidores do poder - e mais da
tentativa frustrada de negar aquilo que posteriormente foi admitido. Quando
questionado pela primeira vez sobre os diálogos revelados, Flávio reagiu de
forma irônica, atacando o jornalista responsável pela reportagem e atribuindo
motivações ideológicas à divulgação. A estratégia é conhecida: desacreditar o
mensageiro para evitar o desgaste da mensagem.
CONFISSÃO
O problema surgiu
quando o conteúdo divulgado tornou insustentável a negativa inicial. Diante da
repercussão, Flávio acabou admitindo ter solicitado recursos financeiros ao
banqueiro, embora tenha tentado enquadrar o pedido como uma demanda de natureza
privada.
RUÍDO
Politicamente, porém,
a justificativa foi devastadora. Para um grupo político que construiu sua
identidade eleitoral no discurso moralista e no combate implacável contra
relações obscuras entre empresários e agentes públicos, a revelação produz um
ruído difícil de neutralizar fora da militância mais fiel. E é exatamente aí
que reside o ponto central dessa crise.
BOLHA
A base bolsonarista
mais radicalizada opera hoje como um ecossistema fechado de validação política.
Dentro dessa bolha digital, narrativas são reproduzidas quase em tempo real,
transformando versões defensivas em verdades absolutas antes mesmo de qualquer
aprofundamento jornalístico. Até o momento, é perceptível que boa parte desse
eleitorado permanece fiel ao senador, reproduzindo a tese de perseguição
política e relativizando a gravidade das revelações.
CONTAMINAÇÃO
No entanto, eleições
presidenciais não são vencidas apenas com militância apaixonada. O eleitor
decisivo costuma estar no centro político, muitas vezes distante do engajamento
ideológico das redes sociais. Foi exatamente esse eleitor moderado, menos
suscetível a discursos inflamados e mais sensível a contradições éticas, que
contribuiu decisivamente para a derrota de Jair Bolsonaro em 2022.
PERFIL
É nesse segmento que
o episódio pode produzir danos mais profundos e duradouros. A imagem de um
pré-candidato presidencial pedindo dinheiro a um banqueiro posteriormente
preso, ainda que sob alegação de questão privada, gera desgaste imediato junto
ao eleitorado que exige coerência entre discurso e prática.
NARRATIVA
A crise ganha
contornos ainda mais delicados porque o bolsonarismo sempre explorou
eleitoralmente escândalos envolvendo relações promíscuas entre política e setor
financeiro. Quando o mesmo tipo de suspeita passa a atingir figuras centrais do
grupo, a narrativa anticorrupção perde potência.
PESQUISAS
Ainda assim, é
precipitado decretar consequências eleitorais definitivas. A política
brasileira tem demonstrado enorme capacidade de absorção de escândalos,
sobretudo em ambientes marcados por forte polarização ideológica. O impacto
real só poderá ser medido nas próximas pesquisas qualitativas e quantitativas,
especialmente na percepção do eleitorado independente.
CORROENDO
Por enquanto, o que
existe é um dano político visível, barulhento e potencialmente corrosivo.
Talvez não suficiente para inviabilizar uma candidatura, mas certamente capaz
de enfraquecer um discurso que sempre se vendeu como moralmente superior aos
adversários. A bolha está firme Flávio Bolsonaro, mas ela sozinha não elege um
presidente. Nem governador.
DISPUTA
Quem analisa os dados
dos grupos qualitativos e possui alguma experiência com este tipo de pesquisa
conclui sem medo de errar que a eleição para o senado Federal, em Rondônia,
promete muita mudança na medida que o calendário eleitoral for se estreitando.
É uma eleição aberta e bem disputada e vai ser assim até o último dia da
eleição. É uma disputa para corações fortes.
PODCAST
Neste sábado, no
podcast resenha política, receberemos para gravação os pré-candidatos ao Senado
pelo PL. Fernando Máximo vem pela segunda vez e, pela vez primeira,
entrevistaremos o "Zero Cinco" do bolsonarismo, Bruno Scheid. As
entrevistas vão ao ar nas semanas seguintes.
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