Quinta-feira, 30 de abril de 2026 - 09h30

DESABAFO
Há prefeitos que
governam, outros que administram crises - e há aqueles que resolvem narrá-las
em praça pública, como quem acende um fósforo em depósito de pólvora e depois
se surpreende com o barulho. Tony Pablo, de Cacoal, escolheu a terceira
via. Em longa conversa com este articulista da cabeça achatada, o prefeito de
Cacoal desenhou um enredo que mistura desabafo, cálculo político e uma certa
dose de ingenuidade operacional. Creditou a mídia engajada as interpretações
diversas sobre um decreto que tornou público sobre contenção de gastos para
evitar o caos contábil da administração municipal.
RELAÇÃO
Disse não ser
traidor, insistiu não ter compromisso com pré-candidaturas, mas, como quem
tropeça na própria narrativa, relembrou - mais de uma vez - sua relação
histórica com Adailton Fúria desde 2009. Uma relação, conforme frisou de forma
enfática, não significa sabujice, alinhamento em tudo nem subserviência.
FOTOGRAFIA
A foto com Marcos
Rogério? Coincidência. Apoio? Lorota. O município precisa de emendas, e cabe ao
prefeito estabelecer relação com todos da bancada para conseguir alguns
caraminguás. Com Sílvia Cristina, ele também posou em Brasília, mas não
repercutiu, em razão de que, com o senador, a narrativa para as mídias digitais
esquenta o ambiente político. Tony Pablo disse que uma foto com autoridade, em
si, é algo natural e não representa apoio imediato. “Tô pensando em Cacoal”,
esclareceu.
INCÔMODO
Há um incômodo do
prefeito com o veto ao deputado estadual Cirone Deiro na engrenagem de Fúria.
Ele explicou que o parlamentar é seu amigo de longa data e possui ascendência
sobre seis vereadores. Quando barraram Cirone no grupo que elegeu Fúria, ele,
Tony Pablo, se revoltou.
AMIZADE
Ali, o discurso
ganhou densidade emocional. Amizade, lealdade, influência na Câmara -
ingredientes suficientes para entender que a crise não é apenas fiscal. É
também política, e das mais ordinárias: espaço, prestígio e sobrevivência.
Cirone Deiró, com a exclusão, optou em aceitar a pré-candidatura de
vice-governador na chapa liderada por Hildon Chaves, do UB.
CHUTE
A coluna arrisca: o anúncio abrupto da penúria financeira tem menos de
contabilidade e mais de recado. Um gesto de quem se viu fora da mesa onde se
decidiu o futuro - e resolveu bater na porta com estrondo.
CONSEQUÊNCIAS
Há, sim, um problema
real. Municípios não entram em colapso por capricho retórico. Mas a forma
escolhida por Tony Pablo para expor a situação foi, no mínimo, alarmante e
destemperada. Atirou para todos os lados - aliados, ex-aliados e governo estadual
- como se a política tolerasse esse tipo de fogo amigo sem consequências. Não
tolera.
CONVENIÊNCIA
E há um detalhe chato
que o prefeito parece querer empurrar para debaixo do tapete: ele não é um
estranho no orçamento que agora critica. Foi procurador na primeira gestão de
Fúria, vice na segunda, atravessou transições, assinou atos, acompanhou
números. Alegar surpresa agora soa menos como revelação e mais como
conveniência.
COBRANÇA
No fundo, o que emerge é um pedido de socorro mal formulado. Tony quer ajuda -
de quem estiver disposto a ouvir. Tem razão em buscar. Erra ao fazer disso um
espetáculo. Porque, no fim das contas, o eleitor não distingue herança de
responsabilidade. Cobra de quem está na cadeira. E ponto. Não há paciência
popular para tecnicalidades fiscais quando falta serviço básico na ponta.
NARRATIVA
Ao elevar o tom, o prefeito também elevou o risco. Seu discurso passou a ser
instrumentalizado por adversários de Fúria, que farejam fragilidade como
rotina. Pode até gerar desgaste momentâneo no ex-prefeito, mas a memória
política costuma ser mais generosa com quem entregou do que com quem reclama. A
oposição faz sua parte uma vez que a narrativa quem ofereceu foi o prefeito.
BRIGA
E há algo ainda mais
corrosivo em curso: a erosão da própria imagem. Política é percepção. E a
percepção que começa a se formar é a de um gestor que perdeu o controle da
oportunidade - e talvez do temperamento. Discussões em grupos de WhatsApp com
deputados não ajudam. Pelo contrário, expõem. O prefeito precisa evitar este
tipo de briga e se concentrar na gestão.
EQUILÍBRIO
Tony Pablo tem um
problema concreto e legítimo. Mas crise não se resolve no grito, tampouco na
improvisação. Exige articulação, discrição e método - três virtudes que, até
aqui, ficaram em segundo plano. Se a estratégia for transferir
responsabilidades até 2026, convém recalibrar. A conta política chega antes. E
chega alta. É uma pessoa correta e está assustado com as cobranças que agora
têm que encarar. Gestão pública é conflituosa mesmo e quem se propõe a ser
administrador público precisa de equilíbrio para encarar as demandas, que,
aliás, são enormes. O prefeito está sendo ingênuo na forma de resolvê-los.
ANTECEDENTES
Porque há uma regra
não escrita, mas rigorosamente aplicada: na dúvida, o eleitor pune quem está no
comando. Não o antecessor. Não o aliado. Não o inimigo conveniente da semana.
E, em Rondônia, a história recente já mostrou o destino de quem rompe pontes
antes de construir alternativas.
POSTURA
A política, como se
sabe, até perdoa erros. O que ela não esquece é a sensação de traição - ainda
que o protagonista jure, de pé junto, que não traiu ninguém. No fim, resta ao
prefeito uma escolha menos ruidosa e mais eficaz: governar. Tudo o mais é
ruído.
SOCORRO
Ainda assim, convém registrar: Tony Pablo, embora tenha optado por um pedido de
socorro politicamente ingênuo, precisa ser ajudado. Não por ele, mas por
Cacoal. Isto ainda não foi assimilado pelos aliados alvos dos desabafos.
SOBRIEDADE
A política tem dessas
obrigações morais que independem de lado, palanque ou conveniência - e a
população não pode pagar a conta de disputas paroquiais. Cabe ao prefeito
liderar esse processo de recuperação fiscal com alguma sobriedade: sem
caneladas, sem ameaças e, sobretudo, sem transformar crise em espetáculo.
PECHA
Não adiantará apontar
para que saiu, o povo cobre de quem entrou e compara um com o outro. Nesta
comparação os índices de aprovação de Adailton Fúria ao deixar a prefeitura
falam por si. Este é o motivo pelo qual os concorrentes tentam colar nele a
pecha de gestão perdulária. Quando a política desanda, todos perdem. Mas quem
paga primeiro - e sempre - é o cidadão.
GESTÃO
Não é todo político
que reúne os atributos de um bom gestor. Pode até ter boas ideias e propósitos
louváveis, mas governar - no sentido pleno - exige perseverança, visão
estratégica e capacidade de liderança. Em Rondônia, há exemplos eloquentes de
administradores que assumiram prefeituras em cenário de “terra arrasada” e
conseguiram reverter o quadro.
CEMITÉRIO
Em Porto Velho,
quando Hildon Chaves sucedeu Mauro Nazif, era recorrente na mídia a ideia de
que a prefeitura da capital havia se tornado um cemitério de prefeitos. A
cidade estava destroçada. Oito anos depois, sua gestão demonstrou que, com
planejamento, disciplina e gestão, é possível reconstruir um município e
entregar resultados consistentes.
EXEMPLO
O mesmo se viu em
Vilhena, onde o prefeito Delegado Flori colhe hoje os frutos de uma
administração marcada por decisões firmes e execução competente.
PRISÕES
Em Cacoal, Fúria
assumiu após duas gestões atravessadas por operações policiais que levaram à
prisão uma prefeita e diversos agentes públicos. Ainda assim, reorganizou a
máquina administrativa e foi reconduzido ao cargo com mais de 80% dos votos -
um sinal inequívoco de aprovação popular. Até um padre foi obrigado a sir
correndo do município em razão de supostos malfeitos.
PRUDÊNCIA
Diante disso, é
prudente que Tony Pablo contenha os ímpetos, administre melhor as crises e
demonstre, na prática, capacidade de governar. Caso contrário, corre o risco de
permanecer apenas no discurso - e, pior, isolado politicamente. Mas é preciso
que o governo e os políticos contribuam também para que a crise contábil do
município seja vencida. A gritaria estridente de Tony Pablo é um pedido e
socorro. Que seja ouvida e não distorcida.
COMBUSTÃO
A recusa ao nome de
Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal escancara menos um episódio
isolado e mais um sintoma estrutural: o de um Senado Federal em combustão
permanente e de um governo que já não dita o ritmo - reage.
LITURGIA
A derrota imposta ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem peso histórico. Não pelo nome em si,
mas pelo ritual quebrado. A liturgia antiga - Planalto chama, Congresso atende
- perdeu eficácia. O telefone já não resolve o que antes se resolvia no
cafezinho. O poder de coordenação política, outrora marca registrada, hoje
oscila ao sabor de cada rodada de pesquisa.
FRAGILIDADE
Há um país dividido e
uma eleição sem favorito claro no horizonte. Nesse ambiente, cada votação
relevante vira teste de força. E o governo, fragilizado, passou no teste
errado. A insistência em levar o nome ao plenário, apesar dos sinais de
resistência, transformou a desconfiança em derrota consumada.
FORÇA
Nos bastidores, a
leitura é pragmática: dificilmente outro indicado prospera até 2026 sem
pedigree do próprio Senado. A Casa, ao rejeitar, também reivindica o direito de
sugerir. É menos sobre veto e mais sobre autoria.
TROPEÇO
O impacto é
cumulativo. A cada pesquisa desfavorável, a margem de manobra encolhe; a cada
tropeço no Congresso, a percepção de autoridade se deteriora. No cenário
eleitoral, adversários como Flávio Bolsonaro ocupam o espaço simbólico deixado
por um Planalto em compasso de espera.
GRAVIDADE
Se os números
melhorarem, o governo pode recuperar parte da iniciativa e reequilibrar a
relação com o Congresso. Caso contrário, a tendência é de aprofundamento do
descompasso: um Executivo que insiste e perde, e um Legislativo que aprende
rápido onde está o novo centro de gravidade. Este é o pior momento para o
governo Lula.
PODCAST
Assistam hoje, no
podcast resenha política a entrevista de Massud Badra, Secretário Estadual da
Educação. Vale a pena conferir o que pensa o responsável estadual para melhorar
os índices escolares de Rondônia. Na próxima semana vão ao ar duas entrevistas
de pré-candidatas ao Senado, Sílvia Cristina pelo PP e Luciana Oliveira, pelo
PT.
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