Terça-feira, 24 de março de 2026 - 10h30

EFEITO
Há
políticos que falam para agradar. Outros, quando percebem o esgotamento do
jogo, passam a falar o que pensam. O senador Confúcio Moura (MDB) parece ter
migrado, com certa discrição, da primeira para a segunda categoria. Sem as
amarras de um ambiente intoxicado pela polarização e, sobretudo, pelo cálculo
eleitoral, Moura voltou a escrever com franqueza. Não se trata de rompante, mas
de método. Posições claras, por vezes incômodas, mantidas com a coerência de
quem já não mede cada palavra com régua de marqueteiro. O efeito é previsível.
Reações acerbas. Ainda assim, ele segue.
LIVRE
Em
Rondônia, onde o conservadorismo virou não apenas maioria, mas também régua
moral, tocar em certos temas é flertar com desgaste imediato. Moura sabe disso.
Sempre soube. O ponto é outro. Saber e, ainda assim, insistir. Esse tipo de
liberalidade, rara no MDB local, não costuma ser compatível com quem
está preocupado em renovar mandato.
SINAL
Há,
portanto, um sinal político embutido no comportamento. Quando um senador
experiente escolhe temas que geram rejeição em vez de evitá-los, o gesto fala
mais alto que qualquer declaração protocolar. Ou está apostando numa improvável
pedagogia do eleitor, ou já não está exatamente interessado em disputar o
próximo pleito.
RISCO
Nos bastidores,
a leitura é menos filosófica e mais direta. Moura tem demonstrado cansaço. Não
da política em si, mas do ambiente que a cerca. A escalada da agressividade, a
lógica binária que transforma divergência em inimizade e o risco físico que
passou a rondar a vida pública ajudam a compor esse quadro.
AVISOS
O episódio
de Cujubim é sintomático. Reduto histórico, onde sempre foi bem
votado, virou território evitado. Não por estratégia, mas por precaução. A
informação de que há grupos dispostos à hostilidade e até agressão não é
exatamente um convite à campanha. É, no máximo, um aviso. E avisos, na
política, raramente são ignorados por quem já não precisa provar mais nada.
RECADO
Se insistir
nesse tom, sem recalibrar discurso ou buscar zonas de conforto eleitoral, Moura
vai deixando um recado em aberto, porém cada vez mais legível. Talvez já tenha
entregado o que pretendia entregar. O resto, ao que tudo indica, não compensa o
custo.
AMPUTAÇÃO
Há projetos
que nascem para resolver problemas. Outros, como o do deputado Lúcio Mosquini,
parecem surgir com a missão inversa: apagar as luzes justamente onde a
fiscalização começa a enxergar melhor. A proposta de restringir o uso de
imagens de satélite no combate a crimes ambientais não é apenas tecnicamente
questionável - é politicamente reveladora. Em plena era em que o desmatamento é
monitorado em tempo real, a tentativa de amputar essa ferramenta soa menos como
preocupação com excessos e mais como zelo seletivo. Zelo com quem, exatamente?
LINHA
Não é
segredo nos bastidores que parte dos colaboradores de campanha do parlamentar
inclui produtores já autuados por infrações ambientais. Coincidência ou não, o
mandato segue uma linha: combater instrumentos de fiscalização e flexibilizar
normas. Uma atuação cirurgicamente alinhada aos interesses de quem prefere a
mata fora do radar.
EUFEMISMO
O argumento
de “excesso de fiscalização” virou o novo eufemismo para tolerância com
irregularidades. Ao mirar nos satélites, Mosquini não ataca uma tecnologia
-ataca a capacidade do Estado de agir com precisão. É a troca deliberada da
evidência pelo achismo, da prova pelo discurso. Como sua atuação é voltada
para este setor, não se preocupa com as críticas. Nem o Meio Ambiente.
RETROCESSO
Na prática,
o que se propõe é um retrocesso operacional: voltar a um modelo em que crimes
ambientais dependem de flagrante presencial, como se estivéssemos nos anos 80.
Um convite aberto à impunidade em regiões onde a logística já favorece quem
desmata e ocupa ilegalmente.
MONOTEMÁTICO
A atuação
do deputado na Câmara, aliás, não deixa margem para dúvida. Sua agenda
ambiental tem sido monotemática: reduzir controles, enfraquecer órgãos
fiscalizadores e relativizar danos aos biomas. Tudo embalado no discurso do
“progresso”, que, curiosamente, quase sempre coincide com os interesses de
grandes produtores e financiadores políticos.
BLEFE
No fim, o
projeto não trata de tecnologia, nem de soberania, nem de justiça. Trata de
prioridade. E a prioridade, ao que tudo indica, não é o meio ambiente - é quem
lucra quando ele deixa de ser protegido. Mosquini chegou a anunciar uma
suposta candidatura a governador que, conforme a coluna, não passou de um
blefe. Mas achou que a atuação junto ao Agro seria capaz de levá-lo a voos mais
altos. Ledo engano.
RECUO
A eleição
de 2026 começa a ganhar contornos de crônica anunciada. Não há ainda campanha,
mas já se delineia o enredo: poucos personagens, falas previsíveis e um
desfecho que ameaça chegar antes da hora. A retirada de Ratinho
Júnior da cena presidencial não altera apenas a lista de pré-candidatos -
expõe, com alguma crueza, o esvaziamento de uma alternativa que nunca chegou a
se firmar.
DENSIDADE
Sem o
paranaense na pista, a polarização entre Luiz Inácio Lula da
Silva e Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas provável e passa a ser
estrutural. Não por força dos dois, necessariamente, mas pela incapacidade dos
demais de ocupar o espaço intermediário com densidade eleitoral mínima.
ANTECIPANDO
A
matemática é simples, ainda que politicamente indigesta: para haver segundo
turno, alguém precisa romper a barreira simbólica de 5% a 6% dos votos válidos.
Sem isso, o eleitorado se comprime nos polos e antecipa a decisão. É menos
democracia vibrante e mais plebiscito disfarçado.
IRRELEVANTE
Nesse
contexto, o nome de Eduardo Leite surge como peça decorativa de um
jogo que exige protagonismo. Seu capital político, até aqui, não demonstra
musculatura nacional para segurar esse percentual crítico. Pode até pontuar,
mas dificilmente altera o roteiro. E eleição presidencial não perdoa
candidaturas que entram apenas para “marcar posição”: elas acabam marcadas pela
irrelevância.
EMPURRANDO
Sobra então
Ronaldo Caiado como variável incômoda. Não exatamente por empolgar massas,
mas por reunir um ativo raro neste ciclo: capacidade de dialogar com segmentos
conservadores fora do eixo bolsonarista puro e pelo fato de antagonizar com o
lulismo desde 1989, quando disputaram a presidência. Se ficar no jogo, pode ser
o responsável por empurrar a disputa ao segundo turno - não por força própria,
mas por drenagem suficiente para evitar o desfecho antecipado.
ALTERNATIVA
Se, porém,
Caiado também recuar, o roteiro encurta de vez. A eleição deixa de ser uma
construção e vira uma formalidade. Lula e Flávio avançam como finalistas já no
primeiro ato, com o eleitor reduzido a escolher cedo demais entre dois projetos
que se alimentam da ausência de alternativas viáveis.
LUXO
No fim, o
que está em jogo não é apenas quem vence, mas se haverá, de fato, disputa.
Porque, sem terceira via competitiva, o segundo turno vira quase um detalhe
burocrático - ou pior, um luxo desnecessário.
VISITA
Em
Rondônia, a liturgia do cargo de vice virou peça de ficção, daquelas mal
escritas e mal ensaiadas. A mais recente encenação vem de Cacoal, onde o
pré-candidato ao governo Hildon Chaves (UB) fez uma visita nada
protocolar ao vice-prefeito Tony Pablo, acompanhado do deputado estadual Cirone
Deiro.
EGOS
O encontro,
devidamente embalado para redes sociais, serviu menos para projetar alianças e
mais para escancarar fissuras. Tony Pablo, ainda à sombra do titular Adailton
Fúria, também pré-candidato ao governo, deixou evidente que a convivência
interna é bem menos cordial do que sugerem os sorrisos oficiais. Nos
bastidores, a relação entre prefeito e vice é marcada por disputas de ego; em
público, seguem o script das amenidades.
BELIGERANTE
Mas o
roteiro falhou. Ao receber um adversário direto do seu prefeito, Tony antecipou
um cenário de confronto assim que Fúria deixar o cargo para disputar o Palácio.
Ainda não empossado como titular, o vice já se comporta como ator independente
e, ao que tudo indica, disposto a reescrever o enredo sem consultar o antigo
parceiro.
CÁLCULO
A reação
foi de deboche. Tony Pablo foi às redes para dizer que não deve nada a ninguém
e que faz o que bem entender politicamente. De quebra, expôs o prefeito ao
relembrar seu passado fora da política, numa crítica disfarçada de memória. Não
é rompimento. É provocação aberta e calculada. Uma forma que Tony busca
para tentar se firmar num mundo que o voto é quem revela a liderança.
MALDIÇÃO
O episódio
não é isolado; é sintoma. Em Rondônia, o cargo de vice se tornou uma incubadora
de crises. Foi assim quando Aparício Carvalho tensionava o governo
de Valdir Raupp. Repetiu-se com Odaisa Fernandes e Ivo Cassol,
numa convivência tão desgastada que descambou para constrangimentos públicos.
ENREDO
Na capital,
o próprio Hildon Chaves experimentou o amargo do vice insurgente no
primeiro mandato, ao lado de Edgar do Boi. Mais recentemente, Magna dos
Anjos rompeu com Léo Moraes antes mesmo de qualquer teste de lealdade
mais exigente. E no topo da hierarquia estadual, o enredo se repete
com Marcos Rocha e seu vice, Sérgio Gonçalves, cuja relação virou
sinônimo de desconfiança política.
FRACASSO
A constante
é clara. O cargo de vice, pensado como complemento, virou ponto de tensão
permanente. Sem densidade eleitoral comparável à do titular, muitos vices
compensam com ambição precoce e movimentos que frequentemente descambam para a
ruptura. Quanto tentam carreira política solo todos eles fracassam.
RECADO
Cacoal
apenas atualiza essa tradição. Tony Pablo ainda nem assumiu o comando do
município, mas já sinaliza que governará com agenda própria ou contra quem for
necessário. Para Adailton Fúria, o recado está dado. A transição, se vier, não
será pacífica. No fim, Rondônia consolida uma peculiaridade política. Por aqui,
o maior adversário de um titular pode não estar na oposição, mas sentado na
cadeira ao lado.
REPERCUSSÃO
Na liturgia
básica da política, prefeito que se preza conversa com todo mundo. Receber adversários,
aliados ou aspirantes a alguma coisa faz parte do ofício - não é escândalo, é
agenda. Sob esse prisma, o encontro entre o vice-prefeito de Cacoal, Tony
Pablo, e o pré-candidato ao governo Hildon Chaves não deveria render mais do
que uma nota de rodapé. Buscar pontes é, ou deveria ser, obrigação de quem
administra. O ruído não nasceu da reunião, mas da reação.
ÍMPETO
Ao ser
confrontado por jornalistas sobre a possível leitura de “traição” ao prefeito
Fúria, Tony preferiu trocar a cautela pelo ímpeto. Em vez de esfriar o assunto,
jogou gasolina. Disse-se livre para apoiar quem quiser - o que, em tese, é
óbvio. Mas na política, o óbvio dito na hora errada vira recado.
LIMITAÇÃO
E foi
justamente o timing que transformou o episódio trivial em crise desnecessária.
Tony ainda não ocupa a cadeira principal, não carrega a caneta nem o peso
formal do cargo. Enquanto a renúncia de Fúria não for consumada, segue vice -
com todas as limitações institucionais que o cargo impõe, por mais que a
retórica tente antecipar uma autoridade que ainda não existe.
PROTOCOLO
Ao cutucar
o aliado antes da hora, Tony errou menos no conteúdo e mais na encenação. Criou
um problema onde havia apenas protocolo. Na política, não basta estar certo - é
preciso saber quando parecer certo.
LASTRO
Há também
um traço de personalidade que ajuda a entender o tropeço. Tony Pablo é vaidoso,
construiu liderança respeitável no meio jurídico de Cacoal, mas na arena
partidária sempre orbitou como coadjuvante. Nunca conseguiu, de fato, reunir
musculatura para um voo solo consistente. E talvez aí esteja a explicação:
política não funciona como assembleia de classe. Ali, deslize vira sentença.
Quem se antecipa sem lastro costuma pagar a conta.
EXAGERO
Desta vez,
não foi só um passo em falso - foi um salto no escuro. Tony não apenas meteu os
pés pelas mãos, exagerou na dose e expôs uma ansiedade que a política costuma
punir com frieza. Esqueceu que o tabuleiro tem mais peças do que sua vontade.
DESMONTE
E há um
detalhe nada desprezível: na hipótese de Fúria não seguir no jogo, existe
alternativa. O deputado estadual Cássio Góis surge como nome viável e, no
confronto direto, pode impor dificuldades reais no futuro próximo. No mano a
mano, Tony corre o risco de descobrir que capital político não se presume - se
mede. E, quando mal calibrado, desmonta rápido, levando junto a pose e a
pretensa autoridade. Tony Pablo é de fato uma pessoa boa, firme e repete
exaustivamente que não vive de política. E é verdade, o que esconde é o ego. Há
quem garanta que ele e Fúria vivem as turras e se acertam na mesma medida que
brigaram. A ver.
LOROTA
Não passa
de especulação pré-eleitoral a indicação do empresário Márcio Barreto para uma
composição de chapa com a pré-candidato a governador Marcos Rogério. O empresário
vem a ser o tio do prefeito da capital, Léo Moraes. O acordo sequer foi posto
em discussão, embora o empresário possua as qualidades para compor uma chapa
majoritária ao Governo de Rondônia. Em contato com a coluna o prefeito adiantou
que a princípio o PODEMOS tem candidatura própria a governador.
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