Terça-feira, 31 de março de 2026 - 10h15

GESTO
Na política rondoniense, onde gestos valem tanto quanto discursos, o
movimento do prefeito de Vilhena, delegado Flori, deixa de ser uma decisão
isolada e passa a ter efeito prático na reorganização das forças que disputam o
governo.
MÁGOAS
Flori oficializou adesão à pré-candidatura de Marcos
Rogério (PL), encerrando uma tentativa breve, e internamente tensionada,
de viabilizar o próprio nome ao Palácio Rio Madeira. Filiado ao Podemos, ele
ensaiou entrar na disputa, mas esbarrou em um problema recorrente: excesso de
candidatos e falta de paciência para construir a postulação nas hostes
partidárias. A entrada do deputado estadual delegado Camargo na mesma corrida
incomodou Flori que esperava a indicação sem concorrência, razão pela qual
recuou. Restaram mágoas.
DESISTÊNCIA
Sem convergência interna, a pré-candidatura perdeu tração. Flori buscava
mais que uma autorização formal; queria respaldo político claro, especialmente
do prefeito de Porto Velho, Léo Moraes. Embora citado publicamente pelo
prefeito da capital como opção viável dentro da legenda em diversas ocasiões, o
apoio imposto não veio no tempo por ele esperado. Na prática, esperava o gesto
final que transformaria intenção em candidatura competitiva. Diante disso, a
desistência tornou-se o caminho e a opção em permanecer na prefeitura.
SIMBOLISMO
A permanência na Prefeitura de Vilhena veio acompanhada de um movimento
mais amplo e calculado. Flori não apenas declarou apoio a Marcos Rogério (PL) -
organizou uma frente regional. Reuniu os prefeitos do Cone Sul e apresentou uma
adesão coletiva, conferindo ao ato um peso político que vai além do
simbolismo. Foi uma forma de dar o troco e demonstrar poder.
REFORÇO
Esse tipo de articulação tem valor concreto. Prefeitos mobilizados
significam estrutura local, influência eleitoral e capacidade de capilarizar
uma campanha. Ao agregar esse bloco, Marcos Rogério passa a contar com um ativo
relevante antes mesmo do início formal da disputa. Embora o eleitor nem
sempre vota em candidato a governador em razão da adesão do prefeito. O próprio
Marcos Rogério, nas eleições passadas, sem o apoio dos prefeitos, quase vence
Marcos Rocha que contava com todas as máquinas disponíveis a sua campanha. No
entanto, todos reforços são bons a qualquer campanha.
VÍDEO
O anúncio ganhou contorno estratégico ao ser exibido no podcast Resenha
Política. Durante a entrevista, o próprio Marcos Rogério apresentou, com
exclusividade, o vídeo em que Flori e os prefeitos do Cone Sul formalizam o
apoio. Não é apenas divulgação - é construção de narrativa, com imagem de
alinhamento regional em torno de uma candidatura.
INFLUÊNCIA
Ainda é cedo para leituras definitivas. O cenário permanece aberto e
sujeito a rearranjos. Mas movimentos dessa natureza ajudam a delimitar posições
e antecipar tendências. Ao recuar da disputa majoritária e assumir o papel de
articulador, Flori reposiciona seu peso político. Em vez de dividir espaço,
opta por influenciar o desenho da corrida.
IMPOSIÇÃO
A tentativa de atribuir ao prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, a
responsabilidade pelo esvaziamento da pré-candidatura do delegado Flori não se
sustenta quando confrontada com os fatos - e, sobretudo, com a lógica mínima de
funcionamento partidário. Uma candidatura a governador não depende apenas
do apoio é preciso que o candidato corra risco e a viabilize por ser uma boa
opção. E não uma imposição partidária.
ESCOLHA
Desde o início, Léo jamais interditou o nome de Flori. Ao contrário,
sempre o incluiu no rol de opções do Podemos para a disputa ao governo. O que
não fez - e nem poderia - foi antecipar uma decisão que não lhe cabia tomar de
forma isolada. Na condição de presidente da legenda, sua posição pública foi a
única institucionalmente aceitável: o candidato será aquele que o partido
definir.
EXCLUSIVIDADE
O problema não está na ausência de apoio, mas na expectativa de
exclusividade. Quando o deputado estadual delegado Camargo também se colocou
como pré-candidato, o cenário deixou de ser individual e passou a exigir
mediação política. Em situações assim, o dirigente partidário não chancela
nomes por preferência pessoal; preserva o processo. É o básico.
EQUILÍBRIO
Flori, ao que tudo indica, interpretou essa postura como hesitação ou
falta de respaldo. Não é. Trata-se de regra elementar de convivência interna:
havendo mais de um interessado, a decisão precisa ser coletiva. Ao buscar um
aval público antecipado, ele tensionou um ambiente que exigia exatamente o
oposto - equilíbrio.
VETO
Sem a sinalização desejada, recuou. E ao recuar, abriu espaço para leituras
apressadas que tentam transferir responsabilidade. Mas o ponto central
permanece: não houve veto, houve procedimento. E procedimento, na política
partidária, costuma ser menos vistoso, porém mais consistente.
CÁLCULO
A sequência dos fatos reforça essa interpretação. Flori não apenas
desistiu da pré-candidatura como migrou politicamente para o campo
de Marcos Rogério (PL), articulando, inclusive, o apoio coletivo de
prefeitos do Cone Sul. Um movimento legítimo, mas que evidencia que a decisão
já não passava apenas pela dinâmica interna do Podemos, e sim por cálculo
político mais amplo.
CONSTRUÇÃO
No fim, o episódio expõe mais um desencontro de expectativas do que
propriamente uma ruptura. Léo manteve a institucionalidade. Flori, ao que
parece, não assimilou que, em ambiente democrático, candidatura não se declara
por aclamação - se constrói por consenso ou disputa interna. Um exemplo
ilustrativo foi Expedito Neto quando se colocou como pré-candidato a governador
pelo PT. Insistiu, buscou apoios externos e depois internos. Mesmo não tendo
nada a ver com os dogmas petistas, conseguiu se viabilizar e foi quase aclamado
como pré-candidato de uma legenda que em Rondônia sofre uma enorme rejeição
pelos erros cometidos pelo PT.
PRAGMATISMO
A decisão do Partido
dos Trabalhadores em Rondônia de lançar Expedito Neto como
pré-candidato ao governo estadual sintetiza, de forma quase didática, o
pragmatismo que tem orientado a legenda em cenários adversos. Em um estado onde
a maioria do eleitorado se identifica com pautas conservadoras, a escolha não é
apenas eleitoral, mas estratégica.
DELÍRIO
Não é a primeira vez que o PT rondoniense recorre a nomes sem identidade
histórica com os dogmas partidários. A diferença, agora, está na clareza com
que as circunstâncias se impuseram. Há um ano, a simples hipótese de Expedito
Neto vestir a camisa petista seria tratada como delírio político. Hoje,
tornou-se realidade - não por convicção ideológica, mas por conveniência.
PAPEL
O dado central é incômodo para a militância tradicional: nenhum quadro
orgânico do partido aceitou enfrentar uma disputa majoritária em território
hostil. Diante desse vazio, abriu-se espaço para uma candidatura de
conveniência. Neto, recém-saído de um processo de esvaziamento político após
perder protagonismo no Partido Social Democrático, encontrou no PT uma via de
retorno ao jogo eleitoral. E o PT, por sua vez, encontrou nele alguém disposto
a cumprir o papel que seus próprios quadros recusaram.
CARA
Os adversários que se
preparem porque Neto é ousado, agressivo e capaz de colocar qualquer um em
situação constrangedora num debate público. Tem a cara do PT, o jeito e a
agressividade, mas não é do petista.
ALTERNATIVA
O que poderia gerar resistência interna acabou sendo assimilado com
relativa naturalidade. Isso revela não apenas a capacidade de adaptação do
partido, mas também o grau de fragmentação interna de suas instâncias
colegiadas, historicamente marcadas por disputas e conflitos. Sem outra
alternativa viável, a candidatura de Expedito Neto foi sendo construída de fora
para dentro, até se consolidar.
CONTEXTO
Há, contudo, um elemento que não pode ser ignorado: trata-se de uma
candidatura funcional, não identitária. O objetivo central do partido em
Rondônia não é necessariamente vencer o governo estadual, mas fortalecer sua
nominata e ampliar as chances de eleger um deputado federal. Nesse contexto, a
escolha de um nome com maior capacidade de trânsito político, ainda que
ideologicamente flexível, passa a fazer sentido.
INFLEXÃO
O histórico reforça esse padrão. O PT já recorreu outras vezes a
candidaturas desalinhadas com seu programa, priorizando resultados práticos em
detrimento da coerência doutrinária. São movimentos que evidenciam uma inflexão
estratégica: menos militância, mais sobrevivência eleitoral. Expedito Neto, por
sua vez, assume o papel com habilidade. Mesmo não sendo um quadro de esquerda
gestado nas entranhas ideológicas.
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