Quinta-feira, 7 de maio de 2026 - 15h09

TOM
A pré-campanha ao governo de Rondônia
começou quente e já revela o tom agressivo que deverá marcar a disputa de 2026
entre Adailton Fúria e Marcos Rogério. Antes mesmo do período eleitoral,
os primeiros movimentos mostram que o debate deverá girar menos em torno de
propostas e mais sobre desgaste político acumulado. E, neste aspecto, o pedágio
da BR-364 transformou-se no principal flanco da bancada federal rondoniense.
EFEITO
Com habilidade de comunicação e senso
de oportunidade, Fúria encontrou uma forma simples, bem-humorada e extremamente
simbólica de atingir o adversário: a pequena motocicleta utilizada em suas
aparições públicas. A miniatura, aparentemente ingênua, carrega uma crítica
política poderosa ao associar o senador ao tema mais explosivo do estado
atualmente - as tarifas consideradas abusivas da concessão da BR-364. A
estratégia tem potencial para virar a vedete da campanha justamente pela
sutileza. Em política, quando o humor encontra um sentimento coletivo de
indignação, o efeito costuma ser devastador. Embora Marcos Rogério tenha
procurado conter os eventuais danos e feito uma pressão forte junto a ANTT para
mitigar as tarifas.
INÉCIA
O problema para a bancada federal é que
o desgaste não nasceu agora. O debate sobre a concessão da BR-364 tramitou
durante anos em Brasília. Audiências públicas, estudos técnicos, modelagens
econômicas e discussões regulatórias ocorreram sem que os representantes de
Rondônia percebessem que o tema se transformaria em uma bomba eleitoral de
alto poder destrutivo. A classe política local simplesmente assistiu inerte ao
processo caminhar dentro da burocracia federal sem mobilização proporcional à
gravidade do assunto.
PREJUÍZO
E o mais grave: havia instrumentos
legislativos e políticos capazes de tensionar a discussão antes da implantação
definitiva do modelo. A bancada poderia ter acompanhado mais de perto a
modulação tarifária, cobrado mudanças, pressionado ministérios, provocado
debates nacionais e alertado a população sobre os impactos futuros da
concessão. Mas prevaleceu o silêncio conveniente. Agora, depois da reação
negativa do eleitorado, tenta-se correr atrás do prejuízo. O problema é que o
evento virou uma espécie de palanque contra o governo e sabe que em Rondônia a
rejeição é alta.
MITIGAR
A tentativa de trazer a Agência
Nacional de Transportes Terrestres para debater tarifas já implantadas soa
muito mais como ação para mitigar desgaste político do que propriamente solução
concreta. Questionar o formato da concessão depois das praças em funcionamento
é discutir a porta arrombada após o assalto consumado. Os defeitos do contrato
não surgiram da noite para o dia. Apenas não foram percebidos - ou ignorados -
enquanto o tema ainda parecia distante da realidade do eleitor.
DESCONEXÃO
A verdade inconveniente é que a bancada
federal levou uma monumental “bola nas costas”. E isso talvez explique o
nervosismo antecipado da pré-campanha. Porque o pedágio deixou de ser apenas um
debate técnico sobre infraestrutura. Tornou-se símbolo da desconexão entre
Brasília e a realidade de um estado que depende da BR-364 para praticamente
tudo: transporte de alimentos, combustível, produção agrícola e circulação de
pessoas.
INDIFERENÇA
Outro nome forte nesse cenário é o ex-prefeito
da capital Hildon Chaves. Nos último- dias, adversários passaram a criticá-lo
por ter viajado a Miami para visitar o neto, acusando-o de “abandonar” a
pré-campanha. A crítica, entretanto, parece mais ansiedade política do que
análise concreta do cenário. Até o momento, não há números pesquisados que
indiquem qualquer prejuízo eleitoral pela ausência temporária de Hildon em
Rondônia. A eleição de fato começa após as convenções. A pré-eleição é
algo novo e as pesquisas revelam que o grosso do eleitor não está nem ai ainda
para as eleições.
AGOSTO
Até porque a campanha propriamente dita
ainda está distante. Fora do calendário oficial, o que existe hoje é uma
sucessão de manchetes, vídeos, recortes para redes sociais disputas
narrativas que pouco ou nada interferem efetivamente na decisão do eleitor. A
eleição começa mesmo quando o cidadão passa a comparar propostas, alianças e
capacidade administrativa - algo que só ganha corpo mais próximo de agosto do
próximo ano.
LINGUIÇA
Até lá, salvo uma gafe absurda que
destrua a honorabilidade de algum pré-candidato ou um comportamento
frontalmente ofensivo ao povo rondoniense, o restante é apenas barulho
político. Ou, como diria o velho linguajar popular, muita linguiça sendo
enchida. Deve estar sobrando grana porque equipes estão sendo arregimentadas.
ESQUERDA
Pelo campo da esquerda, Expedito Netto
reaparece como nome ligado ao Partido dos Trabalhadores e parece
satisfeito apenas por voltar à ribalta política após dois mandatos
parlamentares e uma derrota à Câmara Federal quando orbitava a direita. Expedito
mantém um discurso ideológico firme, por vezes raivoso, bastante alinhado ao
petismo mais radicalizado. Tem conseguido espaço no debate público justamente
por vocalizar pautas que outros setores evitam enfrentar. Samuel Costa continua
com a estratégia de sempre: atira para todos os lados e continua falando
sozinho.
LIMITE
O problema é que existe um limite
natural para a penetração eleitoral desse discurso em um estado historicamente
conservador e majoritariamente antipetista como Rondônia. Ainda assim, sua presença
na disputa tende a influenciar o ambiente político, especialmente no embate
ideológico e na fragmentação narrativa entre direita, centro e esquerda.
CANCELAS
Enquanto isso, a população observa. E
cada vez mais irritada com uma classe política que parece ter descoberto tarde
demais que o maior cabo eleitoral negativo de 2026 talvez não seja um
adversário, mas as cancelas instaladas ao longo da BR-364.
COLUNA
A repercussão da última coluna que
abordou a não vitaliciedade do juiz Robson José Santos revelou uma
inquietação que vai muito além do destino funcional de um magistrado. Trouxe à
tona um debate desconfortável sobre o sistema penal brasileiro, o perfil
conservador da magistratura e, sobretudo, os contornos do racismo estrutural
ainda impregnado nas instituições.
IMPUTAÇÃO
O jurista Luigi Ferrajoli ensina
que “o grau de civilização de uma sociedade se mede pelas condições de suas
prisões”. Já Eugenio Raúl Zaffaroni sustenta que o sistema penal
latino-americano opera seletivamente contra pobres e negros, convertendo o
cárcere em depósito humano.
SISTEMA
A leitura dos autos permite
enxergar exatamente essa tensão: de um lado, uma cultura judicial que ainda vê
a prisão como masmorra de castigo; de outro, um magistrado que aparentemente
decidiu tratar presos como seres humanos.
ACHISMO
Chamou atenção um depoimento de uma
jovem de São Francisco do Guaporé. Ao ser questionada sobre eventual ligação do
magistrado com facções, afirmou que “algumas pessoas de São Francisco do
Guaporé achavam” que ele teria sido preparado por organizações criminosas desde
a universidade para servir às facções. Veja-se o peso da construção social
contida no verbo achar. Não havia prova de favorecimento ilícito, sentença
suspeita ou atuação judicial em benefício do crime organizado.
RACISMO
Havia, sim, a imagem de um juiz negro,
sem os modos aristocráticos da magistratura medieval, circulando em presídios e
tratando presos com humanidade. Em uma sociedade profundamente conservadora,
isso bastou para produzir suspeição.
PARADIGMAS
O filósofo Michel Foucault já
advertia que o sistema penal moderno não busca apenas punir crimes, mas
disciplinar comportamentos e controlar corpos considerados desviantes. Talvez
por isso a quebra de paradigmas cause tamanho desconforto. O problema não é apenas
o que o magistrado fazia, mas quem fazia. Não é usual ver igual rigor
disciplinar contra magistrados alinhados ao padrão tradicional de poder.
AFRONTA
Outro episódio emblemático foi a
interpretação dada a uma frase de humor dita pelo juiz após esquecer o pregão
de audiência: “vamos fazer porque o oficial puxou a orelha do juiz”. Embora o
próprio oficial não tenha se sentido ofendido, houve quem enxergasse quebra de
hierarquia. Um ambiente excessivamente formalista costuma confundir leveza com
afronta e humanidade com fraqueza institucional.
FIADOR
Também chama atenção o fato de todas as
subseções regionais da Ordem dos Advogados do Brasil consultadas atestarem
que o magistrado sempre manteve relação respeitosa com a advocacia e jamais
protagonizou abusos de prerrogativas - algo infelizmente comum no Judiciário
brasileiro. Em Rondônia há inúmeros desagravos públicos contra juízes. Nenhum
envolvendo Robson José Santos.
SUBJETIVIDADE
Não se afirma aqui que magistrados
estejam acima da fiscalização disciplinar. Mas é inevitável questionar se a
sanção extrema aplicada não carregou elementos subjetivos incompatíveis com a
temperança que o Direito exige. Como advertia Francesco Carnelutti, “o juiz é
mais homem do que juiz”. E talvez tenha sido justamente o excesso de humanidade
daquele magistrado que parte do sistema não conseguiu tolerar.
NÃOS
É verdade que algumas condutas
imputadas ao ex-magistrado merecessem, sim, reprimenda. Não se fecha os olhos
para essa premissa. O problema surge quando a sanção excessiva, sob uma
perspectiva humanista, parece carregar em sua raiz aspectos que podem - e devem
- ser questionados, sobretudo quando o conjunto da obra investigada recai sobre
alguém oriundo do “andar de baixo”, que desde cedo aprendeu a conviver com os
sucessivos “nãos” impostos por uma sociedade estruturalmente preconceituosa.
INTERNO
O não à vitaliciedade é uma questão
interna corporis do Tribunal de Justiça de Rondônia. Entretanto, os fatos que
fundamentaram a decisão exigem debate mais profundo sobre racismo estrutural,
seletividade institucional e os limites entre disciplina funcional e
intolerância à quebra de paradigmas.
REFLEXÃO
O Tribunal pode - e deve - exigir rigor
ético e equilíbrio de seus membros. Não é disso que se trata esta reflexão. O
ponto central é outro: até que ponto a estrutura judicial brasileira está
preparada para conviver com magistrados que desafiem o modelo tradicional,
aristocrático e distante que historicamente moldou o Poder Judiciário?
CEGA
Porque, no fundo, talvez o desconforto
maior não tenha sido o comportamento do juiz, mas a figura de um magistrado
negro, sem a liturgia fria da magistratura medieval, tratando presos como seres
humanos e recusando-se a enxergar o cárcere apenas como espaço de vingança
social. Lerei as mais e de duas mil páginas e assistirei todos os vídeos,
inclusive da votação.
VOZ
Nosso podcast Resenha Política gravou
uma entrevista exclusiva com o ex-juiz Robson José Santos sobre os fatos
que culminaram em sua não vitaliciedade. A íntegra será exibida na próxima
semana.
CONVITE
Dois candidatos a governador e três ao
Senado convidaram este cabeça chata para trabalhar em suas campanhas. Nosso
projeto continua sendo o podcast e fica complicado manter um veículo quem tem
se sobressaído pelo seu profissionalismo e isenção jornalística aceitando
ligação com algum candidato. Embora o não ainda não tenha sido dada como
respeitosa resposta aos interlocutores das campanhas, é quase que natural uma
resposta declinando aos convites.
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