Sábado, 18 de abril de 2026 - 10h56

No ambiente escolar,
seja no ensino fundamental, médio ou no contexto acadêmico universitário, a
compreensão de fenômenos complexos, como os da biologia, pode ser mediada pela
chamada transposição didática (CHEVALLARD, 1985)[1].
Esse processo consiste em partir de conceitos mais simples e, a partir deles,
construir uma lógica que permita a compreensão de ideias mais complexas e
amplas, sendo uma estratégia de aproximação dos conteúdos de forma mais
palpável, mas sem eliminar sua complexidade e relevância.
A mutação, por
exemplo, pode ser compreendida como alterações no material genético. Um aspecto
relevante é que tais alterações não possuem direção pré-estabelecida, podendo
resultar em características benéficas, neutras ou prejudiciais ao organismo.
Isso evidencia que não há uma finalidade nas mutações, rompendo com a ideia
popular de que a evolução ocorre de forma linear e necessariamente progressiva.
Assim, as transformações biológicas não estão intrinsecamente associadas à
melhoria.
A partir disso, é
possível compreender esse processo evolutivo como o resultado do acúmulo de
mutações ao longo do tempo, mediado pela seleção natural. Trata-se de um
processo contingente, isto é, dependente das condições ambientais e das
pressões seletivas, e não de uma trajetória orientada a um fim; logo, não há
uma finalidade para isso. Nesse sentido, a evolução expressa transformação, e
não aperfeiçoamento contínuo.
Além do conceito
evolutivo, é possível analisar também a denominada Teoria da Endossimbiose
(MARGULIS, 1970)[2], ao
propor que em um determinado momento da história evolutiva, uma célula
eucariótica realizou a fagocitose de uma célula procarionte de vida livre.
Porém, em vez de ocorrer a digestão, estabeleceu-se uma relação simbiótica
entre ambas, originando organelas especializadas, como as mitocôndrias,
frequentemente chamadas de “usinas de energia” da célula, devido à sua função e
associação.
Enquanto a célula
hospedeira passou a dispor de maior eficiência metabólica, a célula fagocitada
encontrou proteção e estabilidade, ou seja, algo que poderia configurar um
processo de destruição converteu-se em cooperação entre ambas as células.
A distinção entre
fagocitose e simbiose evidencia dois modos distintos de relação. Enquanto a
fagocitose pode representar um processo potencialmente destrutivo para o
organismo englobado, a simbiose baseia-se na coexistência com benefício mútuo.
Essa diferenciação permite a construção de uma analogia com as relações
sociais. A cooperação entre indivíduos, fundamentada em um espírito de
comunidade, pode ser associada à simbiose, marcada pela interdependência e pelo
benefício recíproco.
Por outro lado, a
fagocitose pode ser compreendida como metáfora de relações sociais marcadas por
violência, dominação e exploração, nas quais uma das partes é subjugada
enquanto outra exerce poder, como observado nas dinâmicas de classe e em
processos históricos atravessados por desigualdades sociais, inclusive de
caráter racial. Nesse sentido, a sociedade, especialmente sob determinadas
formas de organização econômica, como a capitalista, pode ser interpretada como
um campo de tensões entre cooperação e apropriação.
Nesse contexto,
emerge a noção de transmutação social, compreendida como o processo pelo qual
valores, práticas e significados são apropriados, deslocados e ressignificados
ao longo do tempo. Tais transformações não são neutras, pois estão atravessadas
por relações de poder. Um exemplo significativo é a incorporação de elementos
da contracultura, como o artesanato associado ao movimento hippie, pela lógica
de mercado, transformando práticas originalmente contestatórias em produtos de
consumo massificado (indústria da bijuteria).
De modo semelhante,
disputas interpretativas em torno da Constituição Federal de 1988 evidenciam
como princípios jurídicos podem ser tensionados e, em determinados contextos,
reconfigurados em sua aplicação, revelando processos de apropriação e distorções
dos sentidos originais.
O significado das
“revoluções sociais” também pode ser retomado nesse contexto, como ilustração
histórica e pedagógica. Revolução é pulsão, paixão, e, ainda que seja emoção e
razão, não é institucionalização. Pode e deve criar instituições e
institucionalidades, e destruir outras, mas é claro que uma ideia não pode ser
retida, confinada, numa instituição. Nem o gênio, liberto, poderá ser colocado
de volta na garrafa.
Revoluções sociais
são mutações, transformações profundas, mas, podem ocorrer desvios,
"cristalizações", que desvirtuam o sentido original. Como vimos
na Revolução Mexicana, depois, transmutada num processo de apropriação que
durou 70 anos, sob o domínio do PRI (Partido Revolucionário Institucional).
A racionalidade que
havia na luta popular por Justiça Social se transmutou em "racionalização
Institucional" (os ideais de liberdade e justiça foram cristalizados em
domínio burocrático). Da liberdade à burocracia, da justiça à cristalização do
poder.
Contudo, é
fundamental reconhecer os limites dessa analogia entre biologia e ciências
sociais. Na biologia, embora mutações possam resultar em perda de adaptação ou
redução da viabilidade, não há um retorno a estados anteriores, não sendo
adequado falar em “involução”. Já nas ciências sociais, processos históricos
podem ser interpretados como regressões, especialmente quando envolvem perda de
direitos ou consolidação de regimes autoritários. As consequências da Primavera
Árabe evidenciam essa complexidade, na medida em que movimentos inicialmente
associados à transformação social foram, em alguns contextos, seguidos por
cenários de instabilidade ou recrudescimento político (“revoluções coloridas”,
como no Brasil do Golpe de 2016).
De forma ainda mais
extrema, eventos como o Genocídio Armênio demonstram como processos sociais
podem culminar em violência sistemática e extermínio, reforçando-se que,
diferentemente da biologia, as transformações históricas não garantem progresso
e podem assumir formas profundamente destrutivas. Até os dias atuais, a memória
desse genocídio permanece viva e é expressa em produções artísticas, como nas
obras de Serj Tankian, vocalista da banda System of a Down, que contribuem para sua denúncia
e problematização.
Desse modo, ao
articular conceitos biológicos como mutação, evolução, simbiose e fagocitose
com interpretações sociais, evidencia-se que os processos de transformação,
tanto biológicos quanto sociais, não são intrinsecamente positivos ou
progressivos. Pelo contrário, podem assumir diferentes direções, variando entre
cooperação e dominação. Reconhecer essa complexidade implica não apenas
compreender os fenômenos, mas também problematizar as relações de poder que os
atravessam, sem perder de vista os limites entre os diferentes campos do
conhecimento.
Esse texto expressa
uma modesta contribuição ao debate acerca da complexidade na produção,
pesquisa, divulgação científica. Em termos mais técnicos, ainda sinaliza para a
continuidade da relação, associação, entre Pensamento Científico e Pensamento
Sociológico – como contribuição prática de um processo de simbiose entre duas
áreas distintas do conhecimento.
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