Domingo, 12 de abril de 2026 - 09h00

Veremos que não existe esquerda da boca pra
fora.
Cabem
umas poucas explicações: a parte central do texto já foi empregada em outro
momento, com outros objetivos, mas sempre é bem vinda na explicação de um
fenômeno – infelizmente, sempre atual.
Também
é preciso dizer que a expressão “analfabetização” não existe formalmente (é até
contrária à lógica), mas aqui é empregada como figura de linguagem; não é
conceito sociológico e nem condição pedagógica.
Porém,
a “analfabetização” insiste em ser (reaparecer) como fenômeno social e
político: à direta se chama negacionismo (de tudo o que for racional e
razoável), já, à esquerda, corresponde (essa é só uma faceta) à aceitação de
apenas uma parcela do Processo Civilizatório – leia-se cultura, educação,
civilidade, conhecimento, Pensamento científico –, enquanto faz escárnio de outras
parcelas obrigatórias (pela epistemologia básica) da visão de mundo que seria
corresponde à esquerda.
Em
contextos semelhantes, tais perfis põem em prática o machismo doméstico – que
beira à misoginia –, apregoam o antissemitismo (a guerra com o Irã é apenas uma
desculpa), tanto quanto têm a xenofobia e a homofobia pela frente.
Para
esses indivíduos a visão de mundo não se fechou por completo, não se alinhou no
horizonte dos fatos, não há concordância conceitual. Há um estrabismo, para
quem de “esquerda” se autointitular e, ao mesmo tempo, defender que os animais
vivam nas ruas – remedando quem os acolha com os próprios recursos – ou,
simplesmente, apregoando que sejam todos eliminados e mortos.
Em
casos extremados, isso que chamamos de “Esquerda torpe”, é capaz de “criticar a
condição do sistema prisional” e, concomitantemente, defender a lisura de uma
“festa popular” chamada de A farra do boi – ou simplesmente não ver maldade nas
rinhas de galo.
Nesse
caso grave, sem aparente remédio político-jurídico (a não ser estudar), o
córtex frontal não se ajusta à sensibilidade, a sinapse não encontra teoria e
prática: discurso via de regra sem se expor para além das redes antissociais e
tóxicas (iguais a esses perfis).
E
nisso há falha grave na formação de uma visão de mundo de esquerda, se
esperamos pela coerência entre as latitudes e as longitudes políticas, sociais,
humanizadas. Não se é de esquerda pela metade e, exatamente por isso, é muito
mais difícil entender-se assim do que sentar no sofá como um “sujeito comum de
direita”.
Muitas
vezes, ambos são “cidadãos de bens” – a exemplo de quando esse “ser de
esquerda” mantém em sua residência o famoso “quartinho da empregada”, como
reprodução do engenho e da Casa Grande urbana. Alguns desses até podem ser
defensores dos direitos humanos, mas não notam os maus tratos aos animais.
Uma esquerda
incapaz de ver o Bom Senso
Ainda
nessa perspectiva, Gaston Bachelard (1996)[1]
discute os chamados obstáculos epistemológicos, caracterizados pela
predominância da opinião e do senso comum, que dificultam a construção crítica
e da produção racional do conhecimento. Nesse sentido, o autor afirma que “A
ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se
absolutamente à opinião” (Bachelard, 1996, p. 18), indicando que a opinião,
enquanto forma imediata de apreensão do real, não se constitui como fundamento
válido para o conhecimento científico.
Logo,
o senso comum, quando não submetido à crítica e à reflexão efetivas, tende a se
reproduzir de maneira acrítica, reforçando-se interpretações já estabelecidas e
pouco problematizadas da realidade social, como no caso da dualidade entre a
crítica das condições do sistema penal, mas o divertimento e a lucratividade
com rinhas de galo, por exemplo; algo que se vê em alguma parcela da esquerda
atual, justamente por essa “indução do senso comum” à reprodução desassistida
de análise crítica ou cognitivamente fundamentada.
Nesse
sentido, o autor também afirma que: “Mesmo na mente lúcida, há zonas
obscuras, cavernas onde ainda vivem sombras. Mesmo no novo homem, permanecem
vestígios do homem velho.” (Bachelard, 1996, p. 10). Ou seja, mesmo no
processo de construção do conhecimento científico persistem elementos do
pensamento não elaborado, ligados ao senso comum, quase que intrinsecamente
apegados ao sujeito, caracterizando-se a dificuldade de se expurgar tais
pensamentos. Em diálogo com essa perspectiva, pode-se relacionar tal movimento
à ideia freireana de “novo homem”, compreendido como sujeito crítico em
processo de formação (Freire, 2022)[2],
ao indicar que a superação do senso comum não é imediata nem linear.
A
permanência de formas de pensamento pouco problematizadas (e incoerentes), por
sua vez, acaba por contribuir para análises simplificadas da realidade social,
como a presença de animais em situação de rua, frequentemente tratadas de
maneira descontextualizada e até normalizada. Isso evidencia a tensão entre uma
leitura crítica e histórica da realidade e interpretações baseadas em
percepções imediatas do cotidiano – normalmente danosas e tóxicas ao ambiente e
ao convívio que se espera para uma visão de mundo de esquerda.
Há
muito dessa tipologia, um tipo de espécime político, incapaz, inclusive, de
visualizar o “melhor do senso comum”, que podemos chamar de Bom Senso do senso
comum: aquela pessoa mais simples que sabe o valor de se aplicar ao Bem e,
assim, pela lógica meridiana, apartar-se do Mal.
Para
efeito político e didático, veremos a seguir uma resenha retirada da leitura de
A quinta coluna, pois nos parece haver a incidência clara da “analfabetização
política de esquerda” e a consequente provocação de ações políticas torpes.
A quinta
coluna
Madri sofreu um sítio realizado por
quatro colunas de fascistas revoltosos por três anos e, além disso, de dento da
cidade, outro grupo indicava os alvos que deveriam ser bombardeados: a Quinta
Coluna de infratores, infiltrados, traidores e mercenários.
Os personagens centrais representam o
povo espanhol – mesmo que ali apareçam como ingleses, americanos e alemães – e
todos aqueles que se identificam com a democracia e a liberdade. O retrato é o
do horror. Pouco restava de idealismo, nacionalismo, heroísmo. Havia
apenas o vazio que corroía a humanidade. Na luta intestina pela sobrevivência,
o Bem e o Mal se confundiam. Eram protagonistas desiludidos. Apegava-se à dor e
à privação. Na narrativa, as falas aparecem com beligerância, de combatentes
desiludidos. Para o autor, a moral da história ilustra a ausência total de
“vida particular”. Se é que havia vida.
O primeiro ato já traz um diálogo
inicial “educado”, mas áspero na intenção oculta, entre Dorothy e Preston, até
aquele momento eram amantes – em que ela traduz o amor de ambos: “É apenas um
mau hábito que adquiri” (Hemingway, 2007, p. 17). Em seguida, surge o gerente
do hotel em que estão hospedados pedindo comida para sua família...A esta
altura os bombardeios já haviam avançado sobre Madri – quando apareceu outro
“camarada” de partido. Este camarada se faz acompanhar de uma prostituta Moura
e que logo invoca com Dorothy: “Arranco os olhos, se você acha melhor do que
eu” (Hemingway, 2007, p. 26). Pouco antes, a Moura estivera indignada com um
cartaz que estava fixado à porta, onde se lia: “Trabalhando, não perturbe”.
Em meio a outro diálogo bastante ácido
recomeçam os bombardeios. Temos uma reação de Preston e aí segue uma descrição
como um aviso de morte: “Há um som como o acorde de um banjo gigantesco e um
ruído que se aproxima como um trem vindo na direção da gente” (Hemingway,
2007, p. 33). Philip, o camarada que encanta Dorothy, justifica porque não vai
a um abrigo: “Seguro não é bem o termo, mas quem é que se preocupa com segurança”
(Hemingway, 2007, p. 36). Philip, totalmente bêbado, bate em Preston e fica com
seu quarto e sua mulher. No dia seguinte não se lembra de nada, mas o gerente
avisa que dois soldados o esperam. Philip, então, irrita-se porque os dois
deixaram alguém fugir: “Há uma única regra quanto ao dever. A gente tem de
cumpri-lo. E há somente uma coisa a respeito de ordens. ELAS TÊM DE SER
OBEDECIDAS” (Hemingway, 2007, p. 51). Manda prender os dois soldados e reage
com sarcasmo: “boa sorte”. É a disciplina da Razão de Estado, para a segurança,
em que impera a obediência e a morte.
Em outra cena, Dorothy pede o café da
manhã e responde à atendente do hotel, sobre o bombardeio da noite anterior:
“Que nada! Foi até encantador” (Hemingway, 2007, p. 56). No diálogo seguinte,
entre Philip e Dorothy, sobre Preston, outra vez surge o realismo sarcástico:
“DOROTHY – Oh não Philip! Não se preocupe. Ele se foi para sempre. PHILIP –
Frase horrível: para sempre” (Hemingway, 2007, p. 60). Depois a moça diz ao
policial Philip para que procurasse ser mais sério e honesto – ao que este
responde com mais cinismo e desdém: “Não me tente. Não me torne ambicioso [...]
Não me abra novos horizontes” (Hemingway, 2007, p. 63).
Este sentimento evasivo se acentua
quando Dorothy lhe diz que mostraria aos filhos dos dois um mundo maravilhoso,
após a guerra. Ele diz que o filho nunca teria visto o pai. A moça insiste e
diz que ele escreveria um livro sobre guerras – mas, a resposta é um tiro
fatal: “Seria um belo livro. Poderia enriquecê-lo...com ilustrações”
(Hemingway, 2007, p. 65). Philip sai do quarto e Dorothy chama Petra e assegura
que a criada não deveria ser tão derrotista. A camareira diz brevemente: “Não
penso em política. Apenas trabalho” (Hemingway, 2007, p. 70). Era a consciência
de classe possível, àquela altura dos acontecimentos.
Quando
Preston reaparece há um diálogo seco e este chama o gerente para retirar Philip
do seu quarto. Todavia, o gerente implora para que não chame a polícia: “Em
assuntos privados, a autoridade pública dá sempre interpretação errada”
(Hemingway, 2007, p. 77). Na sequência, um tipo de ajudante de ordens espera
Philip que está no quarto de Dorothy e, sentado, recebe um tiro na nuca: a
Quinta Coluna.
No
segundo ato, Philip interroga o soldado que deixara um o suspeito fugir e,
então, diz a seu próprio coronel que “não há ninguém absolutamente certo”.
Philip convence o coronel a não executá-lo e o soldado agradece, mas houve que
a guerra não tem favores: “Numa guerra, não se diz obrigado” (Hemingway, 2007,
p. 94). O soldado é levado e os dois oficiais militares (Philip é meio
policial, meio militar) conversam como é que se morre bem em uma guerra
daquelas. Philip lembra ao coronel, seu próprio superior, os equívocos
cometidos: “Mas, às vezes, matamos por engano, não é Antônio?” (Hemingway,
2007, p. 97). Philip também lhe revela algumas fraquezas da profissão de
contraespionagem: “Gostaria de saber quem sou eu ao acordar” (Hemingway, 2007,
p. 100).
De
novo no bar, Philip conversa com a Moura sobre as virtudes de Dorothy e a
prostituta se mostra sagaz: “Que é que você faz durante todo o tempo, nesta
guerra, se ainda não sabe o que é ignorância e o que é coragem?” (Hemingway,
2007, p. 115). A guerra parece ser isso, quem engana melhor. Na continuação
Dorothy chama a camareira e fica sabendo que o eletricista do hotel fora
baleado durante a noite e morrera. A ajudante Petra informa-lhe que os
assassinos são franco-atiradores da Quinta Coluna, que atiram a esmo. Contudo,
preferem alvejar os inimigos de classe: “Se fosse eu morta, eles
ficariam felizes. Pensariam que era uma pessoa a menos da classe trabalhadora”
(119). O que já indica um amadurecimento da consciência de classe, se comparada
à anterior análise social da própria camareira. A guerra civil revelava a
crueza da luta de classes. Petra também diz que Philip é um genuíno filho da
guerra: “Não digo que ele não seja um bom homem. Mas é ruim” (Hemingway,
2007, p. 123). Na guerra civil, fratricida, quando se opõem membros da mesma
família, não é difícil esquecer o foco e mesmo a identidade.
Dorothy
compra um casaco de pele de raposas e Philip não gosta, porque teria usado o
mercado negro. Quase brigam ao falar do “moralismo” da guerra. Philip também
conversa com outro camarada, Max, e se queixa amargurado do trabalho que fazem
juntos. Lamenta o fato de que o soldado tenha morrido no seu quarto, em seu
lugar. Max tenta confortá-lo e tem como resposta o non sense da ironia
mordaz. Max responde, lembrando o significado da guerra civil espanhola: “Em
suma: para que possam viver e trabalhar com dignidade, e não como escravos”
(Hemingway, 2007, p. 177). Na guerra civil, irmãos escravizam irmãos.
Sequencialmente,
em um posto de observação, um soldado diz a senha para outros três que se
aproximam: “a vitória”. E houve a contra senha: “...é para aqueles que a
merecem” (Hemingway, 2007, p. 183). Era uma senha fascista que abriria espaço
para a entrada de um oficial alemão: os mercenários socorrem aos interesses de
classe, em defesa do capital. À meia-noite se deflagra o bombardeio contra
Madri – para confirmar, o ajudante de ordens revela que os alemães estão ali a
serviço do capital internacional: “Esses marxistas filhos-da-puta! Isso vai
apanhá-los em suas trincheiras” (187). Neste momento, as sentinelas são
abatidas e Philip dá a ordem de rendição ao general.
De
volta a Madri, no interrogatório, fica evidente que o general não os
acompanhara como refém, não era o alvo principal; apenas o civil: foi fuzilado
no caminho. Antes de iniciar a sessão de tortura, Philip descreve o caráter do
alemão prisioneiro: “O homem é como uma fruta madura” (Hemingway, 2007, p.
196). Seria definido como um “político”. Aí se segue um breve diálogo entre
invasor e torturador: “CIVIL – Jamais falarei. ANTÔNIO – Falará sim. Você vai
ver...” (Hemingway, 2007, p. 198). Como resultado disso, foram presos mais de
300 inimigos-traidores da Quinta Coluna – estampados em todos os jornais, como
peça publicitária.
A
divulgação do feito foi tanta que o anonimato de Philip se perdera. Para se
esconder seria preciso romper com Dorothy. Entretanto, Max lhe adverte: “Para
nós, que já passamos por coisas terríveis, a gentileza em tudo o que for possível
é de suma importância” (Hemingway, 2007, p. 211). “Há que endurecer; porém,
perder a ternura jamais”. Quando Philip termina o relacionamento, ambos se
ofendem, chamando-se de mercadorias e de (in)utilidades. Mantiveram uma relação
utilitária, em meio a uma guerra sem utilidade social e nem integridade da
condição humana.
Por óbvio que nada supera a leitura,
essa abaixo:
●
HEMINGWAY, Ernest. A Quinta Coluna. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
E
como resultado final, como desfecho da torpeza da Quinta coluna – e da luta fratricida
entre “esquerdas” na Guerra Civil espanhola –, recomendamos tanto o livro
quanto o vídeo homônimo, a seguir:
●
DEL TORO, Guillermo; FUNKE, Cornelia. O
Labirinto do Fauno. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
Portanto, vimos que não existe esquerda da boca
pra fora.
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