Sábado, 11 de abril de 2026 - 09h26

O tema da
minha aula de ontem deveria ter sido Educação anticapitalista. Era de se
esperar que não fosse uma abordagem simples, tão direta ou com respostas
prontas. O resultado é que nem entrei no tema.
Chamei o Uber e a moça que me levou
estava quieta no início, talvez meio reticente. Dois minutos depois a conversa
já ia normal. Raramente entro mudo e fico calado, só se a pessoa realmente for
muito chata, antipática. E mesmo assim ainda tento. Em quase 100% (cem por
cento) das vezes, puxo papo sobre a rotina, como é o trabalho.
Ela não era chata, muito pelo
contrário. Foi extremamente simpática, na viagem toda – e o que mais precisamos
atualmente é de simpatia, empatia, um mínimo de Interação Social – aquele algo
para além da mera cortesia, das formalidades.
Ou
seja, precisamos passar a barreira da civilidade fria, praticamente do “bom
dia, boa tarde” – mesmo que isso esteja em desuso. Digo isso como professor de
Sociologia – minha disciplina chama Educação e Sociedade.
Então,
dois minutos depois de embarcado falamos do caminho até à UFSCar, eram 18
horas, de uma sexta-feira. Quase noite, um claro-escuro, lusco-fusco, meio
penumbra, que nunca é adequada para se dirigir – a visão fica presa num
zigue-zague entre o dia e noite, assim como todos os demais sentidos. Requer um
alerta maior, portanto.
Assim
fomos e da metade para o final da viagem já falávamos sobre o ritmo de trabalho
dela. Foi quando me disse que também é professora e que tem dois empregos. É
concursada em dois municípios. Sim, ela viaja todos os dias, ida e volta para
trabalhar.
Sai
de casa às 5 horas da manhã e volta às 13 horas, a fim de começar o segundo
turno. O tempo de viagem dela é de aproximadamente 50 minutos – são 100 minutos
deixados na estrada. E é ela a motorista, faça chuva, faça sol.
Também
contou que não para de estudar, fez vários cursos de especialização – dentre
eles a Educação Especial. Nesse ponto me disse que retomou esse ritmo de
conhecimento aos 30 anos. Foi quando olhei pra ela – eu viajo olhando fixamente
para a frente – e lhe disse, sorrindo: então você começou a trabalhar ontem.
Ela riu e revelou que tem mais de 40 anos. Sem dúvida, é uma moça de muitas
surpresas, porque a jovialidade é parceira da sua simpatia.
Por
fim, contei essa história na sala de aula, assim que começamos. Queria
compartilhar com eles essa minha aventura. A viagem durou apenas 10 minutos,
mas são aquelas situações que você não esquece.
No
fim, o que consegui conversar mais longamente foi sobre uma pergunta que um
aluno me fez na quarta-feira, às oito horas e trinta minutos: “A moça do Uber –
professora concursada duas vezes – tem seu trabalho explorado, mas é no formato
de forma de mais-valia, ou segue somente o ritmo factual do ‘Servilismo Voluntário?”.
Todo
mundo que está lendo esse texto pelo celular ou notebook, tendo passado pelo
algoritmo de vigilância ou de encaminhamento, atua como servo voluntário – eu e
você, portanto.
Qual
é a educação digital que nos imuniza disso? Como sair desse Capitalismo digital,
como enfrentar essa exploração aguda com conhecimento e crítica embasada? Não é
tarefa fácil.
Mas,
esse é outro tema, que levarei para a sala, na quarta-feira que vem. Depois
conto o andamento dessa experiência de fazer educação dentro do Uber, e sempre a
caminho da escola.
Sexta-feira, 5 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
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