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Vinício Carrilho

Educação Financeira - ou conversa para boi dormir


Educação Financeira - ou conversa para boi dormir - Gente de Opinião

Por que a educação é um projeto sempre adiado?

Porque não há um projeto de país (tipo Getúlio Vargas ou JK) e, mais do que isso, porque é um projeto político baseado na dominação por meio da menoridade intelectual, moral, científica, política. 

Não é sequer um projeto iluminista (com os devidos acertos de conta), e muito menos a educação no Brasil é um projeto emancipatório. É dominação com alienação (às vezes só ignorância e ocultismo, como se vê em São Paulo). É dominus com lastro na Abdução social[1].

Desse prisma, é o exato oposto de Paulo Freire[2], quando propôs a associação entre liberdade, autonomia, responsabilidade e emancipação social. 

Em resumo, é um projeto de "dominus" - que é uma relação mantida estreitamente com a propriedade privada. Portanto, não ocorre à toa essa imposição da educação financeira, em oposição às humanidades. 

A subjugação ao capital dominante, hegemônico, faz-se no dia a dia, lição após lição. É desse modo que a educação brasileira prepara as crianças para a captura de suas subjetividades pelo capital financeiro.

A ementa a seguir foi gerada por IA, com uma simples questão, e confirma o que estamos alegando: “ementa da disciplina de educação financeira em São Paulo”:

·       “A disciplina de Educação Financeira na rede pública de SP (incluída no currículo a partir de 2024, especialmente no ensino integral) visa desenvolver hábitos de consumo consciente, planejamento, poupança e investimentos. O foco é a cidadania financeira, abordando matemática financeira (juros, inflação) e comportamento, com foco na autonomia”.

 

Abaixo, os conteúdos expostos também refletem a mesma IA:

·       “Entre os assuntos que podem ser contextualizados com as informações sobre educação financeira destacam-se: previdência social, sistema financeiro, crescimento econômico do país, empreendedorismo, endividamento e muitos outros”.

 

Facilmente, deve-se intuir que a “previdência social” é tida como déficit, prejuízo, investimento sem retorno e, por conseguinte, deve sofrer “correções”. O que não se diz é que as tais correções sempre afetam negativamente a classe trabalhadora, mitigando ou retirando direitos assegurados. O que também não recebe pronúncia é o fato de que a corrupção do sistema público muito pouco é investigada, bem como seguem imunes a evasão e a sonegação fiscal, além da corrupção na iniciativa privada, a partir da “privatização do aparato público”. A fantasia do Estado como “mão invisível”, no Brasil, tem uma aparência diferente: em decorrência de sua privatização, o Estado trata como invisíveis os mais pobres e marginalizados pelo sistema político e econômico.

É curioso colocar o sistema financeiro no coração da educação de crianças e de jovens, porque, claramente, está sub-reptícia a lógica de que todos/as poderão ser acionistas da Bolsa de Valores. Mesmo os mais pobres têm direito à ilusão do mercado, a sonhar com a prosperidade milionária, bilionária, e não é coincidência o fato de igrejas voltados ao domínio terem o mesmo mantra. É um projeto de dominação com fundo falso, onde se esconde o cinismo.

O PIB – produto interno bruto –, se bem investigado, revelaria que 30% é decorrente do agronegócio. Sem contar que a geração de empregos e de renda é nula – em face de sua mecanização, robotização –, além da inestimável poluição e degradação ambiental, o agronegócio segue sendo o farol dos problemas mais graves dos bancos públicos. Conhecido por ser o maior financiador do agro, o Banco do Brasil tem registrado calotes insuperáveis desse setor que privatiza e drena recursos públicos. São calotes históricos.

Quando o que mais cresce no país é desregulamentação do trabalho, com uberização e pejotização, soa a outro cinismo falar de empreendedorismo. Sem contar os milhares, milhões de pobres e descarregados de qualquer poder econômico, é preciso ter clareza de que a uberização e a pejotização (pontas de lança do trabalho informal) são os principais fatores responsáveis pela crise na previdência social. A razão é simples e óbvia: a cada dia menos pessoas contribuem para a previdência social, porque a cada dia mais pessoas são uberizadas, fagocitadas pelo desregulado sistema produtivo.

O último item, por sua vez, parece uma piada. Seria muito interessante indagar a qualquer gestor/a público/a – patrocinador da educação financeira – se ele/a, vivendo com um salário mínimo, não estaria endividado/a até à próxima geração. É uma piada de péssimo gosto pensar que se pode educar financeiramente pessoas endividadas porque ganham um salário mínimo. Quantas pessoas no Brasil ganham um salário mínimo por mês?

Por essas e por outras razões, bem previsíveis, como dizia Darcy Ribeiro, “a educação não está em crise, pois isso é um projeto”. É um projeto de dominus baseado na negação do conhecimento de forma geral e, de modo específico, está calcado na negação do “domínio do conhecimento social”, sociológico, uma vez que a crítica provém da análise dos fatos e dos fatores e é isso que conduz à práxis, isto é, ação social, cultural, política com efetividade de mudança social.

Não é só por isso, mas também é por isso que o conhecimento é revolucionário, à medida em que nos move para revolver as raízes mais profundas dos males sociais, culturais, políticos, econômicos.

Por fim, é por tudo isso que a educação não combina com a “conversa para boi dormir”. 



[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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