Sexta-feira, 24 de outubro de 2025 - 07h29

● “Mas o povo não está interessado nas eleições, que é cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos” [1].
Lendo assim, apenas esse recorte, podemos ter a
impressão de que Carolina de Jesus pregava uma antipolítica. Entretanto, sua
vida toda de resistência, insistência para viver, sobreviver, foi um dos mais
belos e grandiosos atos políticos de nossa história social.
Quando se avalia a política oficial,
institucional, poucos são os momentos em que os discursos, promessas, propostas
inexequíveis (populistas, oportunistas) para o povo, não surtiram efeitos de um
enfeitado Cavalo de Troia. É para isso que ela chama a nossa atenção: esqueçam
o palavrório, o falatório – sempre vazios de significados populares – e olhem a
realidade. Nem político, desse tipo profissionalizado, combate a fome do povo
com papo furado.
Não lhe interessava, em nada lhe convinha, esse
falar e não fazer, até porque o seu fazer era recolher papelão e metais velhos
nas ruas de São Paulo, capital, vender e assim comprar algum alimento para os
filhos. O seu fazer era driblar a fome, a morte; o seu dizer era de que isso
não era humano, era injusto e indigente. O seu falar era pela dignidade humana;
o seu fazer era uma luta diária contra a miséria e a “mentira política”.
O conceito que não aprendera na escola pública,
porque sequer concluiu o ensino fundamental de hoje, lhe dizia no âmago de
mulher negra, pobre e oprimida, e mãe, que a “vida é insolvível”. Não se compra
a dignidade humana com um milheiro de tijolos, em ano eleitoral.
Essa questão mais política é fundamental, pois a
lógica econômica, institucional, societal, de produção de Carolinas de Jesus
nunca teve descanso no país. Quantas Carolinas de Jesus existem hoje no Brasil?
Algumas até enriqueceram[2], a
original, não.
Por fim, é sempre necessário recolocar a crítica
ao sistema representativo, porque a baixa adesão e as críticas mais ácidas –
muitas vezes retidas na fenomenologia, no senso comum dos fatos – são os
principais indicadores da erosão da própria democracia. Com ironia excessiva
(ou cinismo), tais avaliações raramente pertencem ao tempo do anúncio, da
oferta de proposições alternativas e reparadoras ao sistema democrático como um
todo. E quando isto ocorre, perdemos todos nós, toda a sociedade brasileira – a
nossa história é cheia de situações, momentos assim.
[1] CAROLINA
Maria de Jesus. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática,
2014, p. 43.
[2] https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2025/10/21/empresaria-lixao.htm. Acesso em 21/10/2025.
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