Quinta-feira, 23 de abril de 2026 - 16h36

No
texto, destacaremos três pontos convergentes: constatar a contradição societal,
sistêmica, não nos aproximava do pensamento antitecnológico; não é compatível
equiparar a IA a uma “nova” revolução industrial; a IA representa o mais
nevrálgico ataque à condição humana, que é a capacidade de pensar a si e ao
próprio pensamento (consciência da consciência).
A
tecnologia, assim como o capitalismo que a produz, é contraditória: o capitalismo
em sua contradição produziu a caça às bruxas, mas também nos tirou do
feudalismo. O capitalismo produziu a Colonização e as tecnologias compatíveis
para isso, como a "bússola melhorada" que navegaria na escravidão – e
é o mesmo sistema produtivo que induziu à medicina moderna.
A
produção das vacinas no miolo da contradição capitalista é um exemplo concreto,
pois, o aprimoramento só foi possível graças ao emprego de tecnologias avançadas.
Ainda neste exemplo, é evidente a avaliação não só da condição contraditória do
capitalismo, mas acima de tudo a verificação de uma tecnologia que salva vidas
– ao contrário da indústria da morte. A vacina quando inserida em políticas
públicas converte-se em vacinação pública (e, por vezes, obrigatória).
A
técnica se perderia nesse processo, enquanto habilidade humana de projeção e de
execução do trabalho: o artesão é o símbolo da técnica, a ser suplantada pela
tecnologia. A tecnologia é o resultado direto da automatização e da reprodução
de tarefas, num sentido específico, ao passo que o artesão exercia o domínio
pleno da “arte de fazer”: era o próprio Homo faber, e que daria lugar às
classes trabalhadoras[1].
Definida
por Marx como Maquinaria, essa subtração “domínio humano” sobre a técnica (a
arte de fazer) é um exemplo de quando a técnica desaparece, em relevância
sistêmica, e é substituída pela tecnologia. Também a prensa de Gutemberg
ilustraria a subsunção (desaparecimento) dos copistas (manuais) e sua reposição
em meios maquínicos.
Portanto,
penso, hoje, que comparar a inteligência artificial (IA) com a revolução
industrial é um equívoco geral. Como apontado, na era das revoluções
industriais, estava em jogo a “o domínio sobre a técnica de fazer”, o trabalho
manual, impondo-se a lógica da mercadoria capitalista.
O
trabalho morto corresponde à mercadoria que retém o engenho, as capacidades, a
inteligência humana de quem trabalhou para sua efetivação. A força de trabalho,
está na mercadoria, mas está congelada, está mortificada no produto, na coisa, no
bem, em suma, está condicionada à mercadoria. Não é, definitivamente, disso que
se trata quando apregoam a IA promovendo “nova” revolução industrial.
Com
a imposição da IA, o que está em jogo, sem que mostrem as regras e as cartas do
jogo, é a condição humana, é o que nos confirma enquanto espécie: a nossa
inteligência, a sagacidade envolta na “consciência da consciência” [2].
O
ser humano é o único ser vivo que tem consciência de sua finitude (incompletude
e morte), é o único capaz de refletir sobre si, sobre “o que pensa de si”. Então,
com a “super IA” nós é que estamos em jogo, nós que representamos o Homo
sapiens: quem sabe pensar acerca de seus pensamentos (reflexão).
Diante
disso, é fácil perceber como cresceu a ignorância, por exemplo, confundindo-se
autonomia com irresponsabilidade pública: não fazer, descumprir uma obrigação
pública é já um ato banal (estudantes conseguem não fazer sua matrícula).
Também
não vejo como associar "livremente" porque, no passado, o impacto se
deu no escopo do Trabalho morto (do Homo faber). Hoje a tecnologia (goela
abaixo) ataca ferozmente o Trabalho vivo, ou seja, o Homo sapiens.
Por
esses e outros motivos, as reações de civis ou os atentados aos criadores dessa
tecnologia não são comparáveis ao Unabomber – um prodígio da matemática que
passou a executar atentados letais contra cientistas em meados da década de
1970, nos EUA.
Menos
ainda podemos comparar com os chamados "Neoluditas": foram (são)
seguidores de Ned Ludd, um trabalhador revoltado com o regime de trabalho
imposto pelo desenvolvimento tecnológico e provedor de atentados ao sistema
fabril, no final do século XIX.
Em
resumo: são processos diferentes, com implicações igualmente diferentes.
Se
fosse realmente revolucionária, no sentido correto da expressão, a IA estaria
aproximando o Homo faber do Homo sapiens e diluindo as distâncias e as
desigualdades entre as classes sociais. Se há ou já houve uma tecnologia
capaz de unificar, como hominização e omnilateralidade (humanos por completo),
o Homo faber com o Homo sapiens, e como queria Gramsci nos Cadernos do Cárcere?
Não. Isso sim seria uma revolução social (humana), como nunca visto pela
Humanidade.
Além
de vermos o oposto, que é a liquidação de nós mesmos, a IA corresponde a uma
tecnologia que impulsiona, como nunca, o Homo ludens: "adultos"
infantilizados da geração Z são um exemplo. E não me refiro aos estudantes de
17, 18 anos que tenho na UFSCar. Esses não brincam em serviço, e não são ricos
(alguns são provenientes do Cursinho Popular, como uma garota de 19 anos que
pede por mais aulas – ela representa o polo positivo). Refiro-me, neste
exemplo, aos irresponsáveis que "brincam de tecnologia", convertidos
à cultura hi-tech (os antigos chamavam de kit babaca), infantojuvenis que vejo
na mesma universidade, mas já com 25, 26 anos e sem saber o que querem da vida.
Imersos
na mecânica dos joguinhos informatizados (dirigidos por IA), até podem ter alguma
realização no setor privado, porque daí vem o salário da subsistência; porém,
seu distrato com a coisa pública revela na íntegra como foram subsumidos
(engolidos) pela prática rotineira, persistente, de uma tecnologia disruptiva.
Provavelmente,
sequer entendem o que foi escrito aqui, porque tudo é playground no reino do
"servilismo voluntário" em que vivem. Esses representam o polo
negativo, associados às tecnologias e às práticas disruptivas, fragmentadas, no
escopo da uberização social[3] – como processo amplo e
não só econômico, mas cultural, político, educacional, artístico.
Também é neste sentido que, a imersão
da “geração tecnológica” sem aportes suficientes de criticidade, quer seja do
momento histórico atual quer seja na forma como criam suas interfaces
desumanizadas, subsumidas em camadas de IA, indica que a vítima é o propelente
desse processo de desumanização.
Os
mais velhos em idade falam em "como obter as melhores respostas da IA”,
como sinônimo de usar corretamente a IA. Pois bem, isso já diz tudo, porque não
se trata mais de "você produzir as melhores respostas", envergando
todas as suas capacidades. Não, trata-se de saber usar as "capacidades da
IA", de terceirizar seu raciocínio lógico-dedutivo para a IA. É por isso
que a educação digital alicerçada nesse modelo só corresponde ao antigo
"ensinar a ligar e desligar o computador".
Talvez a pergunta não seja mais o que é condição humana, mas sim qual...uma resposta já adiantada é a do Tecnofascismo[4].
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