Porto Velho (RO) sábado, 31 de julho de 2021
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Política - Nacional

PHILIP FEARNSIDE: 'O PAC ajuda a desmatar'


Por SÉRGIO PARDELLAS (Revista ISTOÉ) - Ecologista do Inpa condena hidrelétricas na Amazônia e diz como é possível aliar desenvolvimento com preservação

Quando o tema é aquecimento global, Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, é o segundo cientista mais citado no mundo nos últimos dez anos, de acordo com o Science Citation Index. O levantamento, feito por meio de referências em revistas na área, revela a importância científica de suas pesquisas na Amazônia, onde desembarcou em 1976. Formado em biologia pela Universidade do Colorado e Ph.D. em ecologia pela Universidade de Michigan, aos 57 anos Fearnside comanda uma equipe que mapeia os serviços ambientais prestados pela floresta. Sua proposta é ousada e radical: ele sugere que os países do mundo paguem pelos benefícios ecológicos que a floresta traz, como organismo que regula o fluxo de chuvas, a temperatura e evita o agravamento do efeito estufa. Para Fearnside, o ressarcimento material por esses benefícios produzidos pela floresta garantiria a qualidade de vida da sua população, mantendo preservada a Amazônia.
Ele critica as medidas anunciadas pelo governo, como a suspensão de autorizações para desmatamento em 36 municípios da Amazônia, e diz que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) poderá ser ainda mais prejudicial para a conservação da região. Pessimista em relação à influência do aquecimento global, Fearnside estima que até 2080 poderá ocorrer o fim da floresta.
ISTOÉ – Qual a razão para o fato de a Amazônia ter perdido sete mil quilômetros quadrados de floresta só no segundo semestre de 2007?

Philip Fearnside –
São vários fatores. Um deles foi a estiagem entre os meses de agosto e novembro do ano passado. Geralmente esse período é de chuvas na Amazônia. Também contribuiu para o desmatamento a alta do preço de alguns produtos, como carne e soja. Não só internacionalmente, mas também no mercado interno. Está havendo uma migração de pecuária de outras partes do Brasil para a Amazônia.
ISTOÉ – O rebanho brasileiro está sendo redistribuído?

Fearnside –
Está saindo de Estados como São Paulo e Rio Grande do Sul em direção à Amazônia. Inclusive, a conversão de pastagem em cana para biocombustível nesses Estados também vai aumentar o fluxo para a Amazônia. É importante absorver esse recado e tomar as medidas necessárias. Foi bom o governo ter assumido que houve o aumento do desmatamento. Agora precisa tomar medidas para evitar mais derrubadas de árvores na Amazônia. 
ISTOÉ – Então o sr. discorda do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes? Ele diz que o plantio da soja não seria responsável pelo aumento do índice de devastação da Amazônia.

Fearnside –
Em Mato Grosso, a soja foi fator sim de desmatamento. Não dá para dizer que nada tem a ver com a soja. O ministro está falando uma coisa que não se aplica à realidade aqui na Amazônia. São vários os problemas, não um só. E o governo precisa enfrentar todos eles. 
ISTOÉ – Entre as medidas anunciadas pelo governo na tentativa de combater o desmatamento está a suspensão de autorizações para desmatamento nesses 36 municípios da Amazônia. É suficiente?

Fearnside –
É necessário muito mais do que foi anunciado. Não é tão fácil baixar um decreto assim. Muita gente continua desmatando. Inclusive, em alguns desses municípios, sobretudo no sul do Pará e no noroeste de Mato Grosso, acontece muito desmatamento fora do controle do governo. É muito precária a fiscalização que é feita através de campanas e blitze intensivas. O alvo do governo é diminuir o desmatamento até julho deste ano. Mas é um objetivo muito limitado. São necessárias também medidas de longo prazo. 
"Não dá para dizer que nada tem a ver com a soja. O ministro Stephanes disse algo que não se aplica aqui na Amazônia”
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ISTOÉ – Quais? 

Fearnside –
Por exemplo, há uma decisão do governo de construir estradas que passam pela região. Isso vai provocar um desmatamento muito grande. O PAC foi anunciado sem nenhum estudo prévio, sem nenhuma análise da área que irá ser desmatada. 
ISTOÉ – O sr. fala da BR-319, que liga as cidades de Porto Velho e Manaus? 

Fearnside –
Exato. A BR-319 não tem EIA-Rima. Hoje, 80% do desmatamento é concentrado na periferia da floresta. Lado sul e leste. Mas, se forem concluídas essas estradas, o centro e o norte da Amazônia ficarão expostos para o problema do desmatamento.
ISTOÉ – Mas as obras de infra-estrutura não são necessárias para a Amazônia? 

Fearnside –
Acho que o princípio para todas as decisões é analisar os impactos e os benefícios antes de tomar a decisão.
ISTOÉ – Então, o PAC, da forma como está sendo viabilizado na região, será prejudicial? 

Fearnside –
Sem dúvida o PAC ajuda a desmatar. Quando abrirem a BR-319, vai ampliar o quadro do desmatamento. E vão invadir áreas que hoje estão intactas. E não é só a BR-319. Também está prevista no PAC toda uma rede de estradas laterais ao longo dos rios Madeira e Purus, que abrirá todo aquele bloco de floresta intacta no oeste do Estado do Amazonas. Isso muda a geografia do desmatamento. É muito importante que isso seja repensado. 
ISTOÉ – E a construção das hidrelétricas do rio Madeira? 

Fearnside –
Podem causar problemas. O mais importante é o impacto sobre algumas espécies de animais que não foi pesado pelo governo. Um é que vai bloquear a migração de peixes. São 31 mil toneladas de bagres. Os grandes bagres sobem o rio Madeira e vão se reproduzir na cabeceira dos afluentes, no Peru e na Bolívia. Depois, descem a correnteza e povoam o Madeira e o Amazonas. O rio Madeira é um dos rios mais piscosos da Amazônia. É uma perda irrecuperável. Mesmo fazendo passagens para peixes, já se sabe que não funciona para estas espécies, que são muito diferentes do salmão e das carpas. As hidrelétricas vão inundar também a Bolívia. A segunda barragem, de Jirau, vai justamente até Abunã, na divisa com a Bolívia. Durante a época de cheia, a água estará mais ou menos no mesmo nível de hoje. Mas no resto do ano o nível continuará alto, não vai descer, como é o ciclo natural, inclusive na parte da Bolívia. Isto vai causar problemas, porque o rio Madeira é um dos rios com mais sedimentos do mundo. Metade de todo sedimento do rio Amazonas vem do rio Madeira. Os sedimentos vão formar uma segunda barreira, na entrada do lago, aumentando a área submersa. Metade desta inundação vai ficar dentro da Bolívia.

ISTOÉ – Mas, então, a floresta tem que ficar completamente intocada? Como desenvolver a região e garantir a qualidade de vida da população da Amazônia?

Fearnside –
Ninguém falou que não deva existir atividade econômica na Amazônia. Mas temos alternativas. Por exemplo, faço parte de uma equipe que mapeia e monitora os serviços ambientais prestados pela floresta. Não tenho dúvida em dizer que o melhor caminho para conter o corte de árvores é transformar esses serviços em ganhos econômicos. 
ISTOÉ – Como seria isso? 

Fearnside –
Um dos grandes papéis da floresta é regular o clima do planeta. A biodiversidade também é importante. O que tem mais perspectiva de virar no curto e médio prazo uma fonte de renda que poderia substituir a destruição da floresta como base da economia é o efeito estufa. 
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“O governador Eduardo Braga (AM) apóia a comercialização de créditos de carbono. Mas defende a BR-319, que vai aumentar o desmatamento"
ISTOÉ – O sr. está querendo dizer que o mundo ressarciria a Amazônia pelo papel que a floresta presta na regulação do clima? 

Fearnside –
Precisa força diplomática para conseguir esse valor, que hoje está sendo dado de graça para o mundo. A Amazônia hoje vive da destruição da floresta. Corta, vende madeira, coloca gado, etc. É preciso mudar e basear a economia na manutenção da floresta e conseguir um fluxo financeiro a partir do valor ambiental da floresta em pé para manter a população.
ISTOÉ – Isso não vai na linha do que faz o governador do Amazonas, Eduardo Braga, ao criar o Bolsa-Floresta, que remunera as populações que não desmatam a floresta? 

Fearnside –
Eduardo Braga fez muitas coisas positivas. Criou uma área recorde de reservas naturais e, de fato, estabeleceu esses mecanismos de apoio aos pequenos agricultores. Ele apóia a comercialização de créditos de carbono. Mas, como todos os políticos do Estado, defende a BR-319, que vai aumentar o desmatamento. 
ISTOÉ – É possível afirmar que o desmatamento na Amazônia pode ter efeitos sobre o clima na própria região e em outras partes do mundo? 

Fearnside –
Sem dúvida. A floresta lança grandes quantidades de gases de efeito estufa que vão contribuindo para o aquecimento global e têm impacto no mundo inteiro. Também têm um efeito sobre o ciclo da água que afeta o transporte de água até em São Paulo e em países da América do Sul. Ainda não temos cálculos sobre o que se perdeu de água com o desmatamento. O que dá para medir agora é a parte de emissão de gases, que pode acelerar a derrocada da floresta. 
ISTOÉ – A destruição da Amazônia contribui com o efeito estufa e o efeito estufa destrói a floresta?

Fearnside –
É um ciclo vicioso. O efeito estufa e o desmatamento se auto-alimentam. Na medida em que a floresta vai morrendo, são liberados gás carbônico e outros gases que irão contribuir para um aumento médio de temperatura maior que a média global e uma redução no volume de chuvas. Com o aumento da temperatura, cada árvore precisa de mais água para sobreviver e, justamente aí, há menos chuvas. Com isso, a estiagem fica mais longa e as árvores ficam numa situação de fragilidade, propiciando a ocorrência de incêndios florestais. Os incêndios podem até não matar toda a floresta, mas eles esquentam a base do tronco de cada árvore, o que acaba provocando a morte delas, sobretudo as maiores, que são mais sensíveis. Aí acontece um outro ciclo vicioso. Toda vez que ocorre um incêndio, muita madeira morta fica lá solta no meio da floresta, o que faz com que o incêndio subseqüente tenha maiores proporções, e assim sucessivamente.
ISTOÉ – Segundo estudos do Weather Center do Reino Unido, a Amazônia vai sofrer muito com a subida de temperatura das águas do oceano Pacífico, provocada pelo aquecimento global, e poderá acabar antes de 2080. O sr. concorda com essa tese? 

Fearnside –
Temos que estar preparados para isso. Aumentos de temperatura nas águas do Pacífico criam efeitos semelhantes aos do El Niño. Sempre que ele ocorre, você tem seca e incêndios na Amazônia. Foi o que aconteceu em 1982, 1997 e 2003. Lembra quando morreram 40 mil pessoas na Europa com a onda de calor em 2003? Então, ao mesmo tempo, em Roraima, eram registrados grandes incêndios. Também é possível que a floresta acabe antes de 2080. Mas esse estudo desenvolvido no Reino Unido acaba sendo otimista porque só inclui a possibilidade de a floresta secar e as árvores morrerem sem água. Não inclui incêndios, que podem destruir grandes áreas de floresta, o desmatamento direto, nem a questão do ciclo da água. 
ISTOÉ – É correto afirmar que o Brasil é um dos países que mais vão sofrer com o efeito estufa?

Fearnside –
É verdade. Por exemplo, uma de suas conseqüências – o desaparecimento da Floresta Amazônica – seria terrível para o Brasil. Só isso coloca o Brasil entre os mais afetados. Afeta a sustentação da população amazônica, o ciclo da água, o Nordeste, que vai ficar mais árido. Enfim, o quadro é péssimo para o País. Normal é pensar que o efeito estufa atinge mais a Europa e os Estados Unidos, mas não é verdade. A Amazônia afeta a vazão do rio São Francisco, importante para o Nordeste. O volume de água transportado para fora da região amazônica é enorme e boa parte deságua no Centro-Sul do Brasil. Boa parte da população brasileira vive no litoral e o aumento do nível do mar terá um impacto muito grande também. 
ISTOÉ – Levantar a tese da internacionalização da Amazônia é boa ou ruim para a floresta?

Fearnside –
Esse discurso é sempre usado para justificar as coisas danosas à floresta. Com isso, as pessoas acabam recusando ajuda e descartando tudo o que é dito por ONGs internacionais. Acho que isso gera um efeito negativo em termos de conservação. Acaba por neutralizar a discussão sobre o impacto do desmatamento.

FONTE: REVISTA ISTOÉ

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