Porto Velho (RO) domingo, 22 de maio de 2022
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Política - Nacional

'Não existe justiça na Rússia', diz ativista do Greenpeace


Vivian Eichler
ZERO HORA

Domingo, 35 graus, a ativista Ana Paula Maciel escolhe o Parque Farroupilha, em Porto Alegre, como local para dar entrevistas. Diz que gosta muito e sente saudades do lugar. A bióloga, que retornou ao Brasil no sábado, cem dias depois de ter sido presa em uma ação contra o início da exploração de petróleo em águas congeladas no Círculo Polar Ártico, vivencia experiência de celebridade. É abordada por desconhecidos que dizem ter torcido por ela e compartilhado sua história nas redes sociais.

Passou pouco mais de um mês este ano na Capital. De fevereiro a abril, viajou por Cingapura e Sri Lanka a bordo do navio Esperanza, do Greenpeace. Depois, passou três meses no México, com o namorado, fazendo um curso de mergulho — uma ferramenta de trabalho nas ações da organização ambientalista.
 

Assista à entrevista de Ana Paula:

Há sete anos trabalhando em navios do Greenpeace, Ana Paula conta que era uma "faz-tudo" como marinheira do navio Arctic Sunrise e também como condutora de bote. Longe do governo de Vladimir Putin, ela conta detalhes do momento em que o o navio foi tomado pela guarda costeira russa, em 19 de setembro, e como passou 62 dias presa em Murmansk e São Petersburgo, sem pegar um raio de sol, antes de poder retornar ao Brasil, anistiada em uma leva de 20 mil presos, na tentativa do Kremlin de melhorar sua imagem internacional às vésperas das Olímpiadas de Inverno em Sochi. A seguir, trechos da conversa:

Zero Hora — Quais são tuas lembranças do dia da prisão?
Ana Paula Maciel —
Nós estávamos navegando bem perto da plataforma depois do dia da ação (no dia 18 de setembro, dois ativistas tentaram escalar a lateral da plataforma da companhia Gazprom). A Guarda Costeira já havia tentado nos abordar e não conseguiu porque felizmente eles não dirigem os botes tão bem quanto poderiam. Aí, acho que houve uma frustração por eles não conseguirem abordar o navio pelo mar, e alguém tomou a decisão de mandar o helicóptero. Eles mandaram o helicóptero para nos prender, mas estávamos navegando em águas internacionais. Desceram aquelas pessoas armadas, com uniformes, aquele helicóptero gigantesco a cinco metros da nossa cabeça. É um MI-8, um helicóptero com 20 metros de comprimento, sendo que nosso barco tem 50 metros. Eu mal conseguia caminhar na coberta do navio porque o vento não deixava. Eles nos prenderam, nos mantiveram cinco dias em cativeiro dentro do próprio navio, até que nos rebocaram para Murmansk. Lá, nos tiraram do navio e nos disseram que em três dias estaríamos de volta. E se passaram três meses. Na verdade, a única acusação que justificaria aquela abordagem em águas internacionais era a de pirataria. Segundo a lei internacional, não se pode abordar os navios à própria vontade quando estão navegando em águas internacionais. A única forma que eles tiveram para justificar aquela ação completamente ilegal foi nos acusar de pirataria. Depois, "rebaixaram" as acusações para vandalismo, que acabou com a anistia. A anistia foi a única maneira que encontraram para sair do buraco que eles próprios cavaram sem quebrar a cara. Mas a anistia não retirou as acusações. Sigo sendo acusada de vandalismo na Rússia e tenho uma ficha criminal que diz que fui acusada de hooliganismo (vandalismo) e que recebi a anistia, mas ninguém sabe se sou inocente ou não. O que é completamente injusto e desleal com a liberdade de expressão e os protestos pacíficos. Quando fui à imigração receber o meu papel, o meu visto de saída, tive de assinar um papel em russo que dizia que eu entrei ilegalmente no país, contra a minha vontade. Ou seja, que fui sequestrada, é isso que eu entendo. Se eu vou para um lugar contra a minha vontade, estou sendo sequestrada. Então, quem são os piratas e os vândalos no final dessa história?

ZH — Como foram os cinco dias no navio? Vocês foram maltratados?
Ana Paula —
Existe uma lei federal russa que diz que, quando uma pessoa é presa, o Estado tem 48 horas para te acusar. Se isso não ocorrer em 48 horas, tu és uma pessoa livre de novo. Aí, eles violaram uma segunda lei, para nos manter presos. Foram cinco dias presos no barco. Ninguém leu os nossos direitos, ninguém nos deu uma informação. Não tínhamos advogados. Quando chegamos a Murmansk, já deveríamos ter sido libertados, mas eles violaram a lei federal russa para nos manter presos. Eles nos mantiveram dentro das acomodações do navio, não podíamos circular pelo navio, não podíamos sair na coberta do navio, não podíamos ir à ponte de comando. Estávamos em cativeiro dentro do nosso próprio barco. Havia homens armados o tempo inteiro nos vigiando, 24 horas por dia nos corredores do navio, impedindo que a gente fosse a outros lugares, sem ter nenhuma informação. O capitão foi mantido separado de todos durante cinco dias. A gente teve de ficar nas nossas cabines, sem saber nem que hora do dia era. Eles confiscaram absolutamente tudo: computadores, hard drives, pen drives, máquinas fotográficas, cartões de memória, até minhas caixinhas de som. A injustiça foi extrema do primeiro dia até o fim. Não existe justiça na Rússia, não existe justiça para pessoas comuns. Eles fazem o que bem entendem. Cada guarda tem seu set de leis e regras. Cada um dos guardas. Eles fazem simplesmente o que querem.

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Ana Paula guarda a carta que recebeu de uma criança britânica, diz que o desenho de um barco pirata e o texto "Go, Greenpeace" a alegrou

ZH — Podes dar um exemplo?
Ana Paula —
Tenho vários exemplos (risos) porque isso acontecia o tempo todo. Em São Petersburgo quando cheguei, o guarda nos acordou. Eu já sabia todas as regras da prisão, tínhamos de acordar às 6h e dormir às 22h. Em Murmansk, podíamos dormir depois da inspeção matinal. Enfim, o que tu vais fazer dentro da cela 23 horas por dia? Dorme, levanta, vê TV, dorme de novo, lê um livro, chora, dorme, ri, dorme. O que vai fazer? Em São Petersburgo, uma guarda veio com uma tradutora de russo dizer que, se ela me visse dormindo durante o dia, eu e as minhas companheiras de cela seríamos punidas. Aí eu disse: "Espera aí, este é outro porteiro que é dono do prédio", como diz o ditado. Eu só disse para a tradutora: "Quero falar com o chefe da prisão, eu não vou falar com ela". Depois de um mês e meio em Murmansk, eu já sabia todas as regras, direitos e deveres. O chefe da prisão veio, e eu disse que queria esclarecer a história de dormir, se eu posso dormir ou não porque sei que é proibido dormir mais de oito horas consecutivas, mas não é contra a lei dormir depois do almoço ou depois da inspeção matinal e, certamente, é contra os direitos humanos punir pessoas por estarem dormindo. Ele disse : "Quem falou isso para ti? Tu pode dormir, não tem problema". Também esclareci com ele a história do banho. Por que eu posso tomar banho todos os dias e elas só podiam tomar uma vez por semana? Eu tinha duas companheiras, uma do Uzbequistão e outra da Ucrânia, e eram minhas amigas. A gente ficava horas tentando falar alguma coisa porque elas só falavam russo. Perguntei por que eu era diferente. As diferenças de tratamento entre nós e a forma com que tratam outros presos se tornou uma piada porque todos nós percebemos as maneiras completamente horríveis com que tratam os outros presidiários e a forma com que estavam nos tratando. Tínhamos um tratamento especial. Ao primeiro responsável por direitos humanos que veio me visitar, eu perguntei: "Estou aqui há um dia e recebi uma pessoa dos direitos humanos para saber se eu tenho frio, fome, se estou bem. Quantas vezes o senhor veio perguntar para as minhas colegas de cela se elas estão bem?". Ele disse: "Nunca". Eu disse: "Não preciso do senhor, eu tenho o mundo inteiro olhando por mim". Ele disse: "É porque tu não falas russo". Eu disse que elas falavam russo, mas não que não iriam reclamar porque têm medo. Eu vi nos olhos das minhas companheiras de cela o pavor de estar ali, de escutar o barulho da fechadura.

ZH — Vocês receberam tratamento especial em Murmansk? Quanto tempo levou para isso ocorrer?
Ana Paula —
Levou mais de um mês e meio. Eles só começaram a realmente a nos tratar de forma diferente quando nos levaram para São Petersburgo, onde a cela era enorme, tinha geladeira, TV, aquecedor de água. Eles pintaram todas as celas onde iríamos ficar, trocaram as janelas por janelas de vidro duplo, para aumentar o isolamento. Foi muito burro da parte deles nos colocar com presos russos porque aí percebíamos as diferenças de como era antes de nós chegarmos. Elas estavam achando que tudo aquilo era uma palhaçada. Eu estava muito indignada por elas.

ZH — Como era a prisão em Murmansk?
Ana Paula —
Não sei dizer como era o sistema antes. Mas fiquei sabendo que quando a gente saiu de Murmansk, um dos nossos advogados que também trabalha com presidiários lá nos contou que, quando fomos movidos para São Petersburgo, os guardas alinharam todos os presos nos corredores e disseram: "O Greenpeace foi embora, esqueçam que eles estiveram aqui. A gente vai voltar ao que era antes".

ZH — Como era a tua rotina em Murmansk?
Ana Paula —
Na verdade, algumas pessoas dos 30 do Ártico num primeiro momento foram levadas para uma prisão em Apatity, distante 300 quilômetros de Murmansk. Eles eram transportados nas caixinhas de metal em que a gente sempre era transportado, uma caixinha de metal em que eu me sentia dentro de um presente surpresa (faz posição fetal), que quando abre a caixa e faz "êêê", só que o presente era eu. Era uma caixinha escura, com um buraquinho, e eles nos transportavam assim. Os cinco que foram para Apatity foram transportados nessas caixas o tempo todo, durante quatro ou cinco horas de viagem, e eles foram e retornaram três vezes de Apatity a Murmansk. Era muito desumano. Quando a Sini (Sini Saarela, finlandesa) chegou a Murmansk não tinha cela para ela. Foi acomodada em uma solitária. Não tinha cama, não tinha banheiro, não tinha janela, e ali ela ficou quase dois dias. Então, eles nos trataram como vândalos. Eles fizeram a população russa acreditar nisso, só que o mundo não caiu nisso. O Greenpeace, todos sabem, é pacífico há 40 anos. O que o governo russo e a Gazprom fizeram conosco foi uma bola fora porque eles não esperavam toda essa repercussão. É muito provável que a Gazprom agora esteja arrependida até os cotovelos, porque a gente fez a mesma ação, na mesma plataforma no ano passado e nada aconteceu, e a Gazprom foi lá quietinha e continuou seu trabalho durante um ano. Agora, todo mundo sabe o que a Gazprom quer fazer e todo mundo sabe que a gente quer um santuário no Ártico (uma zona de proteção, como a que existe na Antártica). Então, acho que, de certa maneira, eles sabem que foi uma bola fora e tentaram salvar a cara com essa anistia, que é uma piada.

ZH — Como eram as visitas na prisão e as audiências?
Ana Paula —
Depois que recebemos a sentença de dois meses (decisão judicial pela prisão provisória), eu não esperava que seria libertada antes de dois meses. Todas as visitas eram para receber notícias. Não eram visitas muito seguidas, periódicas. Às vezes, meu advogado ia uma vez por semana, às vezes uma vez a cada três semanas. Eu nunca sabia. O que nos salvou psicologicamente foi ter uma hora de caminhada no que eles chamam de quadra de esportes. Era uma caixa de cimento de cinco metros por cinco metros. Quando começou a nevar, metade do chão era congelado, metade era água. Tinha um banco e uma dessas barras de fazer flexões. Nos levavam para aquele lugar horroroso, mas era o único momento em que eu podia conversar com as outras meninas dos 30 do Ártico. Na verdade, a gente podia gritar por entre as paredes, porque era uma caixa para cada uma de nós e eram cinco caixas de um lado e outras cinco na frente. Então, a gente conseguia cruzar informações ou fazer telefone sem fio. Mesmo que a gente não recebesse visitas, sabíamos pelos outros que recebiam. Todas essas informações eram compartilhadas.

ZH — Qual era o momento mais difícil?
Ana Paula —
Os dias mais difíceis eram os de sol porque foram dois meses sem pegar um raio de sol. O teto era muito baixo e coberto de telhas. Só tinha uma passagem por onde caía a neve. Os dias de sol eram os mais difíceis.

ZH — Fizeste um diário?
Ana Paula —
Todos me perguntam sobre o diário, mas o diário é supermegaparticular. Envolve pessoas que eu conheço. Eu sonhei com muitas pessoas. Eu escrevia esses sonhos. Eu me permitia chorar. Quando eu tinha vontade de chorar, eu chorava. E, aí, se eu chorava desesperadamente, soluçava. Não rolava no chão, é só um modo de dizer. Mas eu me permitia chorar, e depois de um mês, vi que estava demais. E disse: chega, é demais. E parava de chorar.

ZH — Por que a jaula nas audiências?
Ana Paula —
Tudo faz parte do sistema de opressão, de te destruir psicologicamente. É um sistema que não funciona. Manter uma pessoa 23 horas por dia dentro de um cubículo, mantê-la em jaula na corte, usar algemas o tempo todo, não funciona. Não ajuda a regenerar, no caso de eu ser uma criminosa. Só ajuda a me fazer mais indignada com a injustiça. Eles fazem questão de dizer que tu és a pior pessoa do mundo nesse sistema que te espezinha.

ZH — No sábado, ao desembarcar em Porto Alegre, você disse que a Rússia não é uma democracia. Por quê?
Ana Paula — É difícil ver a Rússia como uma democracia num momento em que o sistema judiciário não é independente. Tivemos vários momentos de decisão, e o juiz não estava decidindo nada. Ele estava esperando por um telefonema, e toda a justiça que aconteceu conosco era a justiça dos telefonemas. Eles mudavam as acusações, as decisões. Nunca ninguém é libertado sob fiança na Rússia. Por que fomos libertados sob fiança? Porque eles não aguentavam mais. A bomba estava muito grande. Eles não sabiam mais o que fazer para se livrar da gente. A partir do momento da fiança, imagino que já estava tudo planejado. Em muitos momentos na corte, eu imaginei que, se houvesse um cachorro me defendendo, um cachorro de toga preta no lugar do juiz, um cachorro como procurador e um cachorro como investigador, dava igual.

ZH — O Greenpeace vai continuar a fazer protestos na Rússia?
Ana Paula —
É muito cedo ainda para falar sobre isto. Na verdade, a gente não sabe. A gente tem de pensar em uma estratégia global sobre como impedir que as empresas petrolíferas vão para o Ártico. A gente quer um santuário no Ártico. Não é só contra a Gazprom. A Shell também está indo. Nós vamos manter a campanha porque queremos um santuário no Ártico. Há um longo caminho a ser percorrido. A gente não vai parar enquanto não conseguir. Foram 10 anos de campanha para conseguir um santuário na Antártica. Se forem mais 10 anos para um santuário no Ártico, é isso que vai levar. E a gente vai trabalhar todo esse tempo.

Fonte: Jornal Zero Hora

 

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