Quarta-feira, 25 de março de 2026 - 11h45

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou uma
ação civil pública contra a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq)
e a União para exigir a implementação de fiscalização efetiva no Porto Fluvial
de Guajará-Mirim (RO), na fronteira com a Bolívia. A medida busca combater,
entre outros problemas, a entrada ilegal de mercúrio metálico no Brasil,
substância utilizada no garimpo ilegal de ouro na Amazônia.
Na ação, o MPF requer, em caráter de urgência, que
os órgãos competentes elaborem e executem um plano integrado de fiscalização,
com a adoção de medidas para interromper o uso de instalações portuárias
irregulares, implementar controles aduaneiros e migratórios mínimos e
estruturar adequadamente o porto. Também pede o fechamento definitivo de acessos
clandestinos, o reparo ou substituição do equipamento de raio-x e a presença
permanente de servidores da Receita Federal e de policiais federais no local.
A ação é resultado de investigação que apurou
graves falhas estruturais e operacionais no controle do porto. Durante inspeção
presencial, o MPF constatou que o único equipamento de raio-x disponível,
pertencente à Receita Federal, estava sem funcionar havia longo período. Também
não havia detectores de metal em funcionamento, nem servidores públicos responsáveis
pela conferência de documentos ou inspeção de bagagens.
Mesmo com fluxo médio diário de cerca de 700
pessoas e 90 embarcações – brasileiras e bolivianas – não há controle efetivo
sobre o trânsito de passageiros e mercadorias, o que, segundo o MPF, transforma
o local em ponto vulnerável para práticas ilícitas.
Fluxo clandestino – A investigação identificou
ainda a existência de portos clandestinos nas proximidades da instalação
oficial, utilizados para embarque e desembarque de pessoas e cargas sem
qualquer fiscalização estatal. Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança
Pública, em parceria com a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), apontou
que o principal fluxo de mercúrio com destino a Rondônia parte da cidade
boliviana de Riberalta e ingressa no Brasil pela região de Guajará-Mirim,
transportado em pequenas embarcações e recipientes improvisados.
O MPF apurou que a Antaq já tinha conhecimento da
existência de instalações portuárias irregulares desde 2016, mas não adotou
medidas administrativas eficazes para coibir as irregularidades.
A Polícia Federal informou que conta com apenas um
agente designado para atuação no porto em dias úteis. Já a Receita Federal
reconheceu a fragilidade estrutural da unidade, mas alegou dificuldades para
aquisição de novos equipamentos. A Marinha do Brasil, por sua vez, realizou
1.769 abordagens em 2024. O número é considerado insuficiente diante do fluxo
estimado de mais de 32 mil embarcações por ano.
De acordo com os procuradores da República Andre
Luiz Porreca e Raphael Bevilaqua, que assinam a ação, ao deixar de exercer
adequadamente as funções de fiscalização e controle, os órgãos “acabam por
viabilizar a introdução sistemática de mercúrio metálico no território
nacional. Nesse contexto, a omissão administrativa deixa de ser mera
irregularidade procedimental para assumir contornos de verdadeira contribuição
causal para a perpetuação do dano ambiental, circunstância que os qualifica
juridicamente como poluidores indiretos”, alerta.
A atuação é do 2º Ofício da Amazônia Ocidental,
vinculado à Procuradoria da República no Amazonas, em conjunto com o 1º Ofício
da Procuradoria da República em Rondônia, no âmbito do enfrentamento à
mineração ilegal na região.
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