Terça-feira, 16 de setembro de 2008 - 11h19
Prof. Diogo Tobias Filho*
Homenageamos por tradição no dia 15 de outubro o professor, único trabalhador que se dedica à formação das mais variadas profissões. Lamento serem poucos os iluminados pela benfazeja gratidão que ainda se lembram da primeira professorinha. Eu visitei a minha recentemente e a encontrei abandonada num asilo, pobre de doer, sobrevivendo das doações dos seus ex-alunos de boa cepa, entre médicos, engenheiros, odontólogos, advogados e eu, professor, o mais pobre da antiga turma.
Felizmente, em 2008 está sendo diferente. Com o fabuloso aumento de 4% (parcelado), gentilmente dado pelo Sr. Ivo Cassol, já vivo sonhando com meu 15 de outubro todos os dias; na véspera, após a aula, reunirei a família e me hospedarei na suíte de um hotel 5 estrelas, de modo que, ao acordar, após o lauto café-da-manhã, começarei minha maratona de comemoração. Inicialmente minha família irá até uma concessionária de veículos importados para realizar um sonho antigo: comprar aquele carrão americano, aproveitando o desconto generoso oferecido pelo Governo Cassol no ICMS. O incontestável poder aquisitivo do meu salário me possibilita fugir dessas biroscas motorizadas que os mais simples chamam de carro popular.
Sonhei no almoço pedindo cardápio especial, incluso aí, bacalhau de primeira, champagne francês, filé com nozes americanas, e de sobremesa, deliciosas ameixas européias e maçãs argentinas. Meus filhos certamente não se lembrarão daquela merenda escolar, cujo cardápio se constitui eternamente de sopa, feijão e arroz tipo 2, carne de 2ª, macarrão melequento enfeitado com um galhinho de coentro para enganar a galera. No jantar - à luz de vela - degustaremos caviar com vinho do Porto.
À tarde, o sonho virá com o compromisso principal: a compra de notebooks, câmaras e filmadoras digitais, CDs culturais e livros atualizados, investimento que faço pensando em levar para sala de aula a mais alta tecnologia que o governo alega não ter dinheiro para oferecê-la aos alunos da rede pública. Pretendo ainda me especializar, de modo que, o décimoterceiro salário reservarei para o mestrado no exterior, provavelmente em Harvard nos Estados Unidos, assim aprimoro meu inglês, matando dois coelhos com uma cajadada só. Tudo realizado da forma discreta para evitar a ostentação, aquela doce tentação em mostrar sinais exteriores de riqueza.
Então, a atrevida realidade resolveu me aparecer. O sonho estava maravilhoso até que, num átimo de infelicidade, minha filha me deu um doloroso beliscão, simplesmente para me acordar e lembrar que no dia seguinte, ela iria à escola na periferia de Ji-Paraná e eu teria jornada de trabalho em três colégios para ganhar um pouquinho melhor e tentar viver com mais dignidade. A pequenina alertou-me: as rodas do nosso único meio de transporte estavam precisando de conserto. Graças a esse aumento de 4% que Ivo Cassol me concedeu, saí em disparada, comprei dois pneus novinhos em folha para colocar na minha inseparável bicicleta vermelha, modelo antigo, ano 79, velha e cansada da guerra... Que pena, o sonho acabou!
*O autor é professor de filosofia em Ji-Paraná (E-mail: [email protected])
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