Porto Velho (RO) quarta-feira, 25 de novembro de 2020
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O museu do seringal e um seringueiro nas memórias do seu tempo


 

Quem teve a oportunidade de um dia visitar o Museu do Seringal Vale Paraíso localizado na margem esquerda do Rio Negro Manaus/AM, sabe que de lá

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ninguém saiu da mesma forma que entrou. Estar presente naquele complexo turístico é mais do que conhecer algo diferente, e ir além do ter que se encantar com o que é oferecido pelas belas paisagens naturais.

 O contraste existente entre os modos de vida revelados seja na suntuosa construção do casarão, em comparação a simples morada do seringueiro, também nos pertences e objetos ali encontrados, sendo partes de diferentes ambientes, até a forma de comercio desigual e combinada imposta aos seringueiros da época pelo patrão coronel seringalista.

Conhecer o Museu do Seringal é fazer uma viagem pelo tempo, é viver um pouquinho do passado, é sentir-se parte de uma história que muito contribuiu para o desenvolvimento da Amazônia como um todo. Nessa aventura do conhecer, o visitante vai de encontro também com a memória humana viva, que fazendo parte do museu vai nos fazer conhecer a história por outro olhar, que é a história também da experiência vivida, da vida nos seringais.

Nesse contexto a diretoria do Sindicato dos Soldados da Borracha e Seringueiros do Estado Rondônia, esteve presente no Museu do Seringal, e passou a conhecer  um pouco da história de um seringueiro acreano que nas andanças do seu tempo encontrou seu próprio caminho.

Manoel Henrique de Souza mais conhecido como Jaime, é um seringueiro do velho “tipo” na altura dos seus 73 anos de idade, apaixonado pela floresta, trás recordações do tempo que trabalhou como extrativista nos seringais da região do Acre. Atualmente mora e vive mais no complexo turístico do Museu Seringal Vale Paraíso, do que em seu próprio lar, lugar onde bate ponto todos os dias,esse seringueiro que ainda caminha nas curtas trilhas do museu, realiza com seu trabalho a manutenção da história do Vale Paraíso em consonância com a sua própria história. 

 Jaime é natural do Estado do Acre, nasceu dentro dos seringais, desde menino sempre na companhia dos pais teve a infância de brincadeiras trocada pelo trabalho duro de adulto explorador de borracha.

Lembra esse seringueiro de forma marcante do ano de 1962, em que iniciou mais uma jornada de sua vida de homem da floresta em um seringal chamado Porto Alegre, no leito do rio Purus na região do Acre. Orgulha-se por ser filho  legítimo de soldado da borracha, seu pai o senhor Luíz Henrique um nordestino dono de  uma respeitável coragem,veio do Estado do Ceará  para Amazônia nas primeiras levas da imigração do 2º Ciclo da Borracha no início da 2ª Guerra Mundial, com a finalidade de extrair borracha para o Brasil  enviá-la aos países aliados que lutavam contra o nazismo alemão. Nas distantes terras do Acre, seu pai veio a conhecer sua mãe, na ocasião uma índia pura, legítima da tribo Jamamadi.

O seringueiro que é funcionário do complexo há anos relembra as histórias contadas pelo seu pai, das injustiças e desigualdades cometidas aos seringueiros. Ele próprio seringueiro de sangue e de carteirinha, presenciou em momentos de sua vida de extrativista muitas coisas do tipo que não se esquece jamais.  Conta assim casos que ouviu e até viu, a exemplo o caso de um seringueiro que foi amarrado sob um tronco e queimado com sobras de borracha ( sarnambi), a mando de um Coronel da região. E outros episódios em que alguns seringueiros eram mandados para fundo da floresta, onde sob mira de rifles cavavam suas próprias sepulturas, por não terem aceitado e concordado com os desmandos dos patrões seringalistas. Jaime afirma que trabalhou muitos anos em seringais, portanto sofreu na pele também por ter conhecido  seringalistas que administravam a produção da borracha com mão de ferro, mais parecendo carrascos, um dos casos foi  um seringal onde trabalhou por muito tempo no Estado do Acre.

Esse velho seringueiro desabafa e diz que  tanto seu pai como ele, assim como muitos seringueiros que conheceu trabalharam  sempre para serem explorados, vivendo em condições de absoluta pobreza. Hoje passando a limpo sua história, não guarda mágoa por muita coisa que passou, mas não esquece as vezes que ia prestar contas de sua produção no barracão do seringal Entremari, localizado bem acima da região onde hoje é o município de Boca do Acre, e que não tinha ele o direito nem de sentar-se ao banco para descansar depois de horas e horas de caminhada pela floresta, atividade que fazia sempre, que terminava  mais um ciclo de sua sagrada produção de borracha, levando o produto produzido ao barracão do coronel pelos caminhos da floresta.

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Ele conta também, que suas condições de vida passaram a mudar na década de 80, quando veio de mala e cuia para à cidade de Manaus, lugar que se encantou. O seringueiro relata emocionado que Manaus sempre foi tudo para ele, pois segundo ele próprio, nesta cidade foi onde conseguiu construir sua vida. Afirma que durante anos que trabalhou nos seringais do Acre, nunca conseguira o suficiente para sobreviver, sendo que em muitas ocasiões trabalhou descalço no meio da mata, e quando estava calçado não tinha o luxo de calçar ao menos, um sapato fabricado na cidade, usava quando podia somente sapatos de seringa feito da borracha extraída da floresta.

Hoje Jaime com a aparência já um pouco desgastada, guarda na memória o tempo da sua juventude que foi inteira gasta na floresta, e da alimentação que era baseada no leite da castanha e na carne de macaco. Recorda momentos da vida dura do dia-dia na floresta, das longas jornadas de trabalho, da morte  de alguns companheiros, e também de muitos produtos anotados em seu nome no barracão, que foram descontados de seu saldo, mais que nunca teve o prazer de consumi-los. Ao final da entrevista, Jaime passa a olhar para o fundo da mata do Museu Vale Paraíso e fala da saudade da época em que extraía borracha, e do lado bom de morar e amanhecer com os cantos dos pássaros, com a suave brisa dos ventos dos seringais das florestas por onde passou.

Na companhia de dona Maria Helena também funcionária do museu, mulher devota do catolicismo, o nobre e valente seringueiro se despedi e agradece a  vinda de mais uma visita no lugar que é a sua segunda moradia. 

O Sindicato dos Soldados da Borracha e Seringueiros de Rondônia vem lutando para que os direitos dos seringueiros em vários cantos da Região Norte, sejam reconhecidos pelos esforços que a categoria desde épocas passadas vem dando à nação.

Exemplo disso é uma ação de indenização movida na Justiça Federal pelo sindicato contra o estado brasileiro, pedindo uma indenização aos soldados da borracha pelas graves violações de Direitos Humanos ocorridas à classe na época da 2ª Guerra Mundial nos seringais da Amazônia e décadas posteriores.

Outra bandeira de luta do sindicato é pela aprovação da PEC 320/08 dos extrativistas vegetais, que propõe a regulamentação da profissão e a diminuição da idade para os trabalhadores desse ofício. O projeto ainda tramita no Congresso Nacional, e a diretoria do sindicato vem trabalhando com parlamentares em Brasília pedindo apoio para que a PEC seja votada o quanto antes, o vice-Presidente Carioca espera o comprometimento da Prefeitura de Porto Velho a construir o Memorial dos Soldados da Borracha no Parque Circuito e a Luta Continua.

Fonte: Ascom

 

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