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MERCADO CULTURAL: A MEMÓRIA TRATORADA E A EXALTAÇÃO DA CÓPIA


 

Victor Gabriel*

Há pouco mais de um ano, quando do segundo atentado covarde que varreu do mapa, por definitivo, as últimas reminiscências arquitetônicas originais do antigo Mercado Público do Município de Porto Velho, símbolo de uma era arquitetônica da cidade, marcada pelo estilo neoclassicista eclético, flamejante, vários artigos foram publicados na mídia local, assinados por renomadas personalidades do segmento cultural. Consternados com o sinistro, artistas e intelectuais deitaram opinião sobre o lamentável e traiçoeiro golpe aplicado no nosso patrimônio histórico.

Um equívoco de proporções imensuráveis foi a demolição de um relevante bem cultural do povo de Porto Velho, ícone de resistência da memória local, levando junto, desta vez e para todo o sempre, o originalíssimo Bar do Zizi, fato, inclusive, tão bem abordado por Antônio Serpa do Amaral Filho, no artigo publicado à época sob o título “Morte do Mercado – o solo mais fúnebre do maestro Júlio Yriarte!”. Engrossaram as fileiras dos indignados o advogado Ernande Segismundo, assinando o texto “Mercado Central - Indignações, versões e fatos”; e o Grupo Cidade, Cultura e Inclusão – GCCI (coletivo de artistas e intelectuais empenhados na defesa intransigente da cultura local), publicando o artigo “Entre o pó dos escombros do Mercado Municipal e as cinzas do carnaval”.

Do antigo e legítimo Mercado Público, pela segunda vez vítima indefesa dos arroubos arrogantes de colonizadores aventureiros e analfabetos estéticos, ora da direita ora da esquerda, nada sobrou.  Caçambas e tratores, com possantes esteiras de ferro, conduzidos por exploradores insensíveis, alheios aos estilos arquitetônicos de época, sem compromisso com a história local, avançaram, definitivamente, sobre parte da memória, da história e do patrimônio cultural de caboclos, mestiços, beradeiros, karipunas e karitianas, demolindo, desta feita, o que sobrou da antiga edificação do Mercado Central, sem deixar vestígio algum de um capitulo de nossa insipiente história recente.

Nesta sexta-feira, 15 de maio de 2009, o executivo municipal, iletrado nas formas dos estilos da linguagem arquitetônica e aniquilador algoz e implacável da cultura local, entregará à população da cidade, em especial para o segmento cultural, uma cópia exata do antigo prédio que um dia existiu como o original Mercado Público Central. A cidade será presenteada com um ‘legítimo’ clone sem memória, desprovido das marcas do tempo, sem as chagas que traduzem o fato histórico vivido. Receberemos do poder público municipal – o demolidor de memórias - uma edificação clonada daquela que outrora fora uma imponente e legítima arquitetura do nosso histórico Mercado Público.

Não se trata de uma atitude redimida e justa da autoridade humana que reconhece o erro. Trata-se, pois, de uma ação equivocada em sua origem, assentada na petulante concepção de alguém que pensa por todos e decide sozinho, sem dar ouvidos aos atores sociais - atuantes no segmento cultural. E, menos ainda, a cópia do Mercado Cultural não é um produto resultante de olhares atentos e sensíveis de gestores públicos que contemplam as experiências exitosas de cidades vizinhas, como Rio Branco, no Estado do Acre, inclusive conduzida por companheiros da mesma legenda partidária que administram a cidade de Porto Velho, que naquela capital tem desenvolvido importante e imponente programa de revitalização do centro antigo da capital acreana, respeitando a história daquele povo.

No que diz respeito às cópias, dois pesos e duas medidas norteiam as atitudes da prefeitura de Porto Velho, no campo da institucionalização das políticas públicas, aplicadas em qualquer que seja a área de atuação do nosso executivo municipal.

Temos assistindo por meio da mídia local, em especial dos jornais eletrônicos, as inúmeras diligências de ficais da Secretaria Municipal da Fazenda, resguardadas por equipes de Policiais Militares, percorrendo as principais vias do comércio central de Porto Velho, com a antipática missão de confiscar produtos pirateados, principalmente milhares de cópias de CD’s e DVD’s. De um lado, a força pública, estrategicamente posicionada sobre fortes argumentos de se combater a evasão de milhares de reais que deixam de entrar nos cofres públicos, sob forma de impostos não recolhidos, desviados a partir da comercialização de produtos falsificados - cópias e arremedos esdrúxulos clonados, criminosamente, de produtos e objetos originais -, fartamente vendidos nas vias púbicas da cidade. Do outro lado, o trabalhador informal, desempregado, entrincheirado no comércio de quinquilharias falsificadas, buscando uma forma de sobrevivência, enquanto foge da autoridade policial e dos ficais da fazenda, combativos e implacáveis confiscadores de mercadorias falsificadas.

Todo e qualquer cidadão probo e reto, com posturas ancoradas na ética, no respeito e na verdade, que se colocar, porventura, diante deste dilema atroz, certamente se posicionará, sem hesitar, nas fileiras do combate ao crime, à falsificação e à cópia.

Contudo, temo que este mesmo munícipe ético e sério, provavelmente analfabeto estético, durante o evento de inauguração do ‘velho-novíssimo’ Mercado Cultural, esteja orgulhosamente, sentado nas primeiras fileiras de cadeiras, entusiasmadamente ovacionando, na condição de subserviente inconsciente, a autoridade apagadora de memória. E, feliz, aplaudirá a extinção de sua própria história, exaltando a cópia sem memória, imposta como símbolo de uma nova era de preservação do bem cultural público.

A cópia tem se colocado como instrumento contumaz e conquistado relevantes espaços e mentes nas sociedades modernas, facilitada pelo extraordináio advento da rede mundial de computadores. A cultura do “control c control v”’ (copiar e colar) marca profundamente, por exemplo, as atitudes de alunos internautas de todos os níveis de ensino. Sobre este tema, o da cópia descarada e abundante, Roberto Farias (recentemente falecido) e Sonia Sampaio, Professores do Departamento de Línguas Vernáculas da UNIR, com muita propriedade falam a este respeito, em Artigo intitulado “O que é um texto? Revisitando um tema já antigo”, publicado no livro Formação Docente e Estratégias de Integração Universidade/Escola nos Cursos de Licenciatura, vol. II, organizado por Nair Ferreira Gurgel do Amaral e Tania Suely Azevedo Brasileiro. No artigo, os professores exemplificam seus raciocínios, citando um fato ocorrido na campanha eleitoral de Porto Velho em 2004, quando “um candidato foi acusado publicamente de plagiar, em sua dissertação de mestrado, passagens de trabalho já publicado. O episódio (...), curiosamente, não encontrou eco nos eleitores (...). A denúncia não alterou o resultado da eleição na medida em que o candidato foi eleito (...)”.

Como podemos observar, a cópia não é mérito apenas de marginais e vendedores ambulantes de CD’s e DVD’s, de quinquilharias e bugigangas pirateados, meide in China. Vai além, muito além do alcance da razão, e se coloca para nós como políticas públicas assertivas para preservação do patrimônio cultural.

Resta-nos um consolo: o tempo é o senhor da razão e, certamente, fará a distinção entre o joio e o trigo. O antigo Mercado Público, hoje Mercado Cultural - também apelidado e já conhecido como o Mercado Cotó, tal qual as idéias de quem o concebeu - de uma forma ou de outra, entra para a histórica da arquitetura desta cidade, seja pela bizarra história do original demolido propositalmente ou pela cópia, sem sentido, erguida – um falso fausto - para substituir o original. Fica-nos a lição de aprendermos com os nossos erros. Quanto ao gestor público, autor da façanha que ‘tratorou’ e decretou o fim de uma edificação histórica e emblemática, por sua atitude covarde e insensata, aplicada ao campo das políticas públicas para preservação do patrimônio, este, certamente, passará à história da cultura do município de Porto Velho, entrando pela sombria porta dos fundos da história oficial, como o grande realizador de fiascos artísticos. O entregador de falso ouro.

(*) Aluno do Curso de História da Universidade Federal de Rondônia e músico.   
[email protected].

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