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história do computador popular e a inclusão digital


Engel Paschoal* - Agência O Globo A inclusão digital começa pelo computador. Então, o Brasil foi atrás do computador popular. Vou tentar resumir a história, cujo primeiro registro é de 2001. A matéria "PC à baiana" (NO. 17/4/01) dizia que a Bahia entrava na briga dos computadores populares. Responsável pela produção de 15% dos micros de todo o País - cerca de 240 mil/ano -, o Pólo de Ilhéus trabalhava num protótipo popular de PC desenvolvido pelo Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos, Computadores, Informática e Similares dos Municípios de Ilhéus e Itabuna (Sinec). A rigor, o título da matéria também devia ter um "à mineira" por que o NO. falava ainda de outro computador para os de baixa renda, "lançado pelo Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais" a pedido do Comitê Gestor da Internet. A idéia, claro, era unir os esforços baianos e mineiros. Tanto que um mineiro foi a Ilhéus conhecer a proposta baiana. Não havia previsão de preço, mas ele não deveria ultrapassar os R$ 500 estipulados pelo Ministério das Comunicações. As premissas básicas eram financiamento do BNDES para compra de peças, isenção total de impostos e financiamento, via uma instituição, para o consumidor final. Na Folha de S.Paulo (28/4/01), segundo o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, "o computador, com capacidade para acesso à internet, será lançado comercialmente no segundo semestre do ano, ao preço equivalente a US$ 250,00 (R$ 550,00)". Ali o PC baiano sumiu do mapa, pois a matéria se restringia ao PC mineiro, chamado de "pé-de-boi" pelo ministro. Segundo Pimenta da Veiga, "seis fabricantes nacionais - entre eles a Itautec, a Gradiente e a Samurai - já teriam desenvolvido protótipos do computador projetado pela UFMG". E a matéria terminava mostrando que, no preço, ele não era tão "pé-de-boi" assim: "A Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) estudou, a pedido do governo, o custo mínimo de produção de um computador pessoal e chegou à cifra de R$ 1.200,00". Ou seja, mais que o dobro dos R$ 550,00. Mesmo não tão barato, o PC era bom negócio. Tanto que o SBT e a Microsoft lançaram o "PC do Milhão" (Valor, 4/5/01). Afinal, o Sílvio Santos e o Bill Gates sabem ganhar dinheiro. Dizia o jornal que o dono do SBT "vai pegar carona na grande audiência do programa 'Show do Milhão' para vender computadores. Junto com a Microsoft, três fabricantes e outros parceiros, o apresentador está lançando no mercado o 'Computador do Milhão', uma máquina básica que será vendida em até 36 prestações de R$ 91 - ou R$ 88, se for com cheque pré-datado. À vista o computador custará R$ 1.928". Bom, à vista, o preço já superava o da Abinee em R$ 728,00 e era quase quatro vezes os R$ 550,00 de Pimenta da Veiga. Mas o Valor continuava: "O banco PanAmericano, braço financeiro do grupo Sílvio Santos, financiará os equipamentos em até 36 meses. Os juros serão de 3,2% ao mês, o que eleva o valor de cada computador para R$ 3.276,00. Segundo especialistas em crédito, a venda de equipamentos de informática com prazo superior a 12 meses é de altíssimo risco". A notícia "Computador popular agita setor de informática" (O Estado de S. Paulo, 4/5/01) dava a dimensão do negócio. Segundo o diretor-geral da Microsoft do Brasil, Mauro Muratório Not, dos 10 milhões de computadores em operação no Brasil apenas 3 milhões pertenciam a consumidores residenciais, sendo 70% destes nas classes A e B. A matéria ainda dizia que o presidente Fernando Henrique Cardoso era um dos maiores entusiastas do PC popular. Com a matéria "Brasil busca Inclusão Digital em 2 anos" (Rets - Revista do Terceiro Setor, 4/5/01), dava para entender porque se falava tanto do assunto na época: de 14 a 17 de maio ia acontecer a Oficina para Inclusão Digital, em Brasília: "O evento marcará o ponto de partida para uma série de debates e palestras sobre a questão da universalização do acesso à internet no Brasil". E a realidade era esta: num país de 5 mil municípios, apenas 300 tinham acesso à internet. Três anos depois, mesmo com o governo - leia-se Lula - retomando o projeto do PC popular (Folha de S.Paulo, 10/8/04), ficamos sabendo que a idéia deu em nada. Agora a Folha de S.Paulo ("Parceria com rede varejista impulsiona fabricante de PCs", 10/10/06) trouxe o final da história: o "caminho do Positivo até a liderança na venda de computadores no varejo passou por uma bem-sucedida aliança com o Magazine Luiza, rede que possui 350 lojas em sete Estados do país [...] A redução no preço das máquinas e o financiamento oficial permitiram que consumidores da classe C tivessem acesso ao produto". A Rede Positivo surgiu há 34 anos como cursinho pré-vestibular em Curitiba, PR. Soube crescer no campo da informática, gráfico-editorial e tecnologia da educação. E mostrou que também ali o governo não precisava se intrometer: a idéia começou e terminou na iniciativa privada. (*)Engel Paschoal ([email protected]) é jornalista, especialista em assuntos relacionados ao chamado Terceiro Setor, e realiza cursos e palestras sobre Responsabilidade Social. Este artigo somente poderá ser reproduzido ou publicado com autorização prévia do autor.

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