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CRÔNICA - BOCAS MODERNAS (PARTE I)



Todos são iguais quando nascem. Diz o artigo primeiro dos direitos universais do homem. Todos os homens nascem sem dentes para cumprir os desígnios da lei dos homens. Até aí tudo bem, na forma da lei. Depois eles nascem de leite, brancos, tenros, saudáveis e ficam ali, na boca por algum tempo. Como imensa graça os dentinhos mordem e depois eles passam. Não tarda o desdireito a se acabar de vez. A cárie dental, forte e endêmica, passa como um vento da morte pelas bocas de milhões de brasileiros. Que mutilados perdem o brilho do sorriso. Bloqueia no primeiro portal a função básica e essencial da digestão. 

Foi-se o direito de mastigar. Ganha-se outro que é o de engolir inteiro. Ou em pedaços a vida continua goela abaixo e de tão raros, tudo o mais parece, que ter dentes brancos, seja graça e honra das minorias. Privilégio encantado para o mundo das maravilhas. Quero propor um negócio com você – eu troco o meu celular por um dente sadio. 

Bem que a evangelização poderia começar pela boca. Rogai por nós pecadores, que desde o princípio, como peso pesado, seguimos o calvário de tantas cáries, de dentes furados, cariados, perdidos, arrancados, que vão se tombando, um a um, ou chacinados em bloco. Que país é este? De humanóides mandibulados e desdentados? Que mesmo assim fala soprado ao seu celular pré-pago. 

É a triste sina da regra geral. E o mais irônico de tudo isto, que do alto do artigo 196 da Constituição Federal estampa com grandeza incomum - A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. 

Como é fácil fazer leis. 

Onde estão meus dentes brancos? Como aqueles que me nasceram de leite, tão raros e passadiços enquanto guardo lembranças. Será que não os terei permanentes, servíveis e magnânimos? Quanto me custará uma boa mordida, um doce beijo de dentes trinando como os sinos que si tocam. Não aceito o destino como direito. Nem como justificativa do descumprimento da lei. Nem porque tudo deve ser sempre assim. E a boca excluída do tubo digestivo, como se fosse uma sinistra embocadura de um portal tenebroso.

Fonte: Confúcio Moura

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