Porto Velho (RO) quinta-feira, 26 de novembro de 2020
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CONFÚCIO MOURA: AS COLINAS VERDES




O carro gemia subindo a ladeira. Longe a vista descansava na paisagem ondulante. E tudo se abria devagar. Imenso vestido verde mudava de cor diante do sol. As coisas misturam-se em luminescência como se fosse outro planeta. As quebradas do solo tremiam. 

Do alto da terra revolta, outeiros cobertos pelo mar de floresta. Ela guarda o segredo – os índios URU EU WAU WAU, seres frágeis, pequenos, quase extintos. Moram nas imensidões, como se tivessem guardados, desde o sempre e por todos os tempos. E tudo é calmo e grande. A não ser aqui e ali um entrevero com o homem branco a lhes furtar madeira, palmito, peixe ou minério. Ou ainda um tiro abafado nos fundos das paisagens e tomba mais um Uru. E foram muitos os que foram assassinados. Apoena Meireles protegeu-os com astúcia e sabedoria. Bateu o martelo do leilão da história – quase dois milhões de hectares de encostas e vales– que se interligam os dois infinitos da visão humana. 

E vou entrando numa bacia. O sol descansa no fundo dela. E tudo brilha como espelho. As fazendas pintadas com pontos brancos que se mexem. É o boi. A vaca de leite. A casa bem feita. A antena parabólica. Não vi os cafezais em flores. Mais longe sombra dos telhados. É Colina Verde. Nem precisava do nome porque não se teria outro melhor. De singelo povoado de posseiros a um assentamento regular bem habitado. Um distrito estratégico parece ali construído como uma fortaleza militar. Os montes transformam-se em muralhas. Quem sabe não tenha sido uma criação dos Urus? O exército inimigo seria facilmente ali abatido. Mais ou menos como Canudos na Amazônia. As igrejas são muitas. Escola apenas uma. Mais de dois mil eleitores. Um centro de saúde diferenciado com leitos. Muitas lojas e mercados. E se entrecruzam nas ruas a motocicleta e o cavalo. 

O desgosto, por maior que seja ali se abate. Basta beirar a mata e olhar o entorno. Quando cai a tarde os bandos de araras saem dos seus restaurantes, no alto da serra e mergulham para o fundo do vale como se fossem mísseis guerra. A tagarelice de metralhadoras e um sobrevôo rasante sobre Colina Verde. E estiram-se em esquadrilha para o infinito verde do outro lado da serra. E as cortinas vão se fechando. Daí a pouco tudo se acalma diante da grandeza. O que é um simples ser humano diante do oceano? E da imensa paisagem em arte raríssima? Onde a luz brinca na folha. E a pedra silenciosa conversa baixinho. E os bichos do mato brincam com as águas. E os igarapés somem de medo entre as rochas do caminho. Montes que escondem o nascente e o poente. Como se tudo isto fosse perigoso à visão humana. Tem hora certa de a cidade clarear. E sempre escurece mais cedo. 

Jamirão, Maria do Posto, José Fininho estão por lá. Equilibrando todos os mistérios do lugar. Cortei a volta e subi a ladeira rumo a Cacaulândia. E vou subindo e rugindo forças, aquele flanco virou pasto. Fundo verde pontilhado de nelore. Subi e agora desço. Abre-se um desvão imenso, a garganta da serra, como se ali há milhões de anos vulcão incandescido tivesse alterado a geografia. E o leito rasgado tivesse escorrido a lava quente. Estou na Linha Zero. Entro no desfiladeiro. A pobre serra florestada ficou calva. Talvez o tempo. A mão do homem. Bananal abandonado. Foi do José Andrade, mais embaixo, do Gentil, Ademir Rosseto, João Goiano, Agenor Viana. E muitos outros mortos ou vivos que sombreiam memórias. 

O homem astucioso foi serpenteando a resistência da elevação. Ali foi igreja. Não é mais. O posto de saúde, não é mais. Tudo é pasto. Raros pés de mangas onde foram sedes das fazendas. A cerca de arame estabelece o limite da posse. Escombros da máquina de arroz que foi comunitária quando ainda se plantava arroz. Dois peões laçam um boi no campo aberto. O Rio Quatro Cachoeiras se estanca nos bancos de areais. Papagaios, periquitos e araras fazem festas. Perseguindo-nos para fora de seus domínios. 

Os garis varrem a cidade de Cacaulândia. Empurram carrinhos de coleta do lixo. A cidade bem cuidada. Ainda resistem por ali o sangue de João Falcão Metzker e Zeca Batista. Dois baianos pioneiros e plantadores de cacau. E as ruas se enchem de bisnetos e tataranetos. Bortolotos e Biffs. E se chocam intimamente o Nordeste com o Sudeste, a Bahia entrando no Rio Grande do Sul e foram se estabelecendo num pacto de amor eterno. 

Tudo foi se modificando com o galgar do tempo. Colina Verde com sua aldeia de brancos e mestiços. Num respeito quase desrespeitoso com os índios. Do outro lado da quase cordilheira está a planura do outro mundo. Um desvão, eu disse, mas, um Brasil profundo conectadíssimo, Internet, antena parabólica, telefonia, TV tela plana. Informação em tempo real. Nunca houve um longe tão perto como Colina Verde. 

Fonte: Confúcio Moura

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