Domingo, 16 de novembro de 2025 - 08h05

“É
necessário se espantar, se indignar e se contagiar,
só assim
é possível mudar a realidade”
Nise da
Silveira (médica psiquiatra)
Tem se tornado lugar comum a
participação ativa de grupos lobistas pró-energia nuclear na mídia, com
campanhas publicitárias e esforços de relações públicas destinados a melhorar a
imagem da fonte de energia e influenciar a opinião pública e decisões
políticas. Manipulações retóricas, desinformações, falta de transparência,
omissão de dados, negacionismo, táticas de intimidação e mesmo de ameaças,
fazem parte desta agressiva atuação. Recusam intencionalmente em admitir fatos
e evidências técnico-científicas comprovadas sobre a insegurança e a inviabilidade
das usinas nucleares, frequentemente com o objetivo de distorcer a realidade
para interesses específicos.
Estão convencidos que na última
reunião de 2025 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão de
assessoramento da presidência sobre questões energéticas, será aprovado a
continuidade da construção da usina nuclear de Angra 3, obra iniciada a mais de
40 anos, e consequentemente “abrir a porteira” para nuclearização do país.
Foi criado uma grande expectativa
nas 3 últimas reuniões do CNPE para que fosse pautado este tema, defendido
arduamente pelo ministro das “boas ideias”, Alexandre Silveira, ministro de
Minas e Energia. O mesmo defende usinas nucleares de pequeno porte na Amazônia,
o uso do petróleo “até a última gota”, os combustíveis fósseis como carvão
mineral e o gás natural em termelétricas, além do avanço da exploração do
urânio, para reforçar a segurança nacional, a defesa (?) do país, ou seja,
construir a bomba atômica.
Além da população ser contra
usinas nucleares, setores do próprio governo federal, como o Ministério da
Fazenda e Ministério de Meio Ambiente questionam esta insanidade. Pois além de
neutralizar os esforços de barateamento dos custos da energia elétrica
perseguido pelo governo federal, atenta gravemente o meio ambiente e as
pessoas, com a possibilidade de vazamento e liberação de radioatividade na
extração do urânio.
Os argumentos repetidos à
exaustão pelos lobistas chega ao extremo da chantagem, ao afirmar que os
minérios estratégicos (urânio incluído) e o petróleo é que garantirão os
recursos financeiros para financiar a transição energética. Infelizmente
entendem a transição, como mera transação, privilegiando o balcão de negócios
bilionários em torno da expansão das desnecessárias usinas.
Os mais tresloucados colocam a
energia nuclear como uma salvação do clima, como se fosse mais
sustentável que as fontes renováveis (sol, vento, água, biomassa), cujo
potencial no Brasil é extraordinário, chegando ao disparate de denominar a
nucleoeletricidade de “energia limpa”.
Não existe nenhuma base
científica na afirmação de que as usinas nucleares garantem a segurança
energética, outro mote utilizado com frequência. Definida como “a
capacidade de um país ou região garantir o fornecimento ininterrupto, confiável
e a preços acessíveis de energia para atender às necessidades da população e da
economia”. Nem em relação à capacidade instalada, nem a preços acessíveis vale
esta afirmação em relação à energia nuclear. Muito menos a hilária afirmativa
de que novas usinas nucleares evitarão os apagões.
Atualmente o pais dispõe de menos
de 2% de eletricidade nuclear injetada na matriz elétrica, e mesmo com o
término de Angra 3, e de mais 10.000 MW até 2050, como propõe o Plano Nacional
de Energia, a contribuição nuclear não vai ultrapassar 4% da potência total
instalada, valor extremamente irrisório de capacidade para garantir segurança
do setor energético. E em relação aos custos da energia nuclear estes valores
são comparáveis aos das termelétricas a combustíveis fósseis, em torno de 4 a 6
vezes maior que o das fontes solar e eólica. Valores estes apresentados
em recente estudo (mencionado na mídia, mas não disponibilizado publicamente)
realizado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social),
sob encomenda do CNPE.
Este estudo, segundo fragmentos
divulgados, indica que concluir a construção da usina nuclear Angra 3 é a opção
mais econômica (?) e benéfica (?) para o Brasil, em comparação com o abandono
do empreendimento. O estudo oculto conclui que o custo do cancelamento da obra
seria de R$ 22 bilhões a R$ 25,97 bilhões, enquanto o valor estimado para
finalizar seria de R$ 23,9 bilhões, levando a mídia, em particular da extrema
direita, a antecipar que é mais vantajoso terminar Angra 3, do que abandonar o
projeto. Estes números carecem de uma análise técnico-econômica isenta, onde as
premissas, as hipóteses são apresentadas claramente. Da forma apresentada é
mais uma estratégia propagandista, utilizando para tal a credibilidade dos
técnicos do BNDES.
É apontado também pelo
estudo-fantasma que a energia gerada para cobrir os custos e garantir retorno
ao investimento deve variar entre R$ 778 a R$ 817 por MWh. Valores
inverossímeis, que devem passar pelo crivo da isenção, para que estes valores
sejam realmente verificados, e como se chegou a estes números.
A falta de transparência é
utilizada como arma para credibilizar os negócios nucleares no Brasil, como
solução ao aquecimento global e para atender a demanda crescente por energia
elétrica, em particular dos “data centers” que processam informações para a
inteligência artificial. São os mesmos países que causaram a crise climática
que agora expandem suas infraestruturas destrutivas nos territórios do Sul
Global, transferindo os custos socioambientais.
Não se deve esquecer dos
episódios controverso que atestam a falta de credibilidade do setor nuclear
brasileiro (www. https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/108097/programa-nuclear-brasileiro--pau-que-nasce-torto-morre-torto).
Mais recentemente o desgaste da Eletronuclear, responsável pelas usinas, ficou
bem evidenciado, diante de uma crise financeira. Com um rombo em suas contas no
final de outubro de 2025, a Eletronuclear (sempre ela sumidouro do dinheiro
público) solicitou um aporte de R$ 1,4 bilhão ao governo federal para cobrir
suas contas. Neste mesmo mês a Eletrobras (atual, Axia Energia) concordou
em vender sua participação de 68% na Eletronuclear para a Âmbar Energia,
empresa do grupo J&F, por R$ 535 milhões, em uma operação ainda não
esclarecida totalmente, que levou a participação de um grupo econômico que não
tem nada a ver com energia, a entrar em um negócio de tamanho risco
econômico-financeiro. O passado e presente das empresas dos irmãos
bilionários donos da J&F holding estão repletos de notícias nas páginas
policiais.
Esses e outros episódios
aprofundaram perante a opinião pública o crescente descrédito sobre o desempenho
da indústria nuclear, e de seus gestores, privilegiados com supersalários. O
desgaste da Eletronuclear (responsável pelas usinas) fica mais evidenciado,
diante de sua crise financeira com uma política de demissões em massa, que
acabou levando à greve trabalhadores das usinas e da parte administrativa.
Mesmo diante da contradição entre
o discurso e a ação quando o assunto é energia, se espera que o programa de
construção de usinas nucleares e a expansão da mineração do urânio seja
interrompido. Que se torne efetivo o que disse o presidente Lula na 4a Cúpula
da Celac-EU (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos e da União
Europeia) realizada em Santa Marta, na Colômbia em 9/11 que “a América Latina é
uma região de paz que quer permanecer desta maneira”. Neste contexto a não
nuclearização do Brasil deve acontecer, e servir de exemplo para toda América
Latina. Não prosseguir com a construção de usinas nucleares, e desenvolver a
cadeia nuclear para construir a bomba atômica, como prega o ministro de Minas e
Energia, Alexandre Silveira, é um ato concreto de que somos efetivamente pela
paz.
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