Quarta-feira, 1 de abril de 2026 - 08h31

O diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro
Autista (TEA) em adultos costuma provocar uma mistura de sentimentos como
alívio, dúvidas e interpretações equivocadas, como associação com inteligência.
A condição segue cercada de desinformação, independentemente da idade. O que
acaba gerando muitas dúvidas.
O TEA é uma das principais condições
neurodivergentes, caracterizado por diferenças na comunicação social,
comportamento e processamento sensorial. Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), cerca de 70 milhões de pessoas vivem com o transtorno no mundo. No
Brasil, o Censo Demográfico de 2022 aponta 2,4 milhões de diagnósticos, o
equivalente a 1,2% da população.
Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra
tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional. Essas
pessoas, muitas vezes classificadas no nível 1 de suporte, conseguem estudar,
trabalhar e se relacionar, o que contribui para que sinais passem
despercebidos. Ainda assim, é frequente o relato de sensação de desconexão e dificuldade
de pertencimento, que leva à busca por ajuda psicológica.
Em muitos casos, o TEA aparece inicialmente
associado a quadros como ansiedade, depressão ou fobia social. Também há
confusão diagnóstica com TDAH e altas habilidades, além da possibilidade de
comorbidades.
Quando o diagnóstico é tardio, o prognóstico tende
a ser mais desfavorável, e o nível de incompreensão aumenta — tanto por parte
das pessoas ao redor quanto da própria pessoa em relação ao seu funcionamento.
Com frequência, observo pacientes relatarem que
percebem e sentem o mundo de forma diferente, além de enfrentarem dificuldades
para manter o convívio social. Diante disso, muitos iniciam tratamento para
depressão ou fobia social e, apenas posteriormente, recebem o diagnóstico de
TEA.
O momento do diagnóstico pode gerar reações
diversas. Há quem sinta alívio ao se compreender, enquanto familiares podem
expressar sentimento de culpa por não terem percebido alguns sinais. A falta de
informação também faz com que alguns adultos resistam a se reconhecer como
neurodivergentes.
É importante destacar que o TEA - assim como o TDAH
e outros transtornos - não tem relação com nível de inteligência. Quando se
fala de TEA, estamos falando de um cérebro neurodivergente que tem uma alteração
no funcionamento cerebral, que pode coexistir tanto com déficits quanto com
altas habilidades.
Sem diagnóstico, as experiências podem parecer
incoerentes e gerar culpa. Com a identificação adequada, a psicoterapia se
torna além de um espaço de escuta, um espaço de construção de estratégias
práticas, transformando dificuldades difusas em caminhos possíveis de
adaptação, estratégias concretas e qualidade de vida.
(*) Ellen de O. Moraes Senra é Psicóloga Clínica
(CRP 05/42764), Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e Terapia do
Esquema, Formação em TDAH adulto e Pós-graduação em TDAH avaliação e
intervenção. Ellen também é CEO do Espaço Psicontemplando, autora de livros
infantis na área da psicologia e coordenadora editorial de títulos diversos.
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