Domingo, 19 de abril de 2026 - 10h44

“O drama não é que as pessoas tenham opiniões,
mas sim que as tenham sem saber do que falam”
José Saramago (escritor português premiado com o Nobel de
Literatura em 1998)
Na disputa
eleitoral de 2026, além da escolha para governador, deputado estadual e federal
e senadores, teremos a escolha para presidente. Uma eleição singular, plebiscitária,
pois de um lado está a pré-candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, um
democrata inconteste, tendo como principal adversário, um ilustre desconhecido
do povo brasileiro, extremista de direita, cujo cartão de visita é ser filho de
Jair Bolsonaro, ex-presidente, julgado, condenado e preso. Atualmente em prisão
domiciliar, pelo planejamento e tentativa de golpe de Estado, e cuja família e
seus adeptos são conhecidos por apoiarem a ditadura cívico-militar de 1964.
Neste contexto
ocorrerão as eleições deste ano, cujo pano de fundo torna a eleição de 2026
nacionalizada. O eleitor de todos os rincões é quem decidirá: democracia ou
fascismo. Não será uma simples escolha e disputa partidária, mas civilizatória.
Em
Pernambuco, terra do auto intitulado “caçador de raposas políticas” – o
ex-governador e ex-candidato a presidente da República, o falecido Eduardo
Campos – criticava a "velha política" que, segundo ele, predominava
no governo Dilma Rousseff, e dizia que o Brasil precisa "tirar as
raposas" de Brasília. Estava em plena campanha para presidente da
República.
Lembrei
deste fato, quando agora, 12 anos passados seu filho João Campos, ex-prefeito
do Recife, e pré-candidato a governador do Estado, concorrerá com a atual governadora,
candidata à reeleição, e cuja família sempre esteve ao lado dos Campos,
inclusive o pai de Raquel foi vice-governador do próprio Eduardo. A base de
apoio durante seus dois mandatos (2007 a 2014) foram repletas de figuras e
famílias que representavam o que ele chamou de “raposas políticas”. Nada
difere atualmente, pois tanto do lado de João Campos, como de Raquel Lyra as
“raposas políticas” estão presentes, e independente de quem ganhe permanecerão
no poder.
Um dos temas
de grande repercussão no eleitorado é sobre a privatização. Depois do desastre
para o consumidor e a população em geral, com a privatização no ano 2000 da
Companhia Energética de Pernambuco-Celpe (atual Neoenergia Pernambuco), as
promessas de alcançar a modicidade tarifária, de mais investimentos, e de
melhoria da qualidade dos serviços prestados pela empresa, não foram cumpridas.
Ao contrário, as “contas de luz” subiram a patamares bem superiores à inflação
(2 a 4 vezes), e a qualidade dos serviços despencaram, além dos lucros exorbitantes
diante da realidade econômica do país.
Depois de 10
anos da privatização da Celpe, em julho de 2010, pesquisa realizada pelo
Instituto Maurício de Nassau para entender “O Que Pensa o Eleitor
Pernambucano?”, virou livro, assinado pelos pesquisadores Adriano Oliveira,
Carlos Gadelha Júnior e Roberto Santos. Na pesquisa, 70% das respostas
reprovaram a privatização, e apenas 14% eram favoráveis à venda da estatal.
Hoje não tenho a menor dúvida que a reprovação da população pernambucana se
aproxima dos 100%. Mesmo com essa quase unanimidade, sem amplo debate com a
sociedade, foi antecipado a renovação do contrato de privatização da Neoenergia
Pernambuco, que iria expirar em 2030. Em setembro de 2025, foi assinado a
prorrogação do direito da empresa de distribuir energia elétrica no estado até
30 de março de 2060.
Muita pouca
coisa difere de ambas pré-candidaturas a governador em Pernambuco, a não ser a
luta pelo poder. Um dos pontos é sobre a privatização, agora da Companhia
Pernambucana de Saneamento (Compesa). Não somente defendida pela atual
governadora, como também implementada na sua gestão, no leilão realizado em 18
de dezembro de 2025, cujo consórcio ganhador (formado pela Acciona e BRK
Ambiental, além do fundo Pátria Investimentos) fará a distribuição de água e
esgotamento.
Como quem
foge da cruz, o governo estadual tem evitado falar diretamente em privatização.
Prefere o termo “concessão”, que nada mais é do que uma forma de privatização.
Tenta assim confundir o eleitor. Por outro lado, João Campos na sua gestão
frente à Prefeitura de Recife, ficou marcada por uma política de privatização
de espaços públicos, como a orla de Boa viagem e de Brasília Teimosa os parques
de Dona Lindu e Apipucos, e do centro histórico (Distrito de Guararapes).
Defendida por argumentos conhecidos e rechaçados pela população, o modelo tem
sido criticado pela elitização, com perda de acesso público, e altos custos do
estacionamento e de outros serviços oferecidos.
Estes
pré-candidatos à frente da disputa, infelizmente não oferecem à população
propostas que visem um futuro mais próspero, com maior bem-estar social real as
populações. Ambas candidaturas estão infiltradas de forças retrógradas,
extremistas, que sob o pretexto de defenderem valores tradicionais, a liberdade
de expressão, atacam a democracia. O risco que os fascistas, a extrema direita
representa não é retórico, é real, e devemos cobrar de todas as forças
políticas progressistas que repilam as forças reacionárias, a começar por
Pernambuco. No mínimo é isto que esperamos dos contendores.
____________________
* Professor associado
aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e
Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e
doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de
Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
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