Terça-feira, 19 de maio de 2026 - 08h05

“O velho mundo está morrendo. O
novo demora a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”
Antonio Gramsci (político italiano, filósofo,
escritor, jornalista, crítico literário, historiador)
O debate sobre os "inimigos
do povo" no contexto atual, tem se concentrado na resistência empresarial,
de políticos de extrema direita, e de corporações de comunicação, à redução da
jornada de trabalho, especificamente o fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho
por um de descanso) em direção a uma escala 5x2 ou 4x3.
Movimentos sociais,
sindicalistas, cidadãos, trabalhadores acusam parlamentares fisiológicos e
clientelistas do Centrão (formado por membros dos partidos: PL, União Brasil,
PSD, PMDB, PP, Republicanos, Solidariedade, Podemos e Avante) e da
extrema-direita de agirem como "inimigos do povo" ao dificultarem
aprovação de projetos que beneficiam os trabalhadores, os mais vulneráveis, no
caso do fim da escala 6x1, e da redução da carga horária laboral, sem redução
salarial. Além de apoiarem ao longo desta última legislatura, temas que mais
interessam à extrema direita, ao capital e ao “mercado”, em detrimento das
proposições que levem em conta a qualidade de vida dos trabalhadores, a
valorização da classe trabalhadora.
Ao tomar a decisão histórica de
propor a redução da carga horária semanal de trabalho, o presidente Lula
encaminhou no dia 13 de abril uma mensagem presidencial ao Congresso Nacional
com o Projeto de Lei 1838/2026, em regime de urgência, para acabar com a escala
6x1, reduzindo a carga horária máxima de 44 horas para 40 horas semanais, sem
redução de salário. Assim, alterar diretamente a Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT) e legislação específica, com aplicação imediata das mudanças sem
regras de transição, logo após a sanção presidencial. Atendendo assim o clamor
da maioria absoluta da população que apoia a jornada com dois dias de descanso
remunerados.
Na disputa com o Planalto, o
presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, decidiu ignorar o PL do
governo. Como já existiam duas propostas de emenda à constituição (PEC) na
Câmara para abolir a escala 6x1, foram “resgatadas” e colocadas em votação se
estavam ou não de acordo com a Constituição, sua admissibilidade. Por
unanimidade foi aprovada no dia 22 de abril, pela Comissão de Constituição e
Justiça e de Cidadania (CCJC), as PEC 221/2019 e PEC 8/2025, associadas aos
deputados Reginaldo Lopes (PT/MG) e a Erika Hilton (PSOL/SP).
Foi então criada pela presidência
da Câmara uma Comissão Especial para analisar o mérito das propostas. Correndo
contra o tempo, antes que vença o prazo regimental de votação do PL do governo
federal, que ao ser encaminhado em regime de urgência obriga ser votado em dois
turnos pela Câmara e 2 turnos pelo Senado, no prazo de 45 dias. Caso contrário
bloqueia o funcionamento parcial e impede votações no plenário.
Audiências públicas estão
ocorrendo na Comissão Especial recebendo integrantes das associações patronais,
acadêmicos, pesquisadores, representantes dos sindicatos, e do governo, para
discutir, ouvir, e apresentar proposições que atendam os segmentos
interessados. É esperado que até o final do mês de maio a PEC seja votada.
Os arautos do apocalipse e do
caos, empresários da indústria e suas entidades representativas, setores do
comércio e serviços, parlamentares da extrema direita criticam, e são contra a
redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1, profetizando
“quebradeira” geral do país, caso ocorra. O céu é o limite para as mentiras,
fake news, propagandas enganosas, falaciosas, cujo objetivo é criar pânico,
medo, dúvidas junto à população em geral.
Contrariamente ao que se propaga,
o governo federal se alinhou a compromissos internacionais assumidos pelo
Brasil no Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(PIDESC), tratado da ONU de 1966, que entrou em vigor em 1976, ao reconhecer o
direito a condições adequadas de trabalho, incluindo a limitação da jornada.
Juntamente com o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) formam a base do direito
internacional da Carta dos Direitos Humanos.
Essa é uma pauta central para a
classe trabalhadora brasileira e de toda sociedade, cujos efeitos, caso
implementada a proposta governamental, serão extremamente benéficas, em
particular, para as mulheres, trabalhadores de baixa escolaridade, vulneráveis,
além de possibilitar o acesso a outras dimensões da vida social.
Vale a pena deixar registrado
algumas propostas ignóbeis encaminhadas pelas forças do atraso, da extrema
direita e de grande parcela do empresariado, permitindo conhecer o pensamento
conservador, retrógrado e reacionário de uma parte da sociedade: 1) manter
permanentemente as 44 horas semanais para serviços essenciais (saúde, segurança
pública, mobilidade, abastecimento e a ordem pública), 2) prever para outras
empresas prazo de transição de até 10 anos para que as empresas se adequem a
esta nova situação, passando a valer de forma integral após este período, em
todo território nacional, 3) para redução da carga de trabalho é necessário
redução de salário, 4) contrapartida financeira e fiscal para as empresas, com
flexibilizações e diminuição dos encargos trabalhistas e tributários (“bolsa
patrão”), 5) criar brechas na legislação para jornadas de 52 horas semanais, 6)
condicionar reduzir a carga de trabalho semanal ao aumento da
produtividade, 7) propostas de flexibilização das leis trabalhistas com a
adoção da modalidade do trabalho intermitente (criado na reforma trabalhista de
2017), que permite que o empregado seja convocado apenas quando o empregador
precisar, hora trabalhada, hora recebida.
Tais sugestões infames, caso
aprovadas, desfiguram completamente a proposta do governo apoiada
majoritariamente pelo mundo do trabalho, pela sociedade brasileira; modificando
integralmente o PL 1838/2026, e contrariando os debates em curso na Comissão
Especial.
Uma atitude inesperada do
presidente Hugo Motta (Republicanos/PB) aconteceu no dia 13/5, ao anunciar que
vai votar o PL 1838/2026 enviado pelo governo Lula sobre a redução da
jornada de trabalho, junto com a proposta de emenda à Constituição (PEC) que
tramita na Casa legislativa. Houve um acordo sobre os próximos encaminhamentos.
O que resta saber é como será este parecer do relator, e a decisão final no
plenário, precisando para aprovação de 3/5 dos 513 deputados federais, ou seja
308 do total.
Ao reconhecer o direito a
condições adequadas de trabalho, incluindo a limitação da jornada, o governo se
alinha a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil no Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), tratado
da ONU de 1966, que entrou em vigor em 1976. Juntamente com o Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e a Declaração Universal
dos Direitos Humanos (DUDH) formam a base do direito internacional da Carta dos
Direitos Humanos.
Essa é uma pauta central para a
classe trabalhadora brasileira e a toda sociedade, cujas consequências dos
efeitos serão extremamente benéficas, em particular, para as mulheres, as
pessoas de baixa escolaridade, vulneráveis, além de possibilitar o acesso a
outras dimensões da vida social. Deverão ocorrer mudanças na organização das
empresas, com formatos de trabalho mais flexíveis.
A luta pela jornada de 40 horas
semanais, ao eliminar jornadas exaustivas, é vista como uma demanda para a
dignidade e saúde mental/física dos trabalhadores, mas que muitas vezes são
obstruídas por interesses patronais. É no parlamento que os políticos de
extrema direita, representando os interesses patronais, votam contra os reais
interesses da sociedade, da classe trabalhadora, que neste caso, é contrária na
sua maioria à escala 6x1. Como não chamar estes parlamentares que se posicionam
contra a redução da carga de trabalho semanal, sem redução salarial, como
“inimigos do povo”? Foram eleitos com o voto popular e serão extirpados do
Parlamento, também pelo voto popular.
A redução da jornada de trabalho
deve ser compreendida como uma política de sustentabilidade econômica e social.
O trabalhador saudável é ativo por mais tempo, podendo ser considerada como uma
medida de proteção simultânea ao indivíduo e a saúde fiscal do Estado. Proteger
a saúde do trabalhador é proteger a sustentabilidade do próprio Estado.
É hora de organizar, mobilizar,
pressionar e conquistar. As eleições estão chegando e o voto é uma das armas
dos trabalhadores. Vamos escolher melhor nossos representantes, e expulsar do
Congresso Nacional os “inimigos do povo”.
____________________
* Professor associado aposentado
da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares
na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na
Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de
Energia Atômica (CEA)-França.
Sexta-feira, 5 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
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