Segunda-feira, 13 de abril de 2026 - 19h37

A recente decisão da Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS de rejeitar, por 19 votos a 12, o
relatório que pedia a investigação de inúmeras pessoas envolvidas na lesão a
milhões de brasileiros vulneráveis — aposentados que foram assaltados por
quadrilhas que atuam dentro e fora do governo — revela um cenário preocupante.
Somada a isso houve, também, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de não
prorrogar a CPMI. Desse modo, evidentemente, não se admite sequer que se
investigue o que aconteceu nesse assalto a essa massa de vulneráveis no Brasil.
Tal cenário impede uma
investigação profunda e rigorosa sobre o desvio de recursos de uma vasta e
fragilizada parcela da sociedade: os aposentados. Embora tenha o Governo
Federal os tenha ressarcido, fê-lo com o dinheiro dos contribuintes e não com a
devolução dos valores pelos que assaltaram.
A imprensa também tem mostrado o
escândalo do Banco Master com um prejuízo colossal para os brasileiros,
estimado em mais de 50 bilhões de reais, com impacto direto sobre pequenos
depositantes e a estabilidade do sistema financeiro. Tanto esse caso quanto as
irregularidades no INSS ocorrem sob a gestão do presidente Lula e exigem uma
apuração rigorosa em busca da verdade.
Contudo, o que testemunhamos é um
processo de “abafa” nos Três Poderes. No Executivo, o governo orienta sua base
aliada a engavetar relatórios com os nomes daqueles que deveriam ser
investigados. É o presidente Lula, portanto, querendo “abafar” o escândalo do
INSS. No Legislativo, a presidência do Senado evita as prorrogações
necessárias. No Judiciário, o Supremo também barra a continuidade das
apurações.
Enquanto a imprensa exerce seu
papel investigativo fundamental para mostrar o que está acontecendo no País, os
Três Poderes parecem caminhar na direção oposta, procurando fazer com que não
se conheçam nem se investiguem os fatos.
Essa paralisia deliberada das instâncias
de controle não apenas perpetua a impunidade, mas também sufoca o princípio da
publicidade, essencial em qualquer democracia saudável. Quando os mecanismos de
pesos e contrapesos — o checks and balances — deixam de funcionar para proteger
o interesse público e passam a servir como blindagem política, o Estado de
Direito entra em uma zona cinzenta, onde a conveniência dos governantes se
sobrepõe ao rigor da lei.
O reflexo disso é a nítida perda
de confiança da população nos Três Poderes, como indicam pesquisas recentes que
mostram que 60% da população não confiam no STF ou apenas 16% depositam plena
confiança na Corte (Estadão e Folha). O Legislativo e o Executivo enfrentam
índices igualmente baixos. Ora, o povo brasileiro é inteligente e informado:
ele percebe a falta de transparência e deseja saber o que se esconde por trás
desses escândalos, percebendo que há esse processo de “abafa”.
Ao decidirem-se pelos sigilos e
pelo não prosseguimento das investigações, de modo que não sejam conhecidos os pormenores
do que realmente aconteceu, as Instituições alimentam a percepção de que a
corrupção é real e de que houve algum tipo de cooptação generalizada. A
impressão que resta é a de que as autoridades preferem conviver com a suspeita
a enfrentar as provas robustas que uma investigação traria. Para elas, a
verdade parece ser mais arrasadora do que a má reputação.
Vale ressaltar, ainda, que esse
cenário é trágico também para a imagem internacional do País no que diz
respeito à corrupção. Segundo a Transparência Internacional, o Brasil ocupa a
107ª posição em um ranking de 180 países, o que significa que 106 nações são
consideradas menos corruptas que a nossa.
Sempre defendi e continuo
defendendo a idoneidade dos Ministros da nossa Suprema Corte. Aqueles que
acompanham meus artigos e redes sociais sabem que jamais fiz considerações
negativas sobre a integridade de seus membros. Justamente por isso, acredito
que a iniciativa de investigar a fundo todos esses casos, tanto do INSS quanto
do Banco Master, deve partir de nossa Corte Excelsa. É fundamental que não
restem suspeitas que venham a macular ou desfigurar a imagem do Supremo, como
ocorre atualmente com os Poderes Executivo e Legislativo.
Minha esperança é que surjam
respostas claras para que o STF retome o prestígio de que desfrutava no
passado. Enquanto persistir a percepção de que existe uma “operação abafa”, a
opinião pública será negativa. A queda acentuada na credibilidade dos Três
Poderes, atestada pelas pesquisas, prejudica a democracia brasileira e o
projeto de construção de uma nação na qual as instituições trabalhem
estritamente no interesse do povo, e não em benefício próprio.
Para encerrar essa reflexão,
reproduzo aos amigos uma citação que utilizei durante recente palestra no 1º
Congresso da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ). A frase, atribuída
ao poeta e dramaturgo francês Jean de Rotrou (1609-1650), é frequentemente
lembrada para ilustrar o cinismo na busca pelo poder absoluto: “Todos os crimes
são belos quando o trono é o preço”. A expressão sugere que, para alcançar ou
manter-se no poder, qualquer ação, por mais imoral ou criminosa que seja, é
justificada.
Ives Gandra da Silva Martins é
professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O
Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme),
Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª
Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin
de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das
Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da
Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da
Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do
Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
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