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O setor educacional sob ataque: proteger dados é proteger o futuro da educação


Denis Furtado - Gente de Opinião
Denis Furtado

A recente informação de que um hacker invadiu 11 instituições de ensino superior brasileiras trouxe à tona uma realidade que há tempos se desenha em silêncio: a educação virou um dos principais alvos de ciberataques no mundo. O setor, que acelerou sua digitalização nos últimos anos, guarda hoje um dos acervos de dados mais valiosos e vulneráveis da sociedade.

Um alvo de alto valor

O ambiente educacional concentra informações altamente sensíveis — dados financeiros de mensalidades e bolsas, históricos acadêmicos, pesquisas inéditas, dados pessoais de alunos e colaboradores, e até detalhes de rotinas internas e acessos físicos aos campi. Essas informações são valiosas não apenas para o crime financeiro, mas também para espionagem acadêmica e ataques de engenharia social.

Segundo o relatório da Verizon (Data Breach Investigations Report 2024), 17% dos incidentes globais registrados envolveram instituições de ensino, das quais 14% resultaram em vazamentos efetivos de dados.

A UNESCO confirma a tendência: desde a pandemia, os ataques contra escolas e universidades cresceram mais de 60% em todo o mundo, acompanhando a adoção acelerada de plataformas digitais.

Exemplos recentes que reforçam o alerta

Em 9 de abril de 2025, a Universidade de Brasília (UnB) foi alvo de um ataque cibernético que deixou seu site institucional e os sistemas Wi-Fi fora do ar por algumas horas. Um mês antes, em março de 2025, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) confirmou ter sofrido um incidente de segurança que afetou sistemas de internet e evidenciou falhas importantes de controle em sua rede acadêmica.

Mais recentemente, a Universidade Cruzeiro do Sul passou a investigar um possível vazamento de dados em grande escala, após um grupo de cibercriminosos anunciar a venda de um conjunto de informações que incluiria cerca de 100 mil credenciais ativas de alunos e funcionários. Segundo as evidências divulgadas pelos criminosos, o pacote envolveria dados pessoais como nomes completos, CPFs, datas de nascimento, e-mails, telefones e até informações internas de sistemas acadêmicos — além de registros adicionais que totalizaram mais de 3 milhões de linhas extraídas de diferentes bases, incluindo áreas administrativas e plataformas de relacionamento estudantil. A instituição afirmou ter iniciado protocolos de verificação, monitoramento e investigação, além de acionar sua política de proteção de dados.

Esses episódios mostram que, mesmo entre instituições com forte visibilidade pública e infraestrutura tecnológica relevante, a vulnerabilidade permanece alta. Eles reforçam a necessidade de uma abordagem estratégica, integrada e contínua de segurança — especialmente em ambientes educacionais, que concentram grande volume de dados sensíveis e operam com múltiplos sistemas acadêmicos, CRMs, portais e integrações que ampliam significativamente a superfície de ataque.

O risco vai além do roubo de dados

Quando um sistema acadêmico é invadido, os impactos vão muito além do vazamento de informações. Os criminosos muitas vezes criptografam bancos de dados e interrompem o funcionamento das plataformas virtuais, impedindo o acesso a provas, notas, relatórios e documentos administrativos. Em universidades, esse tipo de ataque já comprometeu pesquisas científicas sigilosas, teses e projetos de inovação, atrasando trabalhos de anos.

De acordo com o relatório do World Economic Forum (Global Cyber Risk Outlook 2025), 67% das instituições educacionais ainda operam sem políticas estruturadas de resposta a incidentes, o que as torna mais suscetíveis a paralisações prolongadas. O Banco Mundial estima que o custo médio de recuperação após um ataque cibernético no setor educacional ultrapassa US$ 1,5 milhão, considerando restauração de dados, paralisações e danos reputacionais.

Um problema de cultura, não apenas de tecnologia

A raiz do problema vai além da infraestrutura. Grande parte das instituições ainda trata a segurança digital como responsabilidade exclusiva da área de TI, e não como parte da cultura organizacional. O resultado é um ambiente em que professores, alunos e colaboradores compartilham senhas, acessam sistemas por redes inseguras e subestimam os riscos.

O Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança (CERT.br) registrou mais de 470 mil notificações de incidentes cibernéticos no Brasil em 2024, com forte presença de ataques de phishing e engenharia social — justamente os que se aproveitam da falta de conscientização. 

Como as instituições podem reagir

A proteção digital nas universidades e escolas deve ser tratada como pilar estratégico — não como custo. Algumas medidas essenciais incluem:

● Mapear e classificar dados sensíveis (acadêmicos, financeiros e pessoais).

● Treinamentos recorrentes para docentes, técnicos e alunos sobre ameaças digitais.

● Monitoramento contínuo de sistemas e logs, com capacidade de resposta imediata.

● Gestão de acessos e autenticação forte, principalmente para dados financeiros e administrativos.

● Backups isolados e testados regularmente, reduzindo o impacto de possíveis invasões.

● Planos de contingência e comunicação transparente — a resposta rápida preserva a confiança.

A digitalização transformou a educação, mas também a expôs a um novo tipo de vulnerabilidade. Proteger dados hoje significa proteger pessoas, reputações e conhecimento. Cada dado acadêmico roubado é mais do que um número — é uma história pessoal, um investimento familiar, um trabalho de pesquisa que representa o futuro de alguém.

A proteção do ecossistema digital das instituições educacionais tornou-se um pilar crítico para garantir continuidade acadêmica e proteger dados sensíveis. Cada nova ocorrência evidencia que a questão já não é “se vai acontecer”, mas “quando”. Por isso, reforçar práticas de segurança, monitoramento e governança não é opcional — é indispensável para evitar que falhas exploráveis se transformem em incidentes de alto impacto.

*Denis Furtado é engenheiro de sistemas e diretor da Smart Solutions, distribuidora brasileira de solução antifraude e de cibersegurança.

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