Domingo, 22 de março de 2026 - 10h30

O ministro
de Minas e Energia Alexandre Silveira tem defendido ativamente a expansão da
energia nuclear no Brasil, incluindo a conclusão de Angra 3 e a construção de pequenos
reatores, disseminados no território nacional, em particular na Amazônia.
Chegou a afirmar (depois desmentir) seu apoio ao uso do nuclear na defesa da
soberania nacional. O que para um bom entendedor fica claro, é favorável à
fabricação de bombas nucleares.
Declaração
recente do ministro (04/03), reafirmando suas convicções nucleares, foi diante
de uma plateia de empresários, acadêmicos, diplomatas, em evento promovido pela
“Diálogos Intercontinentais Brasil-Alemanha Regulação &Investimento 26’, na
Universidade Johann Wolfgang Goethe de Frankfurt.
Na condição
de ministro de Estado e presidente do Conselho Nacional de Política Energética
(CNPE), órgão que assessora à presidência da República na definição da política
energética do país, “decretou” para o público presente que o "futuro do
Brasil é nuclear", e que as grandes reservas de urânio existentes devem
ser exploradas. Tais afirmativas “categóricas” e “soberbas”, vindas de
quem veio, foram muito bem aceitas pelo público presente, a maioria mercadores
interessados em manter negócios nucleares com o país. Com o fim da sua matriz
nuclear (últimas usinas desligadas em abril de 2023), alemães veem ainda o
Brasil como um mercado promissor e rentável, como foi para eles o Acordo
Nuclear Brasil-Alemanha.
Com a
proximidade da reunião do CNPE, a declaração peremptória do ministro Silveira
afronta e constrange os membros do colegiado (diga-se de passagem, nada
representativo, nada independente, nada democrático) que decidirá a sorte de
Angra 3. Será o primeiro passo para a instalação de mais 14.000 W de origem
nuclear (uma Itaipu), sugeridas para os próximos 30 anos no Plano Nacional de
Energia - PNE 55.
O destino de
Angra 3 será tomado depois de 40 anos do início da obra. O MME encomendou
estudos para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social sobre a
viabilidade técnico econômica do empreendimento, e assim subsidiar a decisão
dos membros do CNPE. Infelizmente estes estudos não tiveram
divulgação/publicização devida, sendo que somente trechos das conclusões finais
foram vazados, indicando apenas informações econômicas a respeito da obra. O
embasamento técnico, as premissas utilizadas, os aspectos ambientais, sociais e
de riscos que envolvem esta tecnologia, não foram disponibilizados à sociedade.
Dados divulgados indicam que já foram gastos R$ 12 bilhões, que 67% da usina
está pronta e, como está parada, custa R$ 1 bilhão por ano, com dívidas
bancárias e outros gastos. Para concluir o país gastaria R$ 24 bilhões, e para
interromper em definitivo custaria R$ 26 bilhões.
Neste
episódio, como em tantos outros à frente do MME, o déficit de transparência do
setor foi uma marca registrada da gestão Silveira. O ministro tem feito
declarações contrárias ao que a ciência indica para lidar com os desafios das mudanças
climáticas. Como defensor das fontes fósseis (petróleo e derivados, gás natural
e carvão mineral), age para incorporá-las na “cesta” da matriz energética
nacional, que ainda consome 50% de energia fóssil. A ciência reconhece que são
esses energéticos que devem ser abandonados, pois são os maiores causadores da
emissão de gases de efeito estufa (GEE´s), e consequentemente pelas
frequentes tragédias.
A posição
fossilizada do ministro MME e da Petrobras, não é de abandonar, mas de utilizar
o petróleo “até a última gota”, justificando assim o financiamento da transição
para energias renováveis. Completamente falaciosa esta afirmativa, pois os
fatos desmentem tal disparate. A irrelevância da diretoria de transição
energética da empresa ficou mais clara com a redução aplicada de 20% nos
recursos previstos para fontes renováveis em 2025, ano em que a petrolífera
bateu recorde de produção de petróleo e gás.
O que de
fato se verifica é que mesmo países como o Brasil, que possuem um discurso pela
descarbonização, se defrontam com a realidade de que nenhuma grande petroleira
quer fazer a transição energética. Todas querem manter os combustíveis fósseis
o maior tempo possível. E neste ponto os defensores da nucleoeletricidade
justificam a tecnologia por evitar emissões de GEE’s, e assim contribuir para o
enfrentamento às mudanças climáticas. Obviamente não levam em conta que desde a
mineração, passando por diferentes processos industriais, o ciclo do
combustível nuclear consome combustíveis fósseis, e assim emitem gases que
provocam o aquecimento global. Não é fonte limpa, como dizem alguns.
Outros
aspectos merecem destaque sobre a sua passagem pelo MME. Um balanço crítico da
gestão Silveira é necessário pela relevância deste ministério na transição
energética, no contexto do combate ao negacionismo da ciência, das decisões
estratégicas tomadas sem a participação da sociedade. Há ainda as fiscalizações
do Tribunal de Contas da União (TCU) para garantir a eficiência no uso de
recursos públicos, que somam bilhões de reais em aportes do Tesouro Nacional
para o setor nuclear. As devidas explicações e responsabilizações são
aguardadas.
O programa
nuclear brasileiro é marcado pelo secretismo, sumidouro de recursos públicos,
por decisões monocráticas distantes do interesse público, altos custos, que não
foram corrigidos (inclusive alvo de supersalários) e continuam causando
prejuízos econômicos, risco de tragédias ambientais e sociais. Recentes
fiscalizações no MME e autarquias, realizadas pela Unidade de Auditoria Especializada
em Energia Elétrica e Nuclear (AudElétrica) do TCU mostram inúmeros problemas
na gestão do setor nuclear brasileiro. Auditoria na Eletronuclear, empresa
privatizada em 2022, passou a ser controlada pela Empresa Brasileira de
Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A (ENBPar), criada para
administrar ativos nucleares e binacionais da União, identificou orçamentos
inflados e desatualizados em Angra 3, exigindo transparência sobre a
viabilidade econômica do projeto, que já consumiu bilhões de reais. A falta de
recursos para a operação de Angra 1 e a conclusão de obras, são problemas
encontrados na empresa. No caso das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), os
relatórios apontam fragilidade econômica e dependência de subsídios, com queda
drástica na receita após redução de compras pela Eletronuclear. E na Nuclebrás
Equipamentos Pesados S.A. (NUCLEP) é apontada uma estrutura superdimensionada.
Também no
considerado maior leilão de potência da história do Brasil, o Leilão de Reserva
de Capacidade (LRCAP) de março de 2026, que privilegiou o segmento das usinas
térmicas a combustíveis fosseis (gás natural, carvão mineral), o TCU abriu um
processo para investigar indícios de irregularidades, ilegalidades em decisões
do MME, com o aumento intempestivo, que duplicou os preços máximos, tetos
inicialmente estabelecidos, depois da pressão exercida pelas grandes
corporações (players do setor). Estes aumentos significativos na véspera do
leilão, sem a apresentação de justificativas técnicas, permitirá um ganho fixo
em torno de R$ 40 bilhões anuais para as usinas vencedoras ao longo da vigência
dos contratos. Além da receita fixa estipulada, os consumidores ainda
precisarão pagar os custos dos combustíveis quando as usinas forem acionadas.
Essa devassa
que o TCU fez no setor nuclear, subordinado ao MME, veio à tona no início deste
ano, revelando o caldeirão de irresponsabilidade na gestão e insegurança
técnica, financeira, jurídica e institucional da política energética nacional,
no caso em particular do setor nuclear, que o ministro Silveira insiste em
decidir sozinho sobre a nuclearização do país, tema de importância fundamental
para a atual e futuras gerações.
Sob a ótica
do consumidor, usinas nucleares e combustíveis fósseis não são atraentes diante
de alternativas com menor custo e perigo, como as fontes renováveis:
hidroeletricidade, eólica, solar, térmicas a biomassa/biometano. Por isto
condena as tentativas do ministro Silveira de impor ao Brasil a rediscussão do
uso da tecnologia nuclear para a fabricação de armas atômicas, afrontando a
Constituição Brasileira, que limita o uso do átomo a fins pacíficos.
Podemos
concluir que existe uma concentração de poderes e um acentuado caráter
autoritário na condução da política energética no país, o que acaba subordinando
o futuro ao presente. Verifica-se que ao longo dos tempos, feudos
partidários e lobistas se instalaram no governo federal, e um deles é o
Ministério de Minas e Energia, cujo segundo escalão, concentra muitos órgãos
com alto e forte poder de decisão financeira e administrativa. O que torna uma
excrescência este ministério tão relevante e estratégico ao país, ser
considerado como moeda de troca nas negociatas da República.
____________________
* Professor
associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e
Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e
doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de
Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
** Zoraide Vilasboas - Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira.
“Em memória do prof. Célio Bermann, militante
socioambiental e ativista da Articulação Antinuclear Brasileira,
que faleceu no dia primeiro de janeiro pp: gratidão e
lembranças”
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