Terça-feira, 13 de janeiro de 2026 - 07h55

O mundo caminha a passos largos
para um tensionamento cada vez mais crescente das relações diplomáticas entre
as duas mais poderosas nações nucleares do mundo, Rússia e Estados Unidos da
América.
Os dois países ainda têm os
maiores arsenais de armas nucleares remanescentes da Guerra Fria, cujos números
são atualmente limitados pelo New START, tratado assinado pelos dois países em
2010, e que deveria valer até 2026, de redução de armas estratégicas. Todavia
neste final de 2025, ao proferir seu discurso anual, o presidente russo
Vladimir Putin anunciou a suspensão da participação de seu país no
tratado. Ao mesmo tempo alertou, em claro recado à Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan) liderada pelos EUA, que os russos colocaram novas armas
estratégicas à disposição para combate, não especificando se seriam armas
nucleares.
Tal determinação ocorreu depois
que o presidente Donald Trump afirmar em sua viagem à Coreia do Sul, ter
ordenado ao Departamento de Guerra do país, testar novas armas nucleares,
alegando que a Rússia e a China poderão estar em pé de igualdade em relação ao
poderio nuclear americano, dentro de cinco anos. A corrida nuclear recomeçou.
O presidente Putin já em 2016,
afirmando que os EUA não cumpriram suas obrigações, havia promulgado uma lei
que retirou formalmente seu país de outro tratado, o Acordo Sobre a Gestão e
Disposição de Plutônio EUA-Rússia (PMDA, na sigla em inglês). Originalmente
assinado em 2000, e ratificado em 2011, previa a promessa de ambos países
processarem suas reservas de plutônio oriundas da Guerra Fria, e assim impedir
que as partes fabricassem mais armas nucleares.
A animosidade entre as duas
potências nucleares é um perigo real para todo o planeta de uma guerra nuclear,
e permite uma reflexão sobre distinção formal e a promoção do uso da energia
nuclear para fins pacíficos em oposição aos fins bélicos, que ganhou destaque
internacional com o discurso "Átomos para a Paz" do presidente dos
EUA, Dwight D. Eisenhower, em 8 de dezembro de 1953 perante a Assembleia Geral
das Nações Unidas.
Este discurso propondo que a
tecnologia nuclear pudesse ser utilizada para o desenvolvimento humano em áreas
como a geração de energia, medicina e agricultura, e não apenas para a produção
de armas, tentou de certa maneira minimizar o episódio criminoso do lançamento
em populações civis no Japão, de duas bombas atômicas no final da 2ª Guerra
Mundial, a "Little Boy" (de urânio) em Hiroshima, em 6 de agosto de
1945, e "Fat Man" (de plutônio) em Nagasaki, em 9 de agosto de 1945,
causando mortes em larga escala, destruição e inaugurando a Era Nuclear.
Atualmente verifica-se, diante da
realidade do mundo real, o quão débil, e mesmo enfraquecida está a Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), fundada em 1957, cujo mandato é o de promover
o uso pacífico da energia nuclear e garantir, por meio de salvaguardas, que os
materiais nucleares não sejam desviados para fins militares. E o próprio
Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), assinado em 1968 e em
vigor desde 1970, que consagra formalmente a distinção entre o uso militar e
pacífico da energia nuclear, e que visa prevenir a disseminação de armas
nucleares, promover o desarmamento e garantir o direito ao uso pacífico da
tecnologia nuclear sob monitoramento.
Estes dois marcos perderam a
eficácia tanto no que diz respeito ao controle e salvaguardas de materiais
nucleares desviados para fins militares, caso de países que não assinaram o TNP
e construíram suas bombas atômicas; assim como desrespeito a tratados e acordos
entre as potências nucleares. E até a possibilidade de ter armas nucleares sem
a terem desenvolvido, é o que levanta especulações sobre a possibilidade de
cooperação ou a "terceirização" da dissuasão nuclear. Um exemplo do
que pode acontecer diante das crescentes tensões geopolíticas no mundo atual,
foi a recente parceria entre a Arábia Saudita (assinou o TNP) e o Paquistão
(não assinou o TNP, e tem a bomba) que assinaram um pacto de defesa mútua.
A própria distinção entre uso
pacifico e bélico da energia nuclear é uma “tênue interface”. As usinas de
produção de energia elétrica, utilizam como combustível o urânio enriquecido
(isótopo U235 físsil) a 4-5%. Para produzir a bomba, a mesma tecnologia de
enriquecimento é utilizada para que o material físsil atinja 90%. O mesmo
material físsil (urânio enriquecido) é usado em ambos casos, sendo a pureza e a
concentração a principal diferença técnica.
O plutônio produzido
artificialmente nas reações nucleares que ocorre nos reatores das usinas, é um
elemento químico que, reprocessado, pode ser utilizado no fabrico de bombas
atômicas. Há também resíduos radioativos, conhecidos como lixo nuclear,
empregados nas chamadas “bombas sujas”. Tipo de bomba não considerada uma arma
atômica, que usa um explosivo convencional, e cujo objetivo é espalhar a
contaminação em uma dada área geográfica, assim como em quem estiver na região,
tanto com radiação direta quanto pela ingestão ou inalação de materiais
radioativos.
Em resumo, a facilidade com que
um programa civil pode ser convertido ou servir de base para um programa
militar torna essa distinção uma questão de vigilância, confiança e diplomacia
internacional contínua, justificando a sua descrição como uma "tênue
interface".
É necessário no país, diante da
decisão a ser tomada sobre a expansão de novas usinas nucleares no território
brasileiro (Angra 3), a discussão do debate ético sobre a segurança, e o
armazenamento do material radioativo e as consequências para as gerações
futuras. Além da moralidade do uso da energia nuclear, especialmente com os
riscos de acidentes (como Chernobyl, Fukushima) e o potencial de proliferação
de armas.
Em resumo, a verdadeira
distinção entre uso pacífico e bélico da energia nuclear reside, em última
análise, na intenção política de um país, mais do que apenas na sua capacidade
técnica. A comunidade internacional concentra-se em monitorar e verificar as
intenções através de acordos e inspeções, mas essa "intenção" pode
mudar rapidamente, tornando a linha divisória vulnerável.
“Em
memória do prof. Célio Bermann, militante socioambiental e ativista da
Articulação Antinuclear Brasileira, que faleceu no dia primeiro de janeiro pp:
gratidão e lembranças”
___________________________
* Físico, graduado na
Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, com mestrado em Ciências e
Tecnologia Nuclear na UFPE, e doutorado em Energética na Universidade de
Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França. É integrante da Articulação
Antinuclear Brasileira.
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