Sexta-feira, 15 de maio de 2026 - 10h54

“Os outros ladrões
roubam um homem, estes roubam cidades e reinos [...] outros, se furtam, são
enforcados, estes furtam e enforcam.”
Padre Antônio Vieira – 1655 - in Sermão do
Bom Ladrão
Escolas e professores
adeptos da “pedagogia do oprimido” de Paulo Freire, e Universidades mais ocupadas
com cotas de gênero do que com a História do Brasil, resultaram em que quase
ninguém hoje saiba que Portugal ao longo do período colonial manteve na América
dois estados: o Estado do Maranhão e Grão-Pará, e
o Estado do Brasil. Criado em 1621, o
Grão Pará tinha governador próprio, corpo administrativo e leis próprias, tendo
sido unificado com o Estado do Brasil somente um ano após a Independência, em
agosto de 1823.
Entretanto, no século XVII
as lideranças coloniais passaram a pressionar o rei de Portugal, D. João IV,
para que ele criasse mais estados, reivindicando que as Capitanias da região
Norte fossem transformadas em entidades autônomas. Nessa ocasião, o Padre Antônio
Vieira, então conselheiro do rei, convenceu o monarca exatamente do contrário,
fazendo com que ele constituísse um governo único, e criasse o Estado do
Maranhão e Grão Pará, sediado inicialmente em São Luís (1654), e depois em
Belém (1751).
Valendo-se de uma
argumentação singular, o jesuíta alegou que se o rei instituísse outros estados
na Amazônia, teria que nomear mais governadores, o que acarretaria maior
dificuldade de controle sobre eles; “Digo Senhor, que menos mal será um ladrão que dois, que mais
dificultoso será achar dois homens de bem que um só”, escreveu do Maranhão Vieira, em
carta ao rei de 4 de abril de 1654.
Já em Lisboa (1655), em um sermão diante dos
membros da corte, juízes, ministros e conselheiros da Coroa, Vieira reiterou a
acusação de que os governadores nomeados pelo rei estavam enriquecendo
ilicitamente, no curto espaço do triênio de suas nomeações. Com sua
peculiar contundência, ele bradou do púlpito que aqueles mandatários e seus
apaniguados “[...] conseguem conjugar o verbo furtar em todos os tempos,
modos e pessoas. Furtam pelo modo infinitivo,
porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em
que se vão continuando os furtos. Esses mesmos modos conjugam por todas as
pessoas: porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados,
e as terceiras quantos para isso têm indústria e consciência.”.
Excedendo-se na
veemência do ataque, Vieira vociferou: “[...] furtam juntamente por todos os
tempos”. Roubam no presente, “que é seu
tempo, durante o triênio em que governam, e roubam ainda no pretérito e no
futuro”. Roubam no passado perdoando dívidas antigas com o Estado em
troca de propinas, “vendendo perdões”. Roubam no futuro quando “empenham
rendas e antecipam os contratos com que tudo, o caído e o não caído lhe vêm
cair às mãos”.
E foi além, exclamando "[...]
nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos,
mais-que-perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtavam, furtaram,
furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse [...] a furtar, para
furtar [...] conjugado assim toda a voz ativa e as miseráveis províncias
suportado toda a passiva, eles como se tiveram feito grandes serviços. tornam
carregados de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas.”
Fiando-se na qualidade
de conselheiro e confessor do rei, o missionário jesuíta
praticamente admoestou o rei: "Em qualquer parte do mundo se pode
verificar o que Isaías diz aos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são
companheiros dos ladrões. E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros
dos ladrões porque os consentem; são companheiros dos ladrões porque lhes dão
os postos e os poderes; são companheiros dos ladrões porque talvez os defendam;
e são finalmente seus companheiros porque os acompanham e hão de acompanhar ao
inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo.”
O Brasil da democracia relativa do século XXI muito
se parece com aqueles tempos. Mas as coisas se agravaram, e não temos mais
sequer um Padre Vieira para questionar frente a frente o poder quanto ao seu “companheirismo”
com o roubo que grassa pelo país, em todos os tempos, modos e pessoas. Hoje, até mesmo simples faixas alusivas aos gatunos estendidas nas
sacadas das casas dos espoliados cidadãos sequer são consentidas pela polícia,
enquanto qualquer tentativa de investigação de escândalos financeiros bilionários
é obstruída pelos próprios envolvidos, do alto dos postos e poderes que lhes foram dados pelo governo. O presidente da república já
relativizou roubo de celular como justificativa para o jovem “ganhar um
dinheirinho”, declarou que os traficantes são vítimas dos usuários, e vetou o
endurecimento das penas no projeto de segurança pública aprovado pelo
Congresso.
Dados de maio de 2026 do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública revelam que 41% da população (cerca de 68 milhões de
pessoas), convive com o crime organizado, ou milícias em seus bairros. Estatísticas
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizam cerca de 5 mil políticos
descredenciados para a votação entre 2014 e 2020, e mais de 1.800 candidaturas
indeferidas nas eleições de 2022. Esses números, confrontados com a corrupção
institucional atualmente disseminada no Brasil, responsável por cerca de 200
bilhões/ano de prejuízo aos cofres públicos, corroboram o sucesso já obtido
pelas estruturas criminosas, tanto na representação política como no acesso aos
recursos públicos
Você – cidadão – é o rei na
democracia: é quem nomeia pelo voto os príncipes da república, deputados, senadores e o próprio presidente. O
futuro e a dignidade da nação exigem: não seja mais
um companheiro de ladrões."
Gen Marco Aurélio
Vieira
Foi Comandante da Brigada de Operações Especiais e da Brigada de
Infantaria Paraquedista
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