Sexta-feira, 27 de março de 2026 - 08h05

Em 2024, Rondônia apareceu na
terceira posição entre os estados com maior taxa de incidência de câncer de
pele no Brasil, com 85,11 casos por 100 mil habitantes, conforme dados da
Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
O número surpreendeu
pesquisadores porque o estado está fora do eixo Sul-Sudeste, onde
historicamente se concentram os índices mais elevados da doença. Ficou atrás
apenas do Espírito Santo e de Santa Catarina.
O dado isolado já preocupa,
mas o contexto é ainda mais grave. Boa parte da população rondoniense trabalha
ao ar livre, em atividades ligadas ao agronegócio, à construção civil e ao
comércio de rua.
A exposição prolongada ao sol,
combinada com o uso irregular de protetor solar e com a dificuldade de acesso a
dermatologistas na rede pública, faz com que muitas lesões de pele sejam
ignoradas por meses ou até anos.
O problema não está apenas no
câncer. Antes dele, existe um universo de lesões cutâneas que aparecem no corpo
ao longo da vida e que, na maioria dos casos, são benignas, mas precisam de
avaliação profissional para que o diagnóstico seja feito com segurança.
Nem
toda lesão de pele é câncer, mas toda lesão de pele merece atenção
É comum que, a partir dos 30
ou 40 anos, comecem a surgir pequenas elevações, manchas escurecidas e pintas
novas na pele. A ceratose seborreica, por exemplo, é uma das lesões benignas
mais frequentes na população adulta.
Segundo a literatura
dermatológica, estima-se que mais de 90% dos adultos acima de 60 anos
apresentem ao menos uma dessas lesões. Essas formações têm aspecto arredondado,
superfície áspera e coloração que varia do marrom claro ao preto. Costumam
aparecer no rosto, no pescoço, no tronco e no couro cabeludo.
Não são contagiosas e, por si
só, não representam risco à saúde. Ainda assim, causam desconforto estético e,
em alguns casos, inflamam ou sangram por conta do atrito com roupas, cintos e
acessórios.
De acordo com a dermatologista
Dra. Mariana Cabral, sediada em Goiânia, o ponto que merece atenção é
outro: uma ceratose seborreica pode ser confundida, visualmente, com um
melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele.
Ambas as lesões podem
apresentar assimetria, bordas irregulares e coloração escura. A diferença entre
uma e outra só pode ser confirmada por um dermatologista, com auxílio de exames
como a dermatoscopia.
Ignorar a avaliação é um risco
que não compensa. Quando o câncer de pele é detectado em estágio inicial, a
taxa de cura ultrapassa os 90%, de acordo com o Ministério da Saúde. Quando o
diagnóstico é tardio, o tratamento se torna mais complexo, mais caro e com
piores resultados.
O
que acontece quando a lesão precisa ser removida
A remoção de lesões de pele é
um dos procedimentos mais realizados em consultórios dermatológicos no Brasil.
Ela pode ser indicada tanto por razões médicas, quando há suspeita de
malignidade, quanto por razões estéticas ou funcionais, quando a lesão causa incômodo
no dia a dia do paciente.
Existem diferentes técnicas
disponíveis, e a escolha depende do tipo de lesão, da sua localização e do seu
tamanho. A crioterapia, que utiliza nitrogênio líquido para congelar e destruir
o tecido, é uma das mais empregadas para lesões superficiais.
A eletrocauterização aplica
uma corrente elétrica controlada sobre a lesão. A curetagem remove o tecido com
um instrumento cirúrgico específico. E a excisão cirúrgica, utilizada em casos
que exigem análise histopatológica, retira a lesão com margem de segurança ao
redor.
Na grande maioria dos casos,
esses procedimentos são realizados em consultório, com anestesia local, e a
recuperação leva poucos dias. A cicatrização costuma ser favorável quando o
paciente segue as orientações de cuidado pós-procedimento, especialmente no que
diz respeito à proteção solar.
O que não se recomenda, em
nenhuma hipótese, é tentar remover lesões de pele em casa. Produtos para
verrugas vendidos em farmácias, substâncias caseiras ou qualquer tipo de automedicação
podem agravar o quadro, gerar cicatrizes permanentes ou mascarar um diagnóstico
grave.
Rondônia
entre os estados que mais demoram para iniciar tratamento
Os dados da SBD revelam uma
disparidade preocupante no acesso ao tratamento oncológico de pele entre as
regiões brasileiras. Enquanto nos estados do Sul e do Sudeste a maioria dos
pacientes diagnosticados com câncer de pele inicia o tratamento em até 30 dias,
no Norte e no Nordeste a espera frequentemente ultrapassa 60 dias.
Esse intervalo faz diferença.
Uma lesão que poderia ser resolvida com um procedimento ambulatorial simples
pode evoluir para um quadro que exige cirurgias mais extensas, reconstrução
tecidual e, em casos extremos, tratamento oncológico prolongado.
A desigualdade no acesso a consultas
dermatológicas agrava o problema. Em 2024, a rede pública realizou cerca de
3,97 milhões de consultas dermatológicas em todo o país.
Já a saúde suplementar
ultrapassou os 10 milhões de atendimentos no mesmo período. Proporcionalmente,
os usuários de planos de saúde tiveram 2,6 vezes mais acesso a dermatologistas
do que os pacientes do SUS.
Para quem depende do sistema
público em Rondônia, o caminho até uma avaliação especializada pode ser longo.
E é justamente essa demora que transforma lesões tratáveis em problemas sérios.
A
importância da primeira consulta dermatológica
A recomendação da SBD é clara:
qualquer pessoa que perceba o surgimento de uma lesão nova na pele, a
modificação de uma pinta antiga ou o aparecimento de feridas que não cicatrizam
em algumas semanas deve procurar avaliação dermatológica.
A consulta inicial tem um
papel que vai além da lesão específica que levou o paciente ao consultório.
Durante o atendimento, o dermatologista realiza o mapeamento corporal,
identifica áreas de risco, avalia o histórico de exposição solar do paciente e
orienta sobre medidas de prevenção. Quem vive em regiões de alta incidência
solar, como é o caso de Rondônia, precisa desse acompanhamento de forma
regular.
Agendar uma consulta com dermatologista mais
próximo é o primeiro passo para quem convive com uma lesão
suspeita e ainda não buscou avaliação. A formação do profissional que vai
conduzir o exame é um fator determinante para a qualidade do diagnóstico.
Dermatologistas com
especialização em dermatoscopia, por exemplo, conseguem diferenciar com maior
precisão lesões benignas de malignas, reduzindo biópsias desnecessárias e
encaminhando para tratamento apenas os casos que realmente exigem intervenção.
Prevenção
que começa antes do consultório
Rondônia tem um clima quente o
ano inteiro, com índice ultravioleta elevado na maior parte dos meses. Para
quem trabalha exposto ao sol, como é a realidade de milhares de rondonienses
nas áreas rurais e urbanas do estado, a prevenção precisa fazer parte da
rotina, e não apenas de campanhas sazonais de verão.
O uso diário de protetor solar
com fator mínimo de 30, a reaplicação a cada duas ou três horas em caso de
exposição contínua, o uso de chapéus de aba larga e camisas de manga comprida
são medidas que reduzem significativamente o risco de desenvolver lesões
causadas pela radiação ultravioleta.
A SBD, aliás, tem trabalhado
para incluir o protetor solar na lista de itens essenciais da Reforma
Tributária, com o objetivo de reduzir o preço do produto e ampliar o acesso da
população.
A medida, se aprovada, pode
ter impacto direto em estados como Rondônia, onde o uso ainda é baixo em
comparação com outras regiões do país.
O
que está em jogo para o estado
A estimativa mais recente do
Instituto Nacional de Câncer (INCA), publicada em fevereiro de 2026, projeta
781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028.
O câncer de pele não melanoma
permanece como o mais frequente em ambos os sexos, respondendo por 33,7% de
todos os diagnósticos oncológicos registrados no país.
Para Rondônia, esses números
significam que a pressão sobre o sistema de saúde tende a crescer. A ampliação
da oferta de consultas dermatológicas, a capacitação de profissionais da atenção
primária para identificar lesões suspeitas e o investimento em campanhas de
prevenção são urgências que o estado não pode adiar.
Enquanto isso, cabe ao morador
de Porto Velho, Ji-Paraná, Vilhena, Cacoal ou qualquer outro município do
estado prestar atenção à própria pele. Uma lesão que parece insignificante hoje
pode contar uma história diferente daqui a alguns meses.
E a diferença entre um
desfecho simples e um complicado, na maioria dos casos, está na decisão de
buscar avaliação profissional no momento certo.
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