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Lesões de pele que mudam de cor ou crescem exigem atenção em Rondônia

Rondônia registrou uma das maiores taxas de incidência de câncer de pele do país em 2024, superando estados do Sudeste e acendendo um alerta para a necessidade de avaliação dermatológica precoce


Lesões de pele que mudam de cor ou crescem exigem atenção em Rondônia - Gente de Opinião

Em 2024, Rondônia apareceu na terceira posição entre os estados com maior taxa de incidência de câncer de pele no Brasil, com 85,11 casos por 100 mil habitantes, conforme dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

O número surpreendeu pesquisadores porque o estado está fora do eixo Sul-Sudeste, onde historicamente se concentram os índices mais elevados da doença. Ficou atrás apenas do Espírito Santo e de Santa Catarina.

O dado isolado já preocupa, mas o contexto é ainda mais grave. Boa parte da população rondoniense trabalha ao ar livre, em atividades ligadas ao agronegócio, à construção civil e ao comércio de rua.

A exposição prolongada ao sol, combinada com o uso irregular de protetor solar e com a dificuldade de acesso a dermatologistas na rede pública, faz com que muitas lesões de pele sejam ignoradas por meses ou até anos.

O problema não está apenas no câncer. Antes dele, existe um universo de lesões cutâneas que aparecem no corpo ao longo da vida e que, na maioria dos casos, são benignas, mas precisam de avaliação profissional para que o diagnóstico seja feito com segurança.

Nem toda lesão de pele é câncer, mas toda lesão de pele merece atenção

É comum que, a partir dos 30 ou 40 anos, comecem a surgir pequenas elevações, manchas escurecidas e pintas novas na pele. A ceratose seborreica, por exemplo, é uma das lesões benignas mais frequentes na população adulta.

Segundo a literatura dermatológica, estima-se que mais de 90% dos adultos acima de 60 anos apresentem ao menos uma dessas lesões. Essas formações têm aspecto arredondado, superfície áspera e coloração que varia do marrom claro ao preto. Costumam aparecer no rosto, no pescoço, no tronco e no couro cabeludo.

Não são contagiosas e, por si só, não representam risco à saúde. Ainda assim, causam desconforto estético e, em alguns casos, inflamam ou sangram por conta do atrito com roupas, cintos e acessórios.

De acordo com a dermatologista Dra. Mariana Cabral, sediada em Goiânia, o ponto que merece atenção é outro: uma ceratose seborreica pode ser confundida, visualmente, com um melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele.

Ambas as lesões podem apresentar assimetria, bordas irregulares e coloração escura. A diferença entre uma e outra só pode ser confirmada por um dermatologista, com auxílio de exames como a dermatoscopia.

Ignorar a avaliação é um risco que não compensa. Quando o câncer de pele é detectado em estágio inicial, a taxa de cura ultrapassa os 90%, de acordo com o Ministério da Saúde. Quando o diagnóstico é tardio, o tratamento se torna mais complexo, mais caro e com piores resultados.

O que acontece quando a lesão precisa ser removida

A remoção de lesões de pele é um dos procedimentos mais realizados em consultórios dermatológicos no Brasil. Ela pode ser indicada tanto por razões médicas, quando há suspeita de malignidade, quanto por razões estéticas ou funcionais, quando a lesão causa incômodo no dia a dia do paciente.

Existem diferentes técnicas disponíveis, e a escolha depende do tipo de lesão, da sua localização e do seu tamanho. A crioterapia, que utiliza nitrogênio líquido para congelar e destruir o tecido, é uma das mais empregadas para lesões superficiais.

A eletrocauterização aplica uma corrente elétrica controlada sobre a lesão. A curetagem remove o tecido com um instrumento cirúrgico específico. E a excisão cirúrgica, utilizada em casos que exigem análise histopatológica, retira a lesão com margem de segurança ao redor.

Na grande maioria dos casos, esses procedimentos são realizados em consultório, com anestesia local, e a recuperação leva poucos dias. A cicatrização costuma ser favorável quando o paciente segue as orientações de cuidado pós-procedimento, especialmente no que diz respeito à proteção solar.

O que não se recomenda, em nenhuma hipótese, é tentar remover lesões de pele em casa. Produtos para verrugas vendidos em farmácias, substâncias caseiras ou qualquer tipo de automedicação podem agravar o quadro, gerar cicatrizes permanentes ou mascarar um diagnóstico grave.

Rondônia entre os estados que mais demoram para iniciar tratamento

Os dados da SBD revelam uma disparidade preocupante no acesso ao tratamento oncológico de pele entre as regiões brasileiras. Enquanto nos estados do Sul e do Sudeste a maioria dos pacientes diagnosticados com câncer de pele inicia o tratamento em até 30 dias, no Norte e no Nordeste a espera frequentemente ultrapassa 60 dias.

Esse intervalo faz diferença. Uma lesão que poderia ser resolvida com um procedimento ambulatorial simples pode evoluir para um quadro que exige cirurgias mais extensas, reconstrução tecidual e, em casos extremos, tratamento oncológico prolongado.

A desigualdade no acesso a consultas dermatológicas agrava o problema. Em 2024, a rede pública realizou cerca de 3,97 milhões de consultas dermatológicas em todo o país.

Já a saúde suplementar ultrapassou os 10 milhões de atendimentos no mesmo período. Proporcionalmente, os usuários de planos de saúde tiveram 2,6 vezes mais acesso a dermatologistas do que os pacientes do SUS.

Para quem depende do sistema público em Rondônia, o caminho até uma avaliação especializada pode ser longo. E é justamente essa demora que transforma lesões tratáveis em problemas sérios.

A importância da primeira consulta dermatológica

A recomendação da SBD é clara: qualquer pessoa que perceba o surgimento de uma lesão nova na pele, a modificação de uma pinta antiga ou o aparecimento de feridas que não cicatrizam em algumas semanas deve procurar avaliação dermatológica.

A consulta inicial tem um papel que vai além da lesão específica que levou o paciente ao consultório. Durante o atendimento, o dermatologista realiza o mapeamento corporal, identifica áreas de risco, avalia o histórico de exposição solar do paciente e orienta sobre medidas de prevenção. Quem vive em regiões de alta incidência solar, como é o caso de Rondônia, precisa desse acompanhamento de forma regular.

Agendar uma consulta com dermatologista mais próximo é o primeiro passo para quem convive com uma lesão suspeita e ainda não buscou avaliação. A formação do profissional que vai conduzir o exame é um fator determinante para a qualidade do diagnóstico.

Dermatologistas com especialização em dermatoscopia, por exemplo, conseguem diferenciar com maior precisão lesões benignas de malignas, reduzindo biópsias desnecessárias e encaminhando para tratamento apenas os casos que realmente exigem intervenção.

Prevenção que começa antes do consultório

Rondônia tem um clima quente o ano inteiro, com índice ultravioleta elevado na maior parte dos meses. Para quem trabalha exposto ao sol, como é a realidade de milhares de rondonienses nas áreas rurais e urbanas do estado, a prevenção precisa fazer parte da rotina, e não apenas de campanhas sazonais de verão.

O uso diário de protetor solar com fator mínimo de 30, a reaplicação a cada duas ou três horas em caso de exposição contínua, o uso de chapéus de aba larga e camisas de manga comprida são medidas que reduzem significativamente o risco de desenvolver lesões causadas pela radiação ultravioleta.

A SBD, aliás, tem trabalhado para incluir o protetor solar na lista de itens essenciais da Reforma Tributária, com o objetivo de reduzir o preço do produto e ampliar o acesso da população.

A medida, se aprovada, pode ter impacto direto em estados como Rondônia, onde o uso ainda é baixo em comparação com outras regiões do país.

O que está em jogo para o estado

A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), publicada em fevereiro de 2026, projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028.

O câncer de pele não melanoma permanece como o mais frequente em ambos os sexos, respondendo por 33,7% de todos os diagnósticos oncológicos registrados no país.

Para Rondônia, esses números significam que a pressão sobre o sistema de saúde tende a crescer. A ampliação da oferta de consultas dermatológicas, a capacitação de profissionais da atenção primária para identificar lesões suspeitas e o investimento em campanhas de prevenção são urgências que o estado não pode adiar.

Enquanto isso, cabe ao morador de Porto Velho, Ji-Paraná, Vilhena, Cacoal ou qualquer outro município do estado prestar atenção à própria pele. Uma lesão que parece insignificante hoje pode contar uma história diferente daqui a alguns meses.

E a diferença entre um desfecho simples e um complicado, na maioria dos casos, está na decisão de buscar avaliação profissional no momento certo.

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