Quinta-feira, 12 de março de 2026 - 10h20

Vivemos tempos curiosos, para
dizer o mínimo. Quem nasceu nos anos 60 e atravessou a juventude nas décadas de
80 e 90 assistiu a transformações profundas no mundo. Foi o tempo da queda do
Muro de Berlim, do fim da Guerra Fria, da expansão das democracias e de
mudanças sociais que pareciam, na época, revolucionárias. A minha geração
acreditou que estava presenciando a construção de um mundo mais aberto, mais
racional e mais coerente. Décadas depois, no entanto, muitas das situações que
presenciamos parecem produzir um sentimento estranho de inversão ou de
paradoxo. Não porque as sociedades não possam mudar, elas sempre mudam, mas
porque certas mudanças parecem desafiar a lógica que durante muito tempo
orientou o debate público.
Um exemplo recente no Brasil
ajuda a ilustrar esse sentimento. A deputada federal Erika Hilton, do Partido
Socialismo e Liberdade (PSOL-SP), foi eleita presidente da Comissão de Defesa
dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A comissão existe justamente
para discutir políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, combater a
violência de gênero e ampliar direitos em uma sociedade onde, infelizmente, os
índices de agressão e feminicídio ainda são alarmantes.
O episódio já seria suficiente
para gerar debate político. Mas ele ganhou um simbolismo ainda maior por duas
razões: A primeira é que a deputada é uma parlamentar trans. A segunda, e
talvez a mais emblemática, é que a eleição
ocorreu exatamente no período em que o mundo celebra o Dia Internacional da
Mulher, uma data criada justamente para fortalecer o protagonismo feminino,
lembrar as lutas históricas das mulheres por igualdade e chamar atenção para a
violência que ainda recai sobre elas em muitas sociedades.
É nesse ponto que surge uma
reflexão que precisa ser feita com serenidade e respeito. Não se trata de
questionar o direito de qualquer cidadão ocupar cargos públicos. Em uma
democracia, esse direito é legítimo e deve ser preservado. Tampouco se trata de
hostilidade contra pessoas trans, que merecem respeito como qualquer outro indivíduo.
A questão é outra, e ela é essencialmente simbólica. Durante décadas,
movimentos femininos lutaram para ampliar o espaço das mulheres nas estruturas
de poder. Essa luta resultou em conquistas importantes: leis de proteção, maior
visibilidade para a violência doméstica e maior participação feminina em
diversos setores da vida pública. Por isso chama atenção que, justamente no
momento em que se celebra o Dia Internacional da Mulher — data que reforça a
necessidade de protagonismo feminino —, um fato tão simbólico tenha ocorrido
sem provocar uma reação mais ampla dos movimentos que historicamente defendem
essa pauta. O silêncio de muitos desses movimentos causa estranheza.
Nesse momento, o país vive uma
das maiores ondas de violência contra mulheres. Continua sendo uma tragédia
cotidiana e onde estados da região Norte, especialmente Rondônia,
frequentemente aparecem entre os que registram índices elevados de feminicídio,
seria natural imaginar um debate intenso sobre quem ocupa a liderança
institucional da comissão encarregada de enfrentar esse problema. Mas o que se
viu, na grande medida, foi uma postura discreta ou até mesmo inerte dos
movimentos feministas.
Esse tipo de paradoxo não
ocorre apenas no Brasil. O mundo contemporâneo parece cada vez mais repleto de
situações que desafiam antigas lógicas históricas.
No Reino Unido, por exemplo, o
país que durante séculos construiu um dos maiores impérios coloniais da
história acabou elegendo como primeiro-ministro um descendente de imigrantes
indianos: Rishi Sunak. O fato carrega um simbolismo evidente. A Índia foi
colônia britânica por quase duzentos anos, e um político de origem indiana
governou a antiga metrópole imperial.
Há ainda um detalhe curioso: a
fortuna familiar de Sunak, ligada em grande parte ao patrimônio da família de
sua esposa, é frequentemente apontada como superior ao patrimônio pessoal da
própria realeza britânica. Um descendente de um antigo povo colonizado
governando o antigo colonizador — eis um símbolo poderoso das mudanças
históricas.
Nos Estados Unidos também se
observou fenômenos semelhantes. Uma das cidades mais simbólicas do mundo
ocidental, Nova York, já elegeu como prefeito um político muçulmano,
demonstrando como sociedades plurais conseguem incorporar identidades culturais
diversas em seus centros de poder.
Esses exemplos mostram que as
democracias modernas são capazes de romper barreiras históricas e culturais. Em
muitos casos, essas mudanças representam avanços importantes contra
preconceitos antigos. Mas o mundo contemporâneo também parece produzir
contradições difíceis de explicar.
No Brasil, por exemplo, existe
uma política pública que frequentemente gera debates acalorados: o Auxílio‑reclusão. O benefício é pago
aos dependentes de criminosos presos. Ainda que tenha critérios específicos e
seja destinado diretamente aos seus familiares, o programa costuma gerar
indignação popular quando comparado com a ausência de políticas equivalentes de
apoio direto às famílias de vítimas de crimes. Essas não! Não recebem nada. O
Estado acha que precisam desse beneficio e tem que correr atrás para
sobreviver. Detalhe, o auxilio reclusão é maior que o salário-mínimo, o valor
normalmente pago ao trabalhador essa comparação alimenta a sensação de que
certas prioridades do Estado nem sempre correspondem às percepções de justiça
presentes na sociedade.
E é justamente nesse ambiente
de paradoxos que o episódio envolvendo a Comissão de Defesa dos Direitos da
Mulher ganha uma dimensão ainda mais simbólica. A pergunta que muitos fazem não
é necessariamente sobre a capacidade política da deputada Erika Hilton. Na democracia,
qualquer parlamentar eleito tem legitimidade para exercer funções públicas.
Será???
A questão que surge é outra:
por quê, justamente no momento em que se celebra o protagonismo feminino, o
próprio movimento que defende essa causa parece ter permanecido inerte diante
de uma mudança tão simbólica?
A história mostra que líderes
podem defender causas que não são necessariamente as suas. Isso já aconteceu
inúmeras vezes. Mas também é verdade que determinadas causas ganham força
justamente quando seus próprios protagonistas ocupam o centro da representação.
Quando mulheres defendem os
direitos das mulheres, há uma força simbólica que nasce da experiência vivida. Quando
essa experiência deixa de ocupar o centro da representação institucional, surge
inevitavelmente um questionamento: não estaria ocorrendo um deslocamento do
protagonismo feminino justamente no espaço criado para ampliá-lo?
Talvez essa seja a reflexão
mais importante.
Não se
trata de negar direitos, muito menos de alimentar preconceitos. Trata-se apenas
de reconhecer que, em determinados momentos da história, os símbolos importam
tanto quanto as decisões práticas.
Rubens Nascimento é
jornalista, bacharel em Direito, M.M Maçom- GOB/RO e ativista do
Desenvolvimento Responsável.
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