Sexta-feira, 17 de abril de 2026 - 08h02

Uma das principais promessas
da tecnologia é a redução da fricção. Essa é, inclusive, uma das grandes
propostas de valor da economia de plataforma, na qual empreendo há alguns anos:
viabilizar mais e melhores conexões. E, nesse modelo, quanto menos fricção,
maior a satisfação em ambos os lados.
Mas a verdade é que nós,
enquanto sociedade, estamos utilizando a tecnologia para reduzir fricções no
âmbito das relações pessoais. Inundados e mediados por ferramentas
tecnológicas, estamos nos tornando pessoas com menor tolerância à crítica,
menor capacidade de sustentar conflitos saudáveis, menor segurança para
ponderar e trazer contrapontos.
Um dos destaques do SXSW de
2026 foi, na minha opinião, o talk Susan McPherson: How To Meaningfully
Connect in a World That Has Gone to Sh*t. A tese principal dela aponta
para um paradoxo do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo
tempo, tão distantes e solitários.
O ChatGPT, utilizado com
frequência como parceiro romântico, amigo e até terapeuta, torna-se a interface
perfeita: não critica, valida tudo, encoraja e reforça qualquer comportamento.
Além de perigoso, esse uso da ferramenta cria a falsa sensação de que relações podem
ser mantidas no campo da idealização, livres de atrito. Não podem.
A empatia, a fricção e a
intencionalidade são, segundo Susan, ingredientes essenciais para relações
verdadeiras.
Intencionalidade, essa
tecnologia 100% humana, já surge como um primeiro insight valioso do SXSW. Em
meio a tantos avanços tecnológicos, retomar o poder de escolha e de definir
onde colocar energia torna-se algo transformador e necessário.
Para criar conexão verdadeira
é preciso querer (ser intencional) e aceitar que algum nível de desconforto vai
existir. Não dá para fugir disso. Conversas reais, relações reais, sempre têm
algum grau de tensão, e é justamente aí que mora a possibilidade de
crescimento. Isso vale para contextos pessoais, familiares e corporativos.
Escolher quando e com quem
estar totalmente presente, escolher quando se isolar para refletir... coisas
simples, mas que, somadas, mostram consciência e direção.
Ferramentas digitais podem,
sim, facilitar processos, ampliar o acesso à informação e criar novas formas de
interação. Mas relações humanas continuam exigindo aquilo que nenhuma interface
consegue substituir: presença, escuta, discordância e, especialmente,
construção conjunta de significado.
(*) é Co-CEO da BPool, plataforma de curadoria,
contratação e gestão de serviços de marketing, presente em mais de 10 países,
com clientes como Unilever, Novartis, Reckitt e L'Oréal.
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