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Crônica

Para que tanta lida, para tão pouca vida!?


Fátima Ferreira Santos  - Gente de Opinião
Fátima Ferreira Santos

Eu tinha pouquíssima idade quando comecei a ouvir da minha avó Maria a frase que dá título a esse texto. Levei algum tempo até entender o que ela queria dizer com essas palavras. Seus olhos eram lacrimejantes e lânguidos; sua fala tão penosa e carregada de tristeza como se de fato a vida lhe fosse um verdadeiro fardo. E me parece que tudo foi assim: uma vida de sofrimentos, de necessidades nunca  satisfeitas; de anseios nunca alcançados e de sonhos perdidos no tempo. 

De que lida minha avó falava? A que pouca vida ela se referia? Hoje, celular ligado - música tocando enquanto trabalho -, ouço um trecho que me remeteu a essa lembrança da infância e que me acompanhou toda a vida. 

"Devia ter complicado menos

Trabalhado menos

Ter visto o Sol se pôr

Devia ter me importado menos

Com problemas pequenos

Ter morrido de amor". Ah!! Se minha avó tivesse ouvido essa canção!!! Talvez não tivesse sofrido tanto. Será? 

É histórica a vida sofrida, a labuta cotidiana pelo pão de cada dia, as horas trabalhadas e mal remuneradas;  a TV anuncia que voltamos a ser um país de famintos (deixamos de ser algum dia?). As ruas denunciam a fome, a miséria, a falta de vida saudável, de viver verdadeiramente e não apenas sobreviver. Os anos passam, sucedem-se séculos, milênios e o homem quase nada avançou no campo solidário/social, dado que os governos que detém os destinos das Nações desdenham as condições subumanas de vida a um percentual gigantesco da população mundial.

Minha avó nada sabia de política,  decerto jamais ouvira falar de avanço social, mas, sentia na pele e na pobreza todo o fardo da lida da vida mal vivida. Por isso, pesarosamente, repetia com sofrer na alma: para que tanta lida, para tão pouca vida. Ainda vivemos pouco, mas labutamos muito e nos perdemos de nós.  Perdemos a beleza da super lua; do nascer e pôr do sol; do desabrochar das flores nos jardins das ruas por onde passamos; os sorrisos abafados pelo problemas, os sonhos mal dormidos; os amores despedaçados pela luta cotidiana.  

E eu relembrando minha avó...no auge dos meus 56 anos,  quero olhar mais ludicamente para a vida e para o universo que me acolhe sem deixar de lutar por um mundo mais justo, humano e solidário!!

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