Quarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Crônica

O Regatão


O Regatão - Gente de Opinião

A Amazônia comporta a maior bacia hidrográfica do mundo. Seus rios, os principais e os secundários, servem como “estradas aquáticas” pelos quais deslocam-se embarcações, geralmente de pequeno porte, transportando passageiros e suas bagagens, além de mercadorias diversas.  Produtos industrializados como sal, açúcar, óleo, bolachas, pinga, cigarro, entre outros, são levados das capitais para as pequenas cidades, vilas e comunidades ribeirinhas. Nas negociações, ainda é comum a troca de produtos por produtos, o famoso escambo, chegando até a não entrar dinheiro como referência de moeda de compra. São trocados por produtos primários como borracha, castanha, pau-rosa, galinhas, porcos, queijos etc., que são levadas para a capital ou outras cidades. Fazendo esse tipo de negociação, ainda existe, embora bem menos do que há décadas atrás, o regatão.

Regatão é um termo que tanto pode vir de “regatear” (pechinchar) como de “regatas” (corrida de embarcações). Mas isto não é importante.

Para os caboclos das barrancas solitárias dos rios da Amazônia, o termo “regatão” tanto identifica o barco que traz e leva produtos quanto o seu dono ou quem o pilota. O barco, tendo às vezes só o proprietário a bordo, vai parando de casa em casa nas margens dos rios, trocando os produtos industrializados por tudo que possa ser vendido na cidade. Anos atrás o regatão era, basicamente, o único contato entre o caboclo e a civilização, levando produtos, novidades e notícias.

Entre os donos de regatão, um dos mais famosos era o Galo Cego. Certo dia Galo cego chegou nas barrancas do porto do Tião.

“Ó de casa cumpadi Tião!” gritou, enquanto saia do barco e subia o barranco. Tião nem se mexeu. De cócoras que estava, lá ficou. Já tinha enxergado seu compadre cruzando o rio. Aguardou ele chegar mais próximo para responder ao chamado. “Se achegue meu cumpadi” respondeu. Conversas, o saber de notícias, novidades. Tião convida o compadre para pernoitar, o outro aceita.

Galo Cego, assim chamado por ter um dos olhos furado e cego desde menino, ao ver seu compadre acender o fumo com o fósforo fala da grande novidade: “Olhe essa novidade, compadre” e mostra. O outro estranha: “Que diacho é isso?”. Galo Cego dá risada e, com cara de sabido, responde: “É isqueiro compadre. Modernidade. Vindo lá das Europa!”. Tião pega o isqueiro e, todo sem jeito, examina, Pergunta:  “Pra que é que serve esse troço?”. O outro, com ar inteligente, esclarece: “Pra acender coisas. Cigarro, a lenha, o fogareiro, o lampião. Acabou-se o fósforo. Agora é mais fácil”. Enquanto falava, Galo Cego pega de volta e mostra a todos aquela maravilha, um isqueiro dourado, quadrado, grande, com pavio e pedra pra acender. Uma modernidade para aquela região, naquelas épocas.

Tião, de cócoras ao lado do fogo de lenha onde moqueava um peixe fresco, olha com curiosidade a novidade na mão do outro. Vira-se para o compadre e pergunta como funcionava. Galo-Cego explicou:

“É muito fácil! Dentro do isqueiro tem um chumaço de pano e dele sai este pavio. Primeiro, o senhor umedece bem o pano com querosene. Depois, fecha este buraco, aqui debaixo, com este parafuso pequeno, tá vendo?”.

O Tião, balançando a cabeça, aprovou “Hum, hum!”. O outro prosseguiu:

“Depois, o senhor pega essa pedrinha e coloca aqui neste furo e fecha com parafuso com mola. Daí é só abrir a tampa do isqueiro, rodar com o dedo essa rodinha aqui em cima que aí ela faz uma faísca e o pavio se acende. Tá vendo?”.

Ao redor do Galo-Cego toda a família olhava, entre admirados e desconfiados daquela novidade.

Tião tira uma baforada do cigarro de fumo-de-corda e fica matutando um tempo. No rosto, uma expressão de um “quê” de zombaria da inteligência do outro. Finalmente, abre uma caixa de fósforos, tira um palito e mostra para Galo-Cego, dizendo: “Mas cumpadi, que novidade mais besta, é muito trabalho pra acender um fumo. Num é muito mais fácil acender fogo assim, ó?” E risca o palito de fósforo, acendendo-o.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Nova corte na aldeia

Nova corte na aldeia

Quando era rapazote ia com meus pais, veranear a pequena povoação do Vale da Vilariça.Depois da janta, familiares e amigos, abancavam-se na escaleir

A morte começa, quando nascemos

A morte começa, quando nascemos

        Tudo passa açodado: passam as horas, passam os dias, passam os anos, e sem percebemos, chega a caduquice, a decadência, a velhice…; e tudo p

Mudam-se os tempos; mudam-se os conceitos

Mudam-se os tempos; mudam-se os conceitos

No mês de dezembro, mês húmido e sombrio, aproveitei os raros dias de céu lavado e, de amena temperatura, para almoçar num centro comercial.Após suc

Se ainda não tem, compre um

Se ainda não tem, compre um

Acabo de sair de capela onde repousa senhora, que o povo canonizou. Venho entristecido e meditabundo: lá encontrei: muita cera; pagelas; terços; med

Gente de Opinião Quarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)