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Crônica

A ambiguidade criativa


A ambiguidade criativa - Gente de Opinião

Certa vez, padre Vitor Ugo, que já não era padre, mas dizia que uma vez padre, sempre padre, durante uma exposição do VII Salão de Artes Plásticas de Rondônia – Sart, na Casa de Cultura Ivan Marrocos, me puxou pelo braço, para me mostrar um quadro da arte moderna abstrata, com perguntas contundentes: - professor, o que você acha desse quadro? Tem meia hora que olho em todas as posições e não vejo nada, será que a arte pode ser resumida em simples traços coloridos?

Atordoado com a revolta do padre, medi e pesei as palavras, para não ferir o historiador, o intelectual perdido no mundo da emoção: Meu caro Padre, esse é um ramo das artes plásticas, cuja realidade é subjetiva e cabe ao expectador defini-la. Procure sentir, deixe as formas e as cores invadirem sua alma. Liberte-se da superfície, viaje!!! Observe que cores e formas são usadas para representar um universo particular e único de emoções e sentimentos, resultando em sensações. Perceba que o instante criativo é fruto de uma “necessidade interior”.

Após movimentos contorcionistas, ele me olhou com os olhos arregalados, as pupilas dilatadas, silencioso e inconformado com meu comentário. Soltou meu braço, demostrando com os músculos da face que eu não servia para cúmplice de crítico de artes plásticas. Entre dentes balbuciou: você deve ser mais um desses intelectuais que acham que entendem de arte. Até logo, professor. Visite a Itália. Respondi com um respeitoso aceno de cabeça, sabendo que com o “visite a Itália” ele estava me punindo por eu ter enxergado arte, onde ele via apenas traços e cores em formatos indefinidos e falsos, uma arte falsa, no dizer dele. A criação é livre, no entanto, a contemplação embute conhecimento e sensibilidade. Naquele ano eu fui honrado com o convite da Fundação Cultural, para compor a comissão julgadora do Sart.

Segundo os críticos, a arte abstrata é a arte que não procura elaborar uma representação visual precisa da realidade. Ela possui um distanciamento de qualquer ponto de referência objetivo.

O russo Wassily Kandinsky é frequentemente citado como pioneiro desse estilo. Ele já desenvolvia pinturas não representacionais em 1912. O médico Viriato Moura, em Rondônia, segue a mesma linha do artista russo e há mais de 50 anos vem produzindo telas de intensa beleza e profundidade.

Às vezes, quando Viriato Moura, a quem apelidei O Senhor das Artes, divulga sua produção no campo das artes visuais, sou tomado de um profundo silêncio, e me deleito e permito a inversão do olhar. Não escrevo nada, não digo nada. Por instantes, tenho medo de ferir o entendimento subjetivo de minha alma, com o contorno objetivo das palavras. É como se minha imaginação e o meu inconsciente fizessem uma ponte, com o instante criativo transcendental do autor.

Pierre Bonnard, pintor francês pós-impressionista, ao pintar uma maçã sem a cor e sem o formato original, deu aos críticos a chance de interpretarem: isto é aquilo, mas pode ser outra coisa, conforme o olhar. Diferentemente dos outros saberes, o saber do artista privilegia a ambiguidade. Na literatura, ela é usada como recurso estilístico e se orgulha de aparências e falares multi-interpretativos.

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