Quinta-feira, 18 de junho de 2026 - 16h20

“O
primeiro ato de avaliação, o maior deles, de maior alcance que o político e o
comandante devem fazer é estabelecer em que tipo de guerra estão se envolvendo,
não se enganando com relação a ela, e nem tentando transformá-la em algo que
seja alheio à sua natureza. Esta é a primeira de todas as questões estratégicas
e a mais abrangente.
Carl
Von Clausewitz in Da Guerra
A história
da humanidade é, em sua essência, uma crônica das guerras. Estima-se que, em
5.600 anos, vivemos apenas 268 anos de paz plena — meros 8% do tempo histórico
registrado. Esse realismo sangrento desautoriza teses otimistas, como a do
"fim da história" do cientista político nipo-americano Francis
Fukuyama. O mundo não convergiu para uma paz liberal; ao contrário, assistimos
ao ressurgimento de impérios autoritários, ao capitalismo de Estado chinês e ao
pragmatismo militarista.
Nesse
tabuleiro, o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA marca uma
"chacoalhada geoestratégica" global. Sob o lema "América
Primeiro", Washington recalibrou suas prioridades: contenção tecnológica
da China, protecionismo econômico e a reafirmação da Doutrina Monroe. Enquanto
o mundo se fragmenta atualmente em cerca de 120 conflitos armados ativos, e na
consolidação do que podemos chamar de Primeira Guerra Híbrida Mundial, o
Brasil parece navegar sem bússola, guiado por impulsos ideológicos que ignoram
a realidade do poder.
Ao longo de
seus mandatos, o Presidente Lula tem falhado em definir uma orientação
geopolítica coerente com o peso do país. Em vez de uma estratégia de Estado, o
que se vê são opiniões pessoais descoladas das raízes culturais e dos
interesses econômicos da nação. A atual política externa brasileira opta pelo
alinhamento com regimes totalitários e por um “pacifismo moralista de diretório
acadêmico", enquanto trava uma "guerra fria" retórica contra os
EUA — nosso aliado histórico e maior potência militar do globo.
As
declarações presidenciais, que comparam adversários ideológicos ao nazismo,
consideram traficantes como vítimas dos usuários de drogas, ou questionam a
hegemonia do dólar no comércio global, sem uma devida retaguarda econômica, ou
mínimo poder militar, expõem o país ao ridículo internacional. Esse cenário
torna-se ainda mais grave diante do "sincericídio estratégico" do
Ministro da Defesa, José Múcio, ao admitir que a proteção do território
brasileiro é "precaríssima" e incompatível com nossas necessidades
estratégicas.
Há três
interpretações possíveis para o atual comportamento do Executivo: uma
ignorância profunda sobre segurança nacional; uma desarticulação total entre a
presidência e o comando militar; ou, no pior dos casos, um conluio para
provocar reações externas e capitalizar politicamente sobre uma suposta
"violação da soberania".
Enquanto o
governo foca em narrativas ideológicas e críticas ao "imperialismo",
e atribui superpoderes de influência na política externa americana a um
deputado autoexilado que mal sabe falar inglês, a soberania real se esvai
internamente: cerca de 30 milhões de brasileiros vivem sob o domínio de facções
criminosas e milícias; o capital chinês já ocupa uma posição de domínio
estratégico no país; e não há qualquer planejamento de Estado para fazer frente
à fragmentação econômica global. O Brasil está totalmente exposto às
retaliações comerciais, enquanto o crime organizado transnacional já bate à
porta, lucrando com a falta de uma estratégia de defesa robusta e integrada.
Detalhe: países não têm amigos, e presidentes americanos têm interesses
americanos.
A herança
cultural brasileira é ocidental e democrática. Não há afinidade popular ou
histórica que legitime o atual flerte com o autoritarismo russo, chinês ou
islâmico, ou ainda que justifique o isolamento em relação aos nossos parceiros
comerciais tradicionais. Fomentar hostilidades contra o governo Trump, e
fabricar uma imagem de defensor da “soberania” do país, apenas para alimentar
dividendos eleitoreiros internos, não só é hipocrisia e cinismo, mas também um
erro histórico de proporções trágicas.
O Brasil não pode se dar ao luxo de brincar de geopolítica com uma defesa desaparelhada e uma diplomacia paroquial. Um governo sem estratégia reduz-se à sobrevivência diária, e é incapaz de construir futuros. Ao virar as costas para a realidade e abraçar a barbárie ideológica, o atual governo não protege a soberania; ele a sabota. Soberania sem poder militar é suicídio; diplomacia sem inteligência é cilada. O custo dessa vaidade ideológica será cobrado em atraso, isolamento e na irrelevância internacional do Brasil, no restante século.
Gen Marco
Aurélio Vieira
Foi
Comandante da Brigada de Operações Especiais e da Brigada de Infantaria
Paraquedista
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