Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026 - 16h30

Lembro
de uma cena do filme “Operação Final”, de 2018, que mostra a missão de uma
equipe do Mossad, no início dos anos sessenta, em Buenos Aires, para capturar o
criminoso de guerra Adolf Eichmann, um dos arquitetos da “Solução Final”, que
acelerou a morte de prisioneiros judeus em campos de concentração, quando a
balança de forças da guerra começou a pender para o lado dos Aliados. Eichmann
ajudou a implementar a morte em escala industrial nesse período, para, no
pós-guerra, virar um pacato cidadão de classe média, vivendo na Argentina.
Os
agentes conseguem capturar o criminoso nazista e o filme recria o suspense para
conseguir embarcar Eichmann em um avião para Israel, onde seria julgado. Nessa
espera, tem uma cena em que estão ouvindo uma música que toca profundamente o
nazista e ele se emociona às lágrimas. Um dos agentes não se contém e pergunta:
se você é capaz de sentir essas emoções e amar sua família, como pôde
matar tanta gente que não te fez nada? Eichmann respondeu calmamente que
“eram judeus, não eram pessoas”.
Essa
cena coloca em relevo uma forma de realizar o Mal, que é tirar da vítima a sua
condição de ser: no caso, de ser humano. Uma característica universal da
Psicopatia é a perda da capacidade de Empatia pelo Outro, tornando-o uma Coisa,
um objeto de exploração.
A
Neurociência descreveu nas últimas décadas os Neurônios-Espelho, que são
responsáveis pela vontade de bocejar quando alguém está bocejando. Esse
neurônios e redes neurais permitem que alguém sinta o que o Outro está
sentindo, o que faz que a gente grite “Ai” quando alguém se machuca feio num
jogo de futebol. Essas sensações dependem de uma capacidade de prever e
perceber como é a experiência que outra pessoa está vivendo. Esse é o primeiro
passo da percepção do Outro e da capacidade de ajudar alguém que está sofrendo.
O monstro nazista bloqueou seus neurônios-espelho da percepção do sofrimento
negando a essas pessoas a sua própria humanidade.
Outro
mecanismo da maldade é o “Schadenfeude”, palavra alemã para a sensação de
contentamento que temos quando alguém que fez algo errado e acaba se ferrando.
Quando o time que eu não gosto toma uma goleada, por exemplo. A identificação
com o Agressor gera essa satisfação, além do alívio de não estar na situação de
fragilidade. Há um gosto de ver o outro sofrendo, e um alívio por não estar
naquela situação.
Desde
os primeiros hominídeos que há provas de cuidados com os doentes e velhos, e
respeito pelos mortos. O que fez aqueles proto humanos escaparem da extinção
foi a capacidade de colaboração e proteção mútua. Cuidar da vida de todos
talvez seja uma experiência fundamental em nos tornarmos humanos.
O
bilionário americano Jeffrey Epstein chefiou durante décadas uma rede de
prostituição e tráfico de crianças e adolescentes, com atos de fazer inveja aos
agentes nazistas. A característica de falta de empatia e desumanização das
vítimas está estampada nos milhões de e-mails onde descuidadamente ele oferecia
uma menina assim ou assado para um político ou um guru de autoajuda. Com a
certeza de ser intocável pela lei, já que foi protegido por muitos anos por
pessoas muito poderosas.
Existe
o ditado que “O Poder corrompe, o Poder absoluto corrompe absolutamente “. O
poder que realmente corrompe é o que subtrai das pessoas seu sentimento de
humano, da sensação fundamental de proteger quem não consegue se proteger da
covardia e do abuso.
Os
Arquivos Epstein abrem um buraco na fechadura de quem, por ter recursos quase
ilimitados, passam a se julgar semi deuses que não precisam respeitar os
limites de sua condição humana. Estranhamente, ao adotar esse comportamento,
dão passagem para a bestialidade que tentamos superar desse os neandertais. A
bestialidade que bloqueia as sensações de empatia e cuidado com os fracos.
Em
nossa civilização digital, o tempo passado no mundo virtual apaga as fronteiras
do que é e do que não é Real. Isso bloqueia o acesso aos sentimentos que nos
tornam humanos. Ouvir as histórias desses e-mails de bilionários e multi
milionários sem se enojar, sem gritar para nossos filhos que isso é muito,
muito errado, é cair na grande vala onde o Mal pode se esconder e prosperar,
que é a vala da Indiferença. Isso me faz perguntar se estamos sendo treinados a
perder a sensibilidade diante do horror e da desumanidade. Espero que possamos
gritar, e nos inconformar com quem quer tirar a nossa capacidade de empatia.
Comece aí, na sua casa e no seu grupo de WhatsApp, a gritar contra a cultura da indiferença. Porque a violência pode vir a bater em nossas portas, através de gente que parecia do Bem.
*Marco
Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São
Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiano e autor do livro “Stress o coelho
de Alice tem sempre muita pressa”.
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