Sexta-feira, 27 de março de 2026 - 15h05

O
filme alemão “A Onda”, de 2008, descreve uma situação que estamos assistindo,
estarrecidos, em nosso mundo real, que deriva do mundo virtual. No filme,
baseado num caso real ocorrido na California na década de sessenta, uma escola
de Ensino Médio propõe um experimento nas classes que devem experimentar regimes
políticos Anárquicos e Autocráticos durante uma semana. O professor Rainer
Wenger começa o filme injuriado porque vai precisar fazer a parte da Autocracia,
ou seja, regimes totalitários, ditatoriais, um assunto dolorido na Alemanha, ainda
assombrada pela época do Nazismo. O professor levanta uma questão bastante
sensível em nosso tempo: existe espaço para um novo regime totalitário, na
Alemanha ou no resto do mundo? Os alunos são categóricos em dizer que não,
claro que não. Rainer vai demonstrar, do pior jeito, como isso não é verdade.
Ele monta, com a classe, um experimento que torna o grupo um partido autocrático,
onde o professor é o líder e os alunos criam o movimento, que eles chamam de “A
Onda”. Todos passam a usar a mesma roupa, camisa branca e calça jeans e passam
a obedecer seu líder, hostilizar “os inimigos”, que eram da classe da Anarquia.
Em uma semana, eles passaram a recrutar outros malucos para o movimento,
excluindo os fracos e os anarquistas. Um aluno desenhou um logo em formato de
onda, pichando a cidade. Os alunos vão ficando mais violentos, opressores, sob a
ideia que são uma unidade, um grupo que se apoia mutuamente. É lógico que vai
ter um aluno de miolo mole que vai comprar uma arma para proteger o grupo. O
caminho para a desgraça estava desenhado. Na última aula, o professor manda agredir
um aluno dissidente: os colegas se paralisam, pois fica evidente que era uma
ordem terrível. O professor então explica que tinham caído na cilada do
autoritarismo: tinham virado um grupo violento, preconceituoso e que obedece a
um líder carismático. Eles tinham virado um partido nazista.
Nesse
filme, temos o beabá da construção de um sistema violento e neofascista: o ódio
por um inimigo comum, a uniformidade de roupas e a supressão de vozes
discordantes e a violência direcionada a mulheres e pessoas mais fracas.
A
adolescência é um período particularmente delicado para a tentação autoritária,
e o filme mostra isso muito bem: o tédio e a falta de uma causa aglutinadora, o
medo de não ser parte de um grupo, as feridas de famílias disfuncionais e de
baixa autoestima. “A Onda” oferece a esses adolescentes a oportunidade de uma
causa, um inimigo externo e o acolhimento do grupo, onde todos são tratados
como irmãos. Essa foi a base da construção de um grupo autoritário, onde os
dissidentes são tratados como inimigos e agredidos verbal e fisicamente.
Quando
eu vi a foto de um dos meninos acusados de estupro coletivo no Rio de Janeiro,
que chega ao depoimento com o rosto fechado e uma camisa com o logo e um
desenho com o slogan em inglês “Regret Nothing”, “Não se Arrependa de Nada”,
ligada ao influenciador “Red Pill” Andrew Tate, um influenciador e propagador
de discurso autoritário e de ódio às mulheres, que fez fama e fortuna virando o
líder virtual de uma horda de jovens de miolo mole, como demonstrado no filme
“A Onda”, e que propõe, como diz o slogan, de exercer violência e selvageria
sem nenhum arrependimento. Torne-se um psicopata e faça parte do grupo.
No
Rio de Janeiro, onde se deu esse caso de um ataque sexual a uma menina de
dezessete anos, organizado pelo ex-namorado, o número de delitos sexuais
cometidos por adolescente aumentou 93% nos últimos quatro anos. Isso vem
acompanhando essa escalada de grupos de ódio e Incells na internet profunda, que
esses garotos conseguem acessar. Podemos juntar os pontos de adolescentes
chutando cachorros na praia e esses meninos de Copacabana, que atacaram uma
menina que não conheciam e saíram comemorando diante das câmeras do prédio,
como se tivessem marcado um gol para seu grupo fascistóide?
A
aversão ao ódio deve virar matéria do Ensino Fundamental. Quando eu estava na
escola, a professora de Ciências nos propôs fazer cartazes contra o Tabagismo. As
taxas de tabagismo caíram por décadas e agora voltam a subir com os cigarros
eletrônicos. Está na hora de fazermos cartazes contra os grupos de ódio,
ensinando como são suas técnicas de recrutamento: criação de um inimigo comum,
supressão de dissidentes, empoderamento através da violência e isolamento das
pessoas de suas famílias e vínculos sociais.
Cuidamos
dos fracos e dos doentes desde os Neandertais. Isso nos tornou humanos. Isso
garantiu a nossa espécie, que não teria sobrevivido na base do cada um por si.
A tentação autoritária está prosperando e se espalhando pelo mundo e os
resultados estão aí em nossas telas. Os jovens adoecem nessa transição, pois
tem um Cérebro que ainda não atingiu a sua maturidade neurofisiológica e
cognitiva. Ter autonomia é bom, mas é preciso pais e educadores mais atentos e
dispostos a comprar a briga de dizer não ao ódio que entra em nossas casas em
diferentes mídias.
A
transição para a vida adulta tem, com muita frequência, a realização de atos de
transgressão. Antigamente, explodir privadas na escola era essa transgressão.
Grupos de Ódio estimulam a transgressão de valores que nos tornam humanos, como
o respeito e o cuidado com os mais fracos.
Está
na hora de regular o acesso desses caras aos grupos misóginos e que cultuam a
violência.
**Marco
Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São
Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiano e autor do livro “Stress: o
coelho de Alice tem sempre muita pressa”
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