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A Capital das Lombadas


A Capital das Lombadas - Gente de Opinião

O excesso de lombadas em Porto Velho já virou uma espécie de assinatura da cidade, um retrato fiel de como o trânsito é tratado mais na base do improviso do que da técnica. A cada esquina parece que alguém decidiu, por puro palpite, que ali precisava de mais uma elevação. O resultado é um percurso que lembra mais uma trilha de obstáculos do que vias urbanas. Lombadas em cabeceiras de ladeira, no topo de aclives, coladas a semáforos ou espremidas entre dois sinais e aquelas que controlam o próprio trânsito — tudo isso compõe um cenário que revela gestões que confunde segurança com exagero, como se a única ferramenta existente fosse a própria lombada.

Para piorar, muitas dessas lombadas parecem ter sido erguidas para atender a causas pequenas, quase particulares, mesmo quando isso prejudica o fluxo simples e ou desnecessário. Em vez de facilitar o deslocamento, cria-se um gargalo permanente. As ambulâncias que se virem com seus transportados; se o paciente precisa de rapidez, azar o dele — a lombada está lá, firme, imponente, lembrando que o concreto tem prioridade sobre a urgência humana.

E nem a Avenida Jorge Teixeira, hoje a principal artéria da cidade, escapa dessa lógica torta, justamente em seu trecho mais crítico, do Trevo do Roque e a rotatória com da Emigrantes (área federal), portanto sem lombadas, o fluxo vai correndo congestionado, as vezes irritante. Mas não estar imune, basta se aproximar do entorno do Hospital de Base para que elas surjam, orgulhosas, alinhadas, como se dissessem: “Aqui estamos nós, prontas para atrapalhar quem mais precisa de agilidade”. Isso nem a ponte do Madeira escapa, acredito, que só pra fazer inveja pra ponte Rio-Niterói.

E o absurdo não para por aí: a Avenida Rogerio Weber, especialmente no trecho próximo ao TRE, virou um verdadeiro festival de lombadas — três, para variar em menos de cinquenta metros — incluindo aquelas versões elevadas que mais parecem passarelas, supostamente instaladas para atender funcionários do órgão, embora o que menos se veja por ali seja gente atravessando. Duas outras foram plantadas atrás da Justiça Federal e, como se o exagero ainda não estivesse completo, colocaram mais duas na esquina com a Rio de Janeiro, fechando o pacote de obstáculos como se a cidade estivesse competindo por um recorde mundial de elevações por metro quadrado.

Para escapar do festival de lombadas na Rogério Weber, a solução encontrada por muitos motoristas foi desviar pela José de Alencar rumo ao centro, uma rota que por algum tempo funcionou como válvula de escape. Mas essa artimanha não durou muito: os artistas do trânsito logo descobriram o truque e, como castigo exemplar, instalaram duas lombadas ali também, como quem diz “não adianta tentar fugir, aqui ninguém passa ileso”.

A Avenida Jatuarana, que já é uma via complexa por natureza, com varias faixas de pedestres, agora recebe mais duas lombadas, como se o trânsito não estivesse suficientemente estrangulado. Quem sai da Campos Sales sentido BR pela única via expressa disponível terá de optar por uma bicicleta, porque carro ali virou um exercício de paciência e suspensão reforçada. Enquanto o caos no trânsito se aperfeiçoa, a resposta oficial parece sempre a mesma: dane-se o problema, lombada é a única solução deles, como se a engenharia de tráfego tivesse sido reduzida a um único item de catálogo.

A Rua Sucupira é outro exemplo perfeito do caos urbano travestido de planejamento. Ela poderia ser uma excelente alternativa paralela à Jatuarana, ajudando a desafogar o trânsito da Zona Sul. Mas, em vez disso, seus trechos mais estreitos mal comportam uma motocicleta, espremidos entre carretas e caminhões de supermercado de um lado e casas à beira de um verdadeiro precipício do outro. E, como se o cenário já não fosse suficientemente difícil, lá estão elas, marcando presença com orgulho: as lombadas, firmes e confiantes, como se dissessem “não importa o espaço, sempre cabe mais uma”.

Recentemente, em um desses vídeos de redes sociais, vi alguém chamando Porto Velho de “pérola do Madeira”. Muitas cidades têm suas alcunhas — o Rio de Janeiro é a cidade maravilhosa, São Paulo é a capital da garoa, Belém a cidade das Mangueiras, Maringá da Cidade Canção — e Porto Velho, de fato, que já teve bons momentos de brilho entre 1912 e 1972 nunca teve e bem que poderia tê-lo. Mas hoje, essa alcunha não se sustenta. A única coisa que realmente faz jus ao cotidiano atual seria chamá-la de capital das lombadas. Aí sim, ninguém poderia contestar.

Com essa fama, não é difícil imaginar para um turista chegando na city. O piloto do avião, ao se aproximar da cidade, quase poderia anunciar com naturalidade: “Senhores passageiros, estamos iniciando o procedimento de descida. A temperatura em Porto Velho, capital das lombadas, é de 32 graus. Por favor, mantenham os cintos afivelados — não por turbulência, mas porque nunca se sabe, se instalaram uma lombada na cabeceira da pista do Aeroporto Internacional Jorge Teixeira de Oliveira. Agradecemos a preferencia!” 

Ciridônio Aparecido

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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