Quarta-feira, 27 de maio de 2026 - 12h16

O
excesso de lombadas em Porto Velho já virou uma espécie de assinatura da
cidade, um retrato fiel de como o trânsito é tratado mais na base do improviso
do que da técnica. A cada esquina parece que alguém decidiu, por puro palpite,
que ali precisava de mais uma elevação. O resultado é um percurso que lembra
mais uma trilha de obstáculos do que vias urbanas. Lombadas em cabeceiras de
ladeira, no topo de aclives, coladas a semáforos ou espremidas entre dois
sinais e aquelas que controlam o próprio trânsito — tudo isso compõe um cenário
que revela gestões que confunde segurança com exagero, como se a única
ferramenta existente fosse a própria lombada.
Para
piorar, muitas dessas lombadas parecem ter sido erguidas para atender a causas
pequenas, quase particulares, mesmo quando isso prejudica o fluxo simples e ou
desnecessário. Em vez de facilitar o deslocamento, cria-se um gargalo
permanente. As ambulâncias que se virem com seus transportados; se o paciente
precisa de rapidez, azar o dele — a lombada está lá, firme, imponente,
lembrando que o concreto tem prioridade sobre a urgência humana.
E nem
a Avenida Jorge Teixeira, hoje a principal artéria da cidade, escapa dessa
lógica torta, justamente em seu trecho mais crítico, do Trevo do Roque e a
rotatória com da Emigrantes (área federal), portanto sem lombadas, o fluxo vai correndo
congestionado, as vezes irritante. Mas não estar imune, basta se aproximar do
entorno do Hospital de Base para que elas surjam, orgulhosas, alinhadas, como
se dissessem: “Aqui estamos nós, prontas para atrapalhar quem mais precisa de
agilidade”. Isso nem a ponte do Madeira escapa, acredito, que só pra fazer
inveja pra ponte Rio-Niterói.
E o
absurdo não para por aí: a Avenida Rogerio Weber, especialmente no trecho
próximo ao TRE, virou um verdadeiro festival de lombadas — três, para variar em
menos de cinquenta metros — incluindo aquelas versões elevadas que mais parecem
passarelas, supostamente instaladas para atender funcionários do órgão, embora
o que menos se veja por ali seja gente atravessando. Duas outras foram
plantadas atrás da Justiça Federal e, como se o exagero ainda não estivesse
completo, colocaram mais duas na esquina com a Rio de Janeiro, fechando o
pacote de obstáculos como se a cidade estivesse competindo por um recorde mundial
de elevações por metro quadrado.
Para
escapar do festival de lombadas na Rogério Weber, a solução encontrada por
muitos motoristas foi desviar pela José de Alencar rumo ao centro, uma rota que
por algum tempo funcionou como válvula de escape. Mas essa artimanha não durou
muito: os artistas do trânsito logo descobriram o truque e, como castigo
exemplar, instalaram duas lombadas ali também, como quem diz “não adianta
tentar fugir, aqui ninguém passa ileso”.
A Avenida
Jatuarana, que já é uma via complexa por natureza, com varias faixas de
pedestres, agora recebe mais duas lombadas, como se o trânsito não estivesse
suficientemente estrangulado. Quem sai da Campos Sales sentido BR pela única
via expressa disponível terá de optar por uma bicicleta, porque carro ali virou
um exercício de paciência e suspensão reforçada. Enquanto o caos no trânsito se
aperfeiçoa, a resposta oficial parece sempre a mesma: dane-se o problema,
lombada é a única solução deles, como se a engenharia de tráfego tivesse sido
reduzida a um único item de catálogo.
A Rua
Sucupira é outro exemplo perfeito do caos urbano travestido de planejamento.
Ela poderia ser uma excelente alternativa paralela à Jatuarana, ajudando a
desafogar o trânsito da Zona Sul. Mas, em vez disso, seus trechos mais estreitos
mal comportam uma motocicleta, espremidos entre carretas e caminhões de
supermercado de um lado e casas à beira de um verdadeiro precipício do outro.
E, como se o cenário já não fosse suficientemente difícil, lá estão elas,
marcando presença com orgulho: as lombadas, firmes e confiantes, como se
dissessem “não importa o espaço, sempre cabe mais uma”.
Recentemente,
em um desses vídeos de redes sociais, vi alguém chamando Porto Velho de “pérola
do Madeira”. Muitas cidades têm suas alcunhas — o Rio de Janeiro é a cidade
maravilhosa, São Paulo é a capital da garoa, Belém a cidade das Mangueiras,
Maringá da Cidade Canção — e Porto Velho, de fato, que já teve bons momentos de
brilho entre 1912 e 1972 nunca teve e bem que poderia tê-lo. Mas hoje, essa
alcunha não se sustenta. A única coisa que realmente faz jus ao cotidiano atual
seria chamá-la de capital das lombadas. Aí sim, ninguém poderia
contestar.
Com essa
fama, não é difícil imaginar para um turista chegando na city. O piloto do
avião, ao se aproximar da cidade, quase poderia anunciar com naturalidade:
“Senhores passageiros, estamos iniciando o procedimento de descida. A
temperatura em Porto Velho, capital das lombadas, é de 32 graus. Por
favor, mantenham os cintos afivelados — não por turbulência, mas porque nunca
se sabe, se instalaram uma lombada na cabeceira da pista do Aeroporto
Internacional Jorge Teixeira de Oliveira. Agradecemos a preferencia!”
Ciridônio Aparecido
* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.
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