Porto Velho (RO) quinta-feira, 15 de novembro de 2018
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Artigo: ELEIÇÕES 2006: Repensar o Brasil


Mais uma vez, estamos diante das eleições para os cargos dos Poderes Executivo e Legislativo em nível federal e estadual. A CNBB lançou, já no início de maio passado, um Documento de Orientações para as Eleições de 2006; trata-se de uma contribuição do episcopado católico para ajudar o povo brasileiro a participar intensamente da campanha eleitoral e a escolher bem os candidatos que deverão governar e legislar. O ano eleitoral é uma grande ocasião para rediscutir o Brasil e seria pena perder esta oportunidade. Tanto mais que temos muito a ser repensado em nosso País!

Cabe aqui recordar alguns oportunos ensinamentos do papa Bento XVI na encíclica Deus caritas est (cf. nº 28): O principal dever da política é promover a justa ordem do Estado e da sociedade. Evidentemente, nesta tarefa, a Igreja Católica reconhece a autonomia das realidades temporais, conforme declaração do Concílio Vaticano II (cf. Gaudium et Spes n° 36) e ela não quer substituir-se ao Estado, nem tomar em suas mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Isto é dever de todos os cidadãos e organizações da sociedade.

Ao mesmo tempo, porém, a Igreja tem o dever de oferecer sua contribuição específica, através da formação ética e da proposta de critérios de discernimento para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis nas diversas circunstâncias históricas e sociais. A Igreja está na sociedade e não pode ficar à margem da luta pela justiça.

Para isso, ela exorta os cristãos leigos a participarem com coragem e discernimento da atividade política para, conforme sua missão e competência própria, gravar a lei divina na cidade dos homens. O cristão não deve negligenciar seus deveres temporais: "Seria negligenciar os deveres para com o próximo e para com o próprio Deus" (cf. Gaudium et Spes, n° 43; Decreto Apostolicam actuositatem n° 14).

A reflexão séria sobre os grandes desafios do contexto atual não deveria estar ausentes no debate político entre candidatos e entre eleitores. Seria uma grande pena se o tempo fosse gasto com acusações entre os candidatos, ou para apresentar projetos vagos e irrealizáveis, só para encantar os eleitores; estes têm o direito de conhecer as propostas dos candidatos para enfrentar as grandes questões pendentes, como o desemprego, a pobreza persistente, a perversa distribuição da renda, a violência, a falta de uma política urbana e habitacional, o saneamento básico, as questões ambientais, a defesa da vida humana e da dignidade da pessoa. Para votar conscientemente, é necessário conhecer os candidatos e o que eles pensam sobre essas e outras coisas mais, e como pretendem enfrentá-las, se forem eleitos.

Voto não tem preço, mas tem conseqüências, por isso, não deve ser uma espécie de cheque em branco confiado a um desconhecido. É um ato de responsabilidade para com o Brasil. Por isso mesmo, a política tem uma dimensão ética e deve nortear-se por alguns critérios fundamentais, durante todo o processo eleitoral. É preciso avaliar  partidos e candidatos, suas propostas, seu currículo e seu perfil ético. Contrariamente, poderíamos estar apoiando, com o voto, candidatos com propostas contrárias à nossa consciência, somente porque nos prometem alguma vantagem?

O ano eleitoral pode ser um período de intensa formação da consciência ética e cívica dos cidadãos; em especial, daqueles que participam da vida política, "para que atuem sempre a serviço da promoção integral da pessoa e do bem comum" (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n° 571). A participação consciente e o interesse dos brasileiros nas questões do bem comum, através do voto, fará crescer e amadurecer a vida democrática do Brasil.

A esperança é que as muitas denúncias e escândalos de corrupção e mau uso do poder político, nesses últimos meses, tenham aceso um sinal de alerta na consciência dos cidadãos. Estes precisam ficar vigilantes para o cumprimento da lei 9.840, denunciando todas  as formas de corrupção eleitoral, como a pressão indevida do poder econômico, a oferta de favores em troca do voto, ou a compra de votos. Fatos comprováveis de corrupção eleitoral devem ser levados logo ao conhecimento das autoridades. Chegou a hora do povo brasileiro, verdadeiro sujeito político deste País! É o momento de pronunciar, através do voto na urna, o julgamento sobre os rumos que o Brasil deve tomar.

Dom Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São Paulo
Secretário-Geral da CNBB

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