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Artigo: DEDO NA TOMADA


 
Bruno Peron Loureiro

Como o Brasil poderá dar continuidade ao desenvolvimento se não resolver alguns problemas básicos de infra-estrutura?

O debate sobre a energia elétrica, quem e como deve investir nela, tem sido marcado pelo equívoco de dicotomizar a relação entre Estado e iniciativa privada, como se um dos dois fosse o ente demoníaco ou o salvador, e pela falta de planejamento em geração e transmissão, que digo que é o principal. Os efeitos são estagnantes para o país. É a mesma coisa que tentar dirigir sem o volante ou andar de bicicleta sem os pedais.
 
O Brasil é um país invejado em vários aspectos, porém assento no da riqueza em recursos naturais. Nosso país tem um potencial hídrico e uma capacidade instalada em hidrelétricas, que é aqui a principal fonte energética, de fazer outros países questionarem por que não foram eles presenteados com essa dádiva. O Brasil também desenvolve tecnologia própria. Aqui se alude ao tema da energia elétrica como a que tem carro, mas falta bom motorista, ou tem bicicleta, mas falta quem saiba pedalar.
 
Os falsos conselheiros não hesitam, porém, em vir com essa lorota de aumentar o uso de termelétricas, que são úteis em países com baixo potencial hídrico e só deveriam instalar-se no Brasil em caso de urgência. É preciso investir em geração e transmissão para que o sistema elétrico acompanhe o aumento da demanda de consumo. País que almeja o desenvolvimento não pode ter carência de energia. É um recurso que não pode faltar.

A lição do racionamento em 2001 corrobora meu argumento, pois os brasileiros não merecemos o discurso de que faltou chuva como justificativa.
 
A matriz elétrica de qualquer país é estratégica para seu desenvolvimento. Não é, portanto, um setor que se deve confiar às instabilidades do mercado ou às especulações senão à própria função do Estado de garantir o interesse público, o que não impede o investimento privado quando, onde e se necessário. A população brasileira pagou o preço em 2001: em uma década, o preço da energia elétrica dobrou e ainda tivemos que reduzir o consumo.
 
Titubeou uma das bases do desenvolvimento do país. Em vez de a gestão daquele período esclarecer-nos que conduzia no momento uma política de corte de gastos públicos e que a iminência das privatizações inibiu a urgência de investimentos estatais, culpou novamente a natureza, que de tão perfeita nos fez o favor de responder pelas inconsistências do jogo político. A crise solucionou-se, mas a orientação estratégica não.
 
No entanto, sustento o otimismo em que a força das águas fará girar as turbinas da transparência. Como uma criança que bota o dedo na tomada, toma choque, chora e não o volta a fazer, a questão da energia elétrica passou pelo momento do susto que a reconduziu no caminho do planejamento.

Fonte: Bruno Peron Loureiro

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