Sexta-feira, 13 de novembro de 2009 - 06h35
Bruno Peron Loureiro
Algo completo só acho que existe nominalmente. Ou no título de ensaios curtos como este ou poesias que decolam, mas aterrissam antes de redundar na especulação. Escrever ou falar sobre a completude requer uma ousadia rara. Um atrevimento que está longe de ser inédito ou de partir da vontade de uma só pessoa. Em que me inspirei?
Num dos diálogos por correio eletrônico que abri – e não fechei nem acho que o deva fazer – com a escritora do interior paulista Marisa Bueloni, ela me afirmou o seguinte: “[...] parece que a gente nunca está pronta [...] Sempre vai ficar faltando algo. [...] Termino um texto, mando pro site e ele é publicado. E ali, relendo, vejo como poderia ter escrito de outra forma, com outra sintaxe. Descubro um vocábulo mal colocado... Dá uma aflição desesperadora. Mas acho que arte é assim mesmo: nunca está fechada, pronta, acabada.”
Conversávamos sobre os desafios em torno da tarefa de escrever um livro, a evolução de um escritor em relação aos primeiros textos de uma carreira que é amadora para muitos, e – o principal tema – por que o amadurecimento nos deixa, aos habituados à escritura, a sensação de que os textos anteriores poderiam haver sido escritos de maneira diferente.
De ser assim, aguardaríamos eternamente o momento perfeito de emitir uma opinião, os artistas plásticos não desenvolveriam suas obras hoje porque amanhã poderão aprender uma técnica diferente, os pedreiros não construiriam uma casa jamais porque sempre ficará uma medida pendente, o médico não atenderia o doente porque lhe faltou conhecer em detalhes algum sistema vital, o dentista não extrairia a cárie hoje porque logo o paciente aparecerá com outra, e não teria graça ir à escola porque o conhecimento tem seus limites.
É certo que, quando releio algum dos meus primeiros textos, pergunto-me: Como pude escrevê-los em parágrafos tão longos? Um tema complicado, assim, logo no início? Não notei esse erro de concordância? Será que a leitura não pareceu maçante aos leigos? Por que não suprimi esse parágrafo e agreguei outro ali que fosse mais claro e explicativo?
Por mais que revise o texto, a fruta não amadurece enquanto não passem os dias. A completude não poderia obedecer a outra lógica senão a de que “tudo tem seu tempo”. E ainda que os dias, os meses e os anos transcorram, não a alcançaremos. A sede permanece. Assim como a sensação misteriosa de que algo poderia ter sido diferente.
O que não quer dizer melhor nem pior. Só diferente. Como valorizo alguns breves diálogos! A completude dá nó nas idéias e embaralha as ações. Se não desato os nós, ao menos puxo o cadarço. O ato há de gerar algum desabafo. Do tipo que desenrolam alguns destes textos concisos de opinião. Sempre provocam alguma coceira.
O tema é instigante, provocador e inescusável. Persegue-nos a ameaça de completude. Só não recomendo que se queira sempre completar, senão aparece outro nó.
Bruno Peron Loureiro é bacharel em Relações Internacionais.
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