Segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 - 14h19
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Professor Nazareno*
A estranha palavra do título deste texto foi o tema da Redação do Vestibular/ 2015 da FUVEST em São Paulo. É obviamente uma palavra totalmente desconhecida da maioria dos brasileiros. Para falar a verdade, é um neologismo e significa aquele sujeito que escolhe um camarote, uma área VIP, para se separar das outras pessoas. No Brasil, esta absurda separação não se dá por motivos religiosos, raciais, étnicos ou linguísticos, mas apenas por questões sociais. Aqui, o rico vive num mundo completamente distante e diferente dos pobres. Não temos bairros nem cidades somente para judeus, cristãos, negros ou muçulmanos. A nossa separação é social. Temos bairros de pobres e bairros de ricos em praticamente todas as cidades do país. Como nas castas indianas, a sociedade brasileira está cada vez mais se separando dentro de si mesma.
O Capitalismo é o grande motor que impulsiona esta aberração social. O nosso país tem uma das sociedades mais desiguais do mundo e desde o seu descobrimento vivencia uma verdadeira guerra entre pobres, a esmagadora maioria da população, e os pouquíssimos ricos. Ter dinheiro por aqui sempre foi sinônimo de status social e privilégios quase inatingíveis. Nossa sociedade nunca esteve tão dividida como agora. Têm-se coisas para pobres e coisas para ricos. Os nossos hospitais são visivelmente lugares que separam os brasileiros de acordo com a conta bancária. O precário sistema de transporte público está também dividido entre pobres e ricos. Ônibus velhos, sujos e lotados contrastam nas ruas com os carros de última geração. Até a nossa Justiça é diferenciada: rico tem bons advogados e se safa logo, já o pobre apodrece na cadeia.
Para os pobres ficam as precárias e péssimas escolas públicas municipais e estaduais. Porém, quando o assunto é Ensino Superior, a equação se inverte: os ricos vão para as universidades públicas e os pobres para as faculdades particulares na maioria das vezes. Em Porto Velho, a “camarotização social” é verificada no dia-a-dia da população. Todo final de tarde, o inacabado Espaço Alternativo da cidade vira ponto de encontro para as classes mais abastadas da nossa sociedade. De aparelhos Holter, aqueles medidores de batimentos cardíacos, a cachorros de raça estrangeira tudo é exibido como troféus aos mais incautos. Isso sem falar no desfile de roupas bisonhas, além dos adereços de toda espécie. Pobre quase não vai ao Shopping da cidade fazer compras. Ambiente de ricos e abastados, o lugar é ponto de encontro da tosca elite.
Hoje uma das mais exóticas manias de Porto Velho são as madames mostrarem seus grossos edredons comprados na mais nova loja de departamentos da cidade. Num lugar que faz 45 graus à sombra, quanto mais grosso, mais sucesso o rústico cobertor faz. Uma maneira nada sutil de dizer que se têm bons aparelhos de ar condicionados em casa. Coisas de dondocas mesmo. Passar férias de final de ano fora da cidade é a rotina mais cobiçada. Pobre dificilmente viaja de férias. Ir à Europa, nem se fala. E em tempos de Facebook e WhatsApp postar fotos na rede virou uma rotina doce para quem pode desfrutar destes mimos. “O bom não é ir para a Europa ou os Estados Unidos, é dizer para todo mundo que foi”, disse-me um amigo. Como se vê, os ricos estão querendo se distanciar cada vez mais dos pobres. Isso até o dia em que perceberem que todos, ricos e pobres, estamos vivendo no mesmo barco: um Brasil cada vez mais desigual e injusto.
*É Professor em Porto Velho.
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