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Luka Ribeiro

Unha encravada e a maldita de 64


Unha encravada e a maldita de 64 - Gente de Opinião

Duvido que a esta altura da vida você não tenha tido ao menos uma vez uma unha encravada terrível para entender a dificuldade de sumir com ela, a dor em cada passo, aquilo ali, pontinha, latejando, e sempre tentando retornar. O Brasil está com unha encravada. Há décadas.

Vai latejar e doer muito mais essa semana, quando novamente certamente aparecerão os que tecerão odes à maldita, ao golpe de 1964, que ainda hoje se manifesta e se arrasta entre nós como uma praga, uma erva daninha, essa unha encravada que ameaça o nosso sossego e a democracia. Uma doença mal curada. Vamos ouvir aqui e ali os ecos de Ordem do Dia, alguma bobagem que será lida nos comandos militares onde o golpe maldito é chamado de revolução, e a ditadura, de redentora. Por aí vai.

Em ano eleitoral, unha encravada foi a melhor comparação que achei para descrever o inferno e a distopia que há anos e anos temos enfrentado – parece castigo – cantilena que se repete dia a dia com as revelações, as falas, os conchavos de corruptos para lá e para cá, o uso desmedido da religião e da fé, sem que apareçam novas - eu disse novas - lideranças capazes de realmente promoverem mudanças importantes. Uma mão habilidosa com um alicate afiado que enfim nos livre dessa pontinha que tortura nossos passos no país tão rico e mal aproveitado que não alcança seu futuro.

Só aparece traste ou arremedo de traste, e quem tem acompanhado a recente e chatíssima inundação de propagandas de partidos na tevê vai me dar razão. Mulheres pregando a importância da participação feminina, legal! Mas logo depois, ao final, elas surgem juntas apoiando a candidatura de (mais uma vez) um homem, o bendito fruto entre as mulheres. Tem uns dois ou três anúncios desses, fora os dos partidos conservadores e mais à direita onde mulheres nos fazem corar de raiva quando pregam justamente o contrário das conquistas suadas que conseguimos, gritando moral ultrapassada, limites de ações libertárias, negando o direito das mulheres sobre o seu corpo e decisões. Aliás, muitas até já eleitas, mas das quais só ouvimos falar ou nesses momentos ou quando votam camboneadas pelos donos de seus partidos (uns homens muito esquisitos). Poucas são, infelizmente, as que nos orgulham.

É de doer.

Não é nem mais do mesmo. É muito menos do mesmo, o que recebemos. Nesses últimos dias a única coisa que deu gosto foi ver alguns artistas, “influencers” e celebridades se movimentando em prol da campanha para que os maiores de 16 anos tirem o título de eleitor, entendam que mudanças são feitas na vida real, não em redes sociais. Tentando espanar a apatia e o domínio dessa polaridade tão pouco criativa e limitadora que assistimos há tempos. Que já causou na última eleição a ascensão de um ser sabidamente despreparado e que, além de não admitir isso, carregou para dentro do poder sua família desequilibrada e cercando-se apenas de iguais, nos envergonhando inclusive diante do mundo. Um triste manancial de retrocessos, um poço de aleivosias. O país, aconteça o que acontecer, demorará muito para se recuperar. Dele. Da terra arrasada. Dos fantasmas antigos libertados que se sentem à vontade para atingir, mentir, enfrentar com violência os que a eles se opõem.

É preciso parar de votar anti isso ou anti aquilo; há muito não se vota mais a favor de alguém, mas contra outro alguém. Foi-se embora a mínima convicção política, a ideologia e o conhecimento, o posicionamento no arco democrático. Entrou, e perigosamente, a adoração, e por mitos de pés de barro, tão fortemente demonstrados em suas próprias trajetórias e tropeços.

Continuaremos nós com pedras nos sapatos, calos nas mãos de tanto trabalho para conquistar algo que sempre nos escapa, e ainda tentando fugir da pandemia que, embora continue matando centenas diariamente, contaminando milhares, tentam matar a pauladas e decretos, e que já-já vai é para os rodapés dos noticiários, atropelada pelas pesquisas eleitorais que demonstram exatamente o tamanho da unha encravada à qual me refiro como metáfora.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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