Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Luka Ribeiro

O Gigante Sem Cordas: a Trajetória do Pirarucu do Madeira.


O Gigante Sem Cordas: a Trajetória do Pirarucu do Madeira. - Gente de Opinião

O Pirarucu do Madeira não é apenas um bloco de carnaval; é um patrimônio vivo da cultura de Porto Velho. Com 34 anos de história, o bloco se destaca pela resistência em manter uma folia totalmente gratuita e inclusiva, sobrevivendo sem a venda de abadás e movido pela paixão de seus organizadores e foliões.

Nesta conversa, Luciana Oliveira, uma das lideranças à frente do projeto, revela os desafios de gerir uma estrutura gigante de forma independente. Ela compartilha os bastidores da logística, a escolha de homenageados em vida — como a emocionante história da Bailarina da Praça — e o papel social do bloco, que levanta bandeiras sobre o meio ambiente, os direitos dos povos originários e o combate ao assédio. Mais do que festa, o Pirarucu se firma como um manifesto político e cultural de inclusão nas ruas de Rondônia.

Entrevista: Luciana Oliveira 

"O Carnaval só é bom quando é inclusivo": A força feminina por trás do Pirarucu do Madeira. 

Ana Santos: Luciana, o Pirarucu é um dos blocos mais emblemáticos da cidade. Para você, qual o segredo para manter a essência do bloco viva depois de tantos anos?

Luciana Oliveira: É uma pergunta difícil de responder. A gente nem sabe como o Pirarucu está vivo e desse tamanho, porque ele tem custos, né? Como é um bloco que não vende nada, depende do apoio do poder público e dos foliões, que são nossos eternos colaboradores com pequenas quantias. Então, eu não sei qual é o segredo; é um mistério. Não é fácil manter um bloco durante tanto tempo — são 34 anos de vida — de forma totalmente gratuita e sem cordas. Esse também é o nosso grande desafio daqui para frente: o Pirarucu só cresce, e o que vamos fazer para custear essas despesas? Estamos sempre nos reinventando para agregar valor, conseguir o reconhecimento do poder público e buscar apoio.

A.S: Qual a lembrança mais marcante que você tem do desfile passado?

Luciana Oliveira: Ai, são tantas memórias! O Pirarucu não tem só a sua história, ele conta a história de muitas pessoas que passaram por ele. Nas suas músicas, o bloco traz as figuras do Carnaval de Porto Velho, pessoas que realmente são importantes para a cultura popular; cada uma é uma página riquíssima de memória. Agora, do Carnaval passado, a imagem mais emblemática que fica, sem dúvida, é a da Bailarina da Praça, que foi homenageada e teve a sua vida transformada. Foi o destino que a colocou no nosso sentimento para que ela estivesse em cima daquele trio e tivesse o reconhecimento que perseguiu por mais de 40 anos nas ruas. A vida dela deu um giro de 360 graus: ela conseguiu um emprego, comprou a sua casa e enfrentou o câncer com alegria. Isso vai marcar para sempre.

A.S: Vamos falar da preparação logística e dos bastidores. Muitos foliões só veem a festa, mas como funciona o "corre" antes de o bloco ir para a rua?

Luciana Oliveira: Essa é uma parte que só quem faz Carnaval de rua conhece. O folião, às vezes, pensa que é só chegar, ligar o trio na tomada e a festa está pronta. Mas por trás há uma burocracia enorme de documentação. A prefeitura sempre se mostra presente porque somos Patrimônio Cultural Imaterial de Porto Velho. Além da estrutura, tem a banda, os carregadores dos bonecos gigantes, seguranças, bombeiros civis, ambulâncias e coordenadores. Há 10 anos, o bloco saía "na tora", com um carrinho pequeno de som. Mas conforme cresceu, a responsabilidade aumentou. O nosso pagamento é a alegria do povo e um desfile em paz, sem violência.

A.S: Lu, como é feita a escolha do tema?

Luciana Oliveira: Sempre escolhemos pensando em alguém importante para a cultura popular e, de preferência, que esteja vivo. Perdemos muitos amigos na pandemia e lamentamos não ter homenageado pessoas como o saudoso Silvio Santos a tempo de eles verem o quanto eram importantes. Depois que o Silvio partiu, isso deu um "estalo" na gente. Já homenageamos a Lú Silva, o Bainha, a Bailarina da Praça e agora o Torrado, o menestrel do samba. O critério é ter legado e poder receber esse carinho em vida.

A.S: Como você enxerga o papel social do bloco para a comunidade?

Luciana Oliveira: O Pirarucu foi precursor de um formato de folia que não existia. Trouxemos campanhas contra a violência doméstica, contra o assédio e por um Carnaval inclusivo. Fomos o primeiro bloco a colocar um tradutor de Libras na abertura. Fizemos até campanha de reflorestamento, plantando seis mil árvores com o engajamento dos foliões. Nunca foi só folia; sempre quisemos transformar a mentalidade da sociedade.

A.S: Sendo uma liderança feminina, quais foram os principais desafios na presidência?

Luciana Oliveira: No início, você é vista com menor importância nos processos de licenças e autorizações. Mas eu e a Fabiane Fernandes, que é meu braço direito, nos impusemos como mulheres caboclas que realizam um trabalho organizado. Hoje falamos de igual para igual. Trouxemos detalhes e sensibilidades que só as mulheres observam, como o Manifesto Indígena em defesa do meio ambiente, algo inédito no nosso Carnaval.

A.S: Para finalizar, defina o espírito do Pirarucu em uma frase.

Luciana Oliveira: "O Carnaval só é bom quando ele é inclusivo." Se o Carnaval não tem espaço ou respeito para o idoso, para a pessoa com deficiência, para as mulheres e para a diversidade, ele não presta para nós. Essas pessoas são as nossas verdadeiras convidadas VIPs.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 21 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Contagem Regrassiva: Vai Quem Quer desfila dia 14 de fevereiro, sábado de Carnaval

Contagem Regrassiva: Vai Quem Quer desfila dia 14 de fevereiro, sábado de Carnaval

A contagem regressiva para o maior fenômeno do Carnaval do Norte já começou. Faltando menos de 15 dias para o desfile do bloco (14 de fevereiro), a

"Movimento Vem Rondonizar" prepara intervenção cultural homenageando os melhores carnavais populares de rua do Brasil em Porto Velho

"Movimento Vem Rondonizar" prepara intervenção cultural homenageando os melhores carnavais populares de rua do Brasil em Porto Velho

O Movimento é composto por produtores culturais, artistas, empresários, jornalistas, turismólogos, comunicólogos e pessoas simpatizantes ao tema e p

Vai Quem Quer une sustentabilidade e campanha contra a violência à mulher

Vai Quem Quer une sustentabilidade e campanha contra a violência à mulher

Marcado pelo sucesso, o mega adesivaço do maior bloco carnavalesco da região Norte, a Banda do Vai Quem Quer (BVQQ), começou marcado pela ansiedade

Mega adesivaço da Banda do Vai Quem Quer acontece neste sábado na sede do bloco

Mega adesivaço da Banda do Vai Quem Quer acontece neste sábado na sede do bloco

No próximo sábado (17), a partir das 8h, acontece o mega adesivaço da Banda do Vai Quem Quer (BVQQ), na sede do bloco, localizada na Rua Joaquim Nab

Gente de Opinião Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)