Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026 - 10h05

Durante anos, sempre no fim de
março publiquei e dediquei um artigo escrito ou falado pelo rádio alertando
sobre os excessos do golpe perpetrado por militares no dia 01 de abril,
convenientemente puxado para um dia antes fugindo do Dia da Mentira e com a
denominação palatável de revolução em vez de golpe de estado. A razão era para
não nos esquecermos de que o poder emana do povo e não de grupos, governo ou
partidos.
O tempo passou e de repente a república
brasileira avançou a passos largos para o autoritarismo com o viés de esquerda,
com a corrupção e o populismo formando a base para algo que se sentia, ainda
que ocorrendo sutilmente, como a forte correnteza no fundo do rio que se
esconde na aparente calma da lâmina superior. Chegamos ao 8 de janeiro de 2023
passando por outros momentos parecidos, mais organizados e até com maior
impacto em termos de violência, mas muito longe da força expressiva dos atos de
vandalismo de 8 de janeiro de 2023 que convenhamos, foram um ataque inaceitável
às instituições e ao patrimônio público. Não há relativização possível para a
depredação nos Três Poderes, nem para a violência ocorrida naquele dia.
A resposta do Estado era
necessária, mas aqui começa a questão, quando as narrativas centraram na defesa
da democracia e num crescendo assustador deu lugar a um discutível processo com
verniz de legalidade à exploração política vergonhosa e indecente do episódio,
lamentável pelos resultados, sob qualquer ótica.
A partir daí o governo federal
adotou uma narrativa rígida, quase dogmática, para transformar o 8 de janeiro num
marco absoluto do “bem contra o mal” e tudo passou a ser enfeixado nas mãos do juízo
de terceiro grau quando deveria ser no juízo de primeiro grau e a girar em
torno da tese de uma “tentativa de golpe contra o estado democrático de
direito” plenamente estruturado, como se os acontecimentos não comportassem
gradações, falhas institucionais ou responsabilidades comuns e compartilhadas.
A complexidade dos fatos foi sumariamente dispensada das necessárias análises e
sacrificada em nome de uma versão politicamente funcional criada pelo STF, um
caldo para a escalada de monstros jurídicos impossíveis de existirem na lei.
Essa leitura oficial tem
servido para algo além da punição de crimes: tornou-se instrumento de poder. Ao
enquadrar todos os envolvidos como integrantes de um mesmo projeto golpista, o
governo diluiu o princípio da responsabilidade individual e normalizou punições
que muitas vezes são mais exemplares do que justas. É aqui que tenho de voltar
no tempo em que me dedicava a combater o golpe de 1964 em artigos e editoriais. Em uma democracia madura, o clamor por
respostas não pode atropelar garantias fundamentais explicitadas no art. 5º da Carta
Magna, no arcabouço jurídico, nas leis, jurisprudências e muito menos substituir
provas por narrativas. Sabem disso o povo, o Congresso, os militares e claro, como
não poderia deixar de ser, o STF.
Mais grave ainda é o silêncio
conveniente sobre as falhas do próprio Estado. Como explicar a inoperância dos
sistemas de inteligência? Onde estavam as autoridades responsáveis pela
segurança da capital? Onde foram parar as imagens das câmaras do bunker do
senhor Dino? Onde está a explicação do presidente da República e auxiliares
diretos como o General G.Dias? Tais perguntas raramente aparecem com destaque
no discurso oficial pois o governo prefere a narrativa confortável dos fatos, onde
o erro foi externo e não institucional e assim, hoje, sem povo nas ruas, os
arremedos de festa cívica vencida por bastiões togados da democracia irão
ocorrer em algumas cidades e recintos fechados pelos heróis do nada absoluto.
O 8 de janeiro também passou a
ser usado como arma retórica contra adversários políticos. Críticas legítimas
ao governo são frequentemente associadas, de forma oportunista, aos atos de
vandalismo. Cria-se um ambiente em que discordar é suspeito, questionar é
perigoso e o debate público se empobrece. Democracias não se fortalecem com
intimidação moral, prisões injustas e censura, mas com pluralidade e confronto
aberto de ideias. A defesa da democracia exige firmeza, mas também exige
honestidade intelectual. Transformar o 8 de janeiro em um símbolo político
permanente pode render dividendos no curto prazo, mas cobra um preço alto: o
enfraquecimento do Estado de Direito e a corrosão do debate público. Quando o
governo escolhe a narrativa em vez da verdade completa, não protege a
democracia — apenas a instrumentaliza.
Leo Ladeia, 08 de janeiro de
2026
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